Putz!

Arlete Mendes-

A curiosidade me conduziu ao estudo da linguagem, dentre tantos fatos a desvelar queria saber o porquê da última flor do Lácio ser tão profícua em palavrões. Há teorias que apontam a linguagem como organizadora do pensamento. Intui que nossa maneira de pensar está muito associada ao ato de profanar. Os castos puristas que me perdoem, mas a maledicência se deu primeiro além Tejo!  Se os que por aqui aportaram faziam-se de santo, revezando-se entre missas dominicais e fornicação, é porque desde lá a danação era grande.

Curioso, não há registro de vituperações nos estudos da língua tupi-guarani. É dentro das culturas forjadas com o peso da culpa e do pecado que se acirram as dicotomias entre o elevado e o baixo, entre o sagrado e o profano, ou seja, entre a palavra e o palavrão.

Nessa senda de descobertas, percebi que os opróbrios estavam sujeitos a variação. Costumam dispor de tanta força expressiva, fato que já intuía antes de conhecer as teorias, que seria quase impossível para um usuário da língua sobreviver sem ao menos uma expressão de impropério.

Vejamos: “Caramba!”, pelo uso já se fez uma expressão gasta, hoje considerada até inocente, hit do Chiclete com Banana em antigos carnavais, mas que ainda ontem batiam em nossas bocas caso involuntariamente, numa topada, a pronunciássemos.

Muitas mulheres a nossa volta faziam uso de palavrões alusivos, como é o caso dos palavrões frutíferos: “Pitomba!”, a sequência de “p”,b”, duas bilabiais, uma surda outra sonora, ambas explosivas, vem muito bem a calhar com a intencionalidade de explosão do momento. Temos ainda: “Carambola!”, “Vá comer caqui!”, e a sua variante regional: “ Vá comer pequi!”, que se explica pelo apelo a repetição sonora entre “CO-(mer)“ “CA-QUI”, e o pequi porque é uma fruta difícil mesmo de comer, devido ao travo e aos espinhos.

O palavrão revela muito da sociedade que o produz, o quanto progressista ou retrógrada ela pode ser. Não podíamos sequer fazer uso desses recursos linguísticos, era algo do campo masculino. Meninas elevadas de corpo e espírito jamais poderiam proferir tais palavras. Apesar de ouvir os meninos fazerem largo uso.

A juventude contemporânea rompeu tais barreiras, o xingamento ganhou até mesmo sentido afetuoso. Ser “phoda” é sonho de nossos meninos e meninas. Aqui a palavra ganha um arcaísmo, apesar de não ter em sua origem etimológica a presença do “ph!”, “foda” vem do Latim, “futuo”, fazer sexo, eis que a força dessas duas consoantes promove certo grau de autoridade. E como o ato sexual pode ser muito bom ou muito ruim, o palavrão ganhou essa ambivalência.

Outras observações que acho pertinente compartilhar. Palavrões são melodicamente calculados, quando dizes um “Puta que pariu!”, “Vai tomar no cu!”, estais a poetizar tal qual um Gonçalves Dias em I-Juca Pirama:

“Sou bravo, sou forte

 Sou filho do norte

Meu canto de morte

Guerreiros ouvi”

Percebam que ocorre o mesmo tipo de verso em redondilha menor.

Palavrões são frutos de operações complexas na linguagem, passam pela figuração, pasmem, não são apenas os poetas que fazem uso de metáforas ou metonímias. Claro que muitos deles fazem referência à vida sexual e à escatologia, condições as quais os corpos estão vinculados em sua materialidade, entretanto, por conta do falso pudor culturalmente disseminado, essas expressões seriam forjadas pretensamente para causar o constrangimento do outro, quando, de fato, revelam nossa mais concreta essência. Excrescência. Por isto que quando nos induzem a situações de raiva e descontrole são tão indispensáveis, trata-se de um retorno ao que somos, em suma.

Poderíamos evitar muitas suspensões escolares se resolvêssemos esse imbróglio de meter a mãe no meio, ora se, mas quem controlará os impulsos linguísticos motivados sobretudo pelo calor do recreio?

Atualmente em alguns círculos de debate sobre o feminismo tem se requerido a inversão de certos palavrões que valorizam a potência do membro reprodutor masculino para que também o órgão reprodutor feminino seja visto positivamente. Todas as tentativas de ressignificação são válidas, mas só a frequência de uso e ampliação dele para fora dos círculos identitários, a ratificação do vocábulo por classes sociais de prestígio, seguido da apropriação desse verbete pelas classes de menor prestígio social é que dirão o que se estabilizará ao ponto de serem dicionarizados e amplamente reconhecidos. Se “Caralho!” serve tanto para designar situações marcadas pela positividade, quanto pela negatividade, a “Boceta!” atualmente reclama por equidade. Se será “bom pra Caralho ou bom pra Boceta”, só o tempo nos dirá.

