Cabeça, olhos, joelho e pé…

Milton Dacosta

Carolina Tomoi –

Aquele quintal era tão grande, tão grande que uma vez desci rolando umas sete exageradas vezes, para pessoa que não contava mais que os dedos de uma mão. Parei de encontro ao muro, ainda bem que o freio foram as costas mesmo que o mundo teimasse em continuar a girar. Lá estatelada, me perguntava se após rolar havia chegado ao céu ou se nunca havia reparado quão longa e íngreme era aquela descidinha. Como passara pelo estreito corredor? Certamente há um deus pelos bêbados e criancinhas!

Outra comprovação da extensão infindável do quintal tive quando a carne moída do meu dedão esfarelara ladeira abaixo por causa do chinelo enroscado no pedal da motoca, daquelas lustrosas pelo uso de sei lá quantas gerações de primos, por sua vez ganhado da filha de uma patroa. Aliás, não importava, de mentira ou de verdade, tudo era brinquedo, tudo era brincadeira. Até casquinha de machucado, cicatriz, unha roída, prego no pé.

Cabeça de vento e de joelhos sangrando, sempre. Ou então os cotovelos que sempre teimavam em roçar naquele maldito reboco, mas o pior mesmo era quando ralava por cima do ralado… lá se ia sua casquinha há tempos cultivada. O sabão e a água quente ardendo de novo, o sufoco pra desgrudar a pele seca da blusa de frio, o band-aid que solta cola bem em cima da ferida. O único consolo mesmo era aquele frasquinho milagroso. Só de abri-lo, a mão já ficava toda vermelha. Aquela tampinha com um cabinho e a peneirinha retangular na ponta, era o mercúrio-cromo.

Quando passava até que dava aquele friozinho, mas nada comparado ao ardido merthiolate. Depois ficava aquela manchona vermelha e o vermelho escorrendo por sua canelas sujas. Eu corria demais pra cá e pra lá, olhando sempre pros lados, pro céu, pra cima. Quando não era um eram os dois joelhos, os dedões se topando, canelas arranhadas, pés virados. Até depois de adulta já quebrei os dois pés, um de cada vez, igual à caxumba: primeiro de um lado, depois de outro e por fim uma íngua na papada. Me olhava no espelho e chorava. De desgosto, porque não doía, e também por não poder ir à escola… já quase um mês.

Tinha medo de pular. Acho que nunca gostei de não sentir os pés no chão, tocando alguma coisa. Então nunca pulava o vão da escada. Nosso quintal era elevado para o nível da rua e para sair era necessário descer. Ficava o vão e todos pulavam. Até meu irmão pequeno. Eu fazia o portão de ponte e era única.

Assim aprendi a escrever. Sozinha no quintal. Não porque não quisesse ir pra rua com toda molecada, é que sempre fui obediente. Me lembro de ver a palavra C I N C O surgir meio a meus elefantes e palhaços brancos no céu. Depois de desenhar com os dedos na caixa de luz a palavra, já que o número não lembrava como fazer, baixei o olhar, vi o pé sangrando, havia pisado num prego enferrujado.

Já não me lembro de tudo, sentada e sem ar, vendo o chinelo gasto e encardido sendo manchado de vermelho. Acho que minha mãe me deu banho e me lembro do caminho ao hospital no colo de meu pai. Sem chinelos, pra tomar injeção mais doída que bezetacil. O que mais queria não ganhei: o curativo – troféu entre as crianças – nem mancha escorrida de mercúrio. Só água, sabão e ar livre.

É ao ar livre e em dias de céu azul que hoje e agora as palavras pulam de minha caneta como nuvens azuis no papel límpido. É ao ar livre que lembro da indignação de não receber a medalha dos que voltam feridos da guerra no quintal, mas ao menos ganhei carona pra voltar, afinal não tinha chinelo. Lembro também do caminho das G O T A S de chuva que pululavam por meus olhares naquelas passadas largas que lusca-fuscavam nas esquinas de minha alfabética-infância.

Ouça nossa voz: Cabeça, olhos, joelho e pé.

15 comentários em “Cabeça, olhos, joelho e pé…

  1. Eu que sempre tinha a cabeça dos dedos arrancadas por topadas, custou para aprender a olhar por onde andava, cabeça nas nuvens! A infância é sempre esse lugar que nós voltamos para aprender a ser gente de novo. Lidar com a dor, aprendizado para vida toda! Lindo demais, Carol! Queria ter te conhecido neste tempo. Fico imaginando como seria este encontro. Amo te!

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    1. O maior medo da infância: era molhar o machucado no banho rs. Hoje reconheço tantos privilégios que a vida me trouxe, apesar de algumas faltas, não viver violências e ser amada é, absurdamente, um privilégio. Como isso dói e corrói!

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  2. Enquanto passeava junto com vc, Carol, fui sentindo os prazeres de espoleta que TB era. O rolar morro abaixo, no meu caso, por vontade. As casquinhas, companheiras inseparáveis… Em casa não usávamos mercúrio cromo. Tinha que arder, se não, não sarava. Kkkkk Reviver aquele arrepio de frio que sobe por dentro, quando li do prego. Texto de delícias e dores.

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  3. Que delícia, brincar…. bons tempos aqueles que nos apresenta em seu texto, o seu texto me levou a revisitar uma defensora da brincadeira: Lydia Hortello que disse: O homem só é inteiro quando brinca, e é só quando brinca que ele existe na completa acepção da palavra homem” . Parabéns Carol.

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  4. Lindeza de aventuras dessa criança, vi um filme de travessuras que sem medo a gnt encarou. Parabéns por acionar a memória da nossa infância e olha que vc nem usou uma capa de herói e se enroscou no meio do vôo … Bjsss e gratidão pela emoção.

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  5. Ah que texto-delícia de rememorar infâncias e as crianças que vivem em nós! Me lembrou um poema de Alberto Caeiro. O poema do menino Jesus. Trechinho aqui para ti: “Ao anoitecer, nós brincamos nas cinco pedrinhas do degrau da porta de casa. Graves, como convêm a um deus e a um poeta. É como se cada pedra fosse um universo e fosse por isso um grande perigo deixá-la cair no chão.”

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