A sensível

por Celane Tomaz

Dirigia, como sempre, sem poder dar muita atenção à sobrevivência desordenada da cidade que a cercava. De súbito, logo pensou e, veementemente acreditou, mesmo compenetrada, que o seu olhar a salvava. Com os olhos atentos às luzes, ao asfalto e ao fluxo monótono de veículos e de existência, compreendia que seu olhar com frequência a resgatava dos cinzas de vida opaca. Pelos olhos, significava a realidade e o mundo, atribuindo-lhe seu próprio sentido. Percebeu que exercia poder. Um poder tão íntimo e inofensivo, ambicioso de vida e ingênuo, longe de ser cruel – a não ser, por algumas vezes, com ela mesma.

Indagava ser mulher feita com os olhos de criança, uma alma-menina num corpo de mulher madura. Logo, se contraía e evitava crescer, pois crescer seria perder o sentido raro e invisível – sua poesia ocular.

Mesmo que desejasse, já não podia ser indiferente aos próprios olhos. Era incapaz de se desviar de seu próprio olhar. Sofria de sensibilidade aguda, pontadas constantes no peito. Náuseas e mais náuseas que a faziam vomitar lucidez. A “fraqueza” que lhe dava uma realidade suportável.

Podia ver com clareza, indo ao trabalho, os mistérios da vida numa árvore ressequida e as aflições nas folhas pelo chão, que ainda a veneravam. Podia compreender todo o sentido de viver no sorriso de uma criança no colo da mãe e o infortúnio da juventude perdida numa foto 3×4 pisada na calçada. Via e sentia o belo e o vil, a injustiça e a paz penetrar suas entranhas, provocando as mais impronunciáveis sensações e os mais transcendentes pensamentos.

Já era sem cura. E tanto ver a maltratava. Paradoxalmente sofria desse prazer que transcendentalmente a dilacerava. Olhar no fundo dos olhos do espanto era ver nu o deslumbre, mas também encarar a transparência da maldade e do medo.

Percebeu que dormia sobre a miséria do mundo. Via as cores da desigualdade, percebia a forma da desumanidade, esbarrando os olhos nos interesses alheios, na insanidade, no ódio e no egoísmo. E era um tanto de dor e revolta que só dilatava as pupilas.

Mas sabia que sua doença também era cura. Transformava a dor em poesia e encontrava alento nos retratos que fazia do céu de todos os dias. Fazia das incertezas monumento de palavras e moldava suas inquietudes num poema. Lia e compreendia a natureza, observando e registrando as silhuetas do mundo, e alto se alcançava escrevendo os dos outros e os seus próprios abismos.


Acometida por sensibilidade em fase já avançada, entre buzinas e sermões, a salvação estava nesses olhos que a espalhavam.

7 comentários em “A sensível

  1. Perceber, sentir em demasiado é dolorido mas como vc bem disse também é cura dos próprios abismos. A cada dia me torno ainda mais sua fã, Celane. Imensa honra poder viajar em seus escritos.

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  2. Que lindo!!!! Como o externo entra pelos olhos, dói, machuca e renasce em palavras para curar a todos, curar o mundo. É tão íntimo, tão único e tão coletivo também.

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  3. Como disse Jesuana ainda ontem, se o sujeito acha um significado em sua existência ele consegue suportar qualquer infortúnio. Quando a palavra é o sentido da existência há um encontro único que se expande para além do sujeito. Lindo quadro tecido e pintado pela beleza da palavra. Parabéns!

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  4. Celane, só agradecimento por este texto! Me encontro em suas palavras, nas dores e olhares que convivem em mim, em nós. Esse sentir precisa se expandir e ganhar morada em outros, assim sinto ao ler este texto e saber que já mora em mim.

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  5. Encantada com a capacidade de traduzir a sensibilidade se espargindo de dentro pro mundo. É como se o olho mesmo tivesse o poder de colorir tudo, ao mesmo tempo que se contagia por ele. Isso é sentir. Texto lindo demais! Obrigada por melhorar meu dia!

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