Sob o aspecto psíquico há um prazer libertário no palavrão, que vai além do poder da vingança, ou batalha de egos, o uso dessa forma linguística, se bem empregada, eleva o falante a condição de bom estrategista com o “touché” garantido. A palavra se faz arma, às vezes a única possível.

Diante do aspecto retórico, o argumento “ad hominem“, sempre condenado, em certas horas, cai como uma luva, e com um golpe impiedoso desarma-se o adversário, este que outrora procurava desestabilizá-lo pela via lógica cartesiana do discurso é atingido em suas partes baixas. Apesar de sabermos que o interlocutor conseguiu exatamente o que queria, fazendo o sujeito perder a estribeira discursiva, há um prazer catártico em desqualificá-lo. Como se o impropério lavasse a alma, apesar de fazer perder a discussão.

Há os casos de legítima defesa e há também quem o faça sem motivo algum, apenas por falta de repertório linguístico, ou numa tentativa fracassada em demonstrar potência fálica através da palavra, quando a força fálica está, há muito tempo, comprometida: caso do atual presidente.  

Avaliando sociologicamente “Filho de uma ronca e fuça”, verso em redondilha maior, para que ninguém esqueça. Roncar e fuçar são atributos de um animal valioso, a quem devoramos até os dentes, mas teimamos em depreciá-lo quando este se encontra in natura, depois de morto só ganha elogios, assim como fazemos com os nossos próprios mortos, coisa do ser humano, só se valoriza um ente após a sua morte. Ninguém olhará para o rosado tender com calda de ameixas e abacaxi, primorosamente decorado com cravos, e lhe dará atributos que não sejam os mais aprazíveis.

Deixemos de lado o porco literal, vejamos o termo figurativamente, quando se diz que a mãe do seu semelhante é uma porca, que não tem modos, não tem asseio, não tem pudor, sequer tem o dom da palavra de tão animalesca, pois quando diz apenas grunhe, de fato, estamos diante do cerne de muitos xingamentos: levar o humano a condição de não humano.

Porco, besta, vaca, galinha, piranha, jumento, égua, anta, desempenham semelhante papel, guardadas as devidas proporções dadas às variações no campo lexical, pautadas em cada atitude animalesca. Essa visão erroneamente eleva o ser humano a uma condição superior a dos animais, como dominador no mundo natural e senhor de suas vontades, contudo, o atual momento histórico tem nos mostrado que seres vivos de menor complexidade celular deflagraram em nós comportamentos controversos.

Hoje somos nós as animálias a usar focinheira e arreios.  Se a associação ao mundo animal é ofensiva, trata-se de um grande equívoco, quando, na verdade, quem deveria se sentir ofendido são os demais seres vivos a nós associados, a espécie humana está sem crédito na praça, e se o burro escoiceia, relincha e se indigna ao ouvir: “Você é homem pra caralho!”, não nos espantemos, já que um pequeno vírus tem propagado nossa essência bestial e rido de nossa cara numa grande troça.

Ouça nossa voz: Putz!

Publicado por arlete mendes

escrevinhadeira, educadora, mãe de meninos e meninas, amante da música, da literatura, da vida!

8 comentários em “Putz!

  1. Amei demais, hj machadiana ao extremo, Arlete nos faz viajar pelas enigmáticas ondas de nosso luso- tupiniquim linguajar enquanto esbanja habilidades maestrinas de espezinhar… O melhor, só entenderão as injúrias quem não é injuriado. Um dia aprendo contigo amada!

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    1. Lendo seu texto, veio uma palavra, corri procurar, ver se era palavrão, kkkk Queria que fosse, iria ornar. Mas ainda assim, é perfeita. Então Arlete, seu texto é do Balacobaco.

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  2. Não tive como passar pelo texto sem recordar meu avô que xingava de bacataré e quinta coluna. Depois de adulta foi pesquisar e descobri que bacataré é idiota e vem do japonês. Quinta coluna era usado em guerra para designar aquele que se infiltrava entre os inimigos. Fico imaginando que para ele que viveu tempos de guerra esses xingamentos eram terríveis. Ainda deveriam ser, mas estamos em tempos em que delator é praticamente celebridade. Tempos doído, esses e aqueles.

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  3. Hahahahaha, amei! Não contive as risadas, por me lembrar da minha ancestralidade portuguesa e como já me surpreender com tanto palavrão na boca de um povo tão católico e defensor dos “bons costumes”. Há beleza na dualidade da vida. E me veio à mente o termo grelo-duro, que tanto uso com minhas amigas. Amei Arlete!

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  4. Ótimooo. Lembrei-me muito de um causo de um italiano que estava em Alagoas e não sabia identificar nossos palavrões. Dizia que alagoanos não falavam palavrões, mal sabia que “vai se lascar” “febre do rato”, “boba da peste” É TUDO PALAVRÃO PRA NÓS.

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