Uma mulher

por Celane Tomaz

Começou com a noite mal dormida. Um pesadelo a fez acordar muito inquieta, com um peso sobre o peito.
Observou a noite se tornar dia. Enquanto se arrumava para se lançar à rotina, conversava com Maria e explicava os espaços vazios e desarrumados da casa. Tomaram café da manhã juntas por bastante tempo. Conversaram sobre juventude, casamento, ser mulher. Maria relatou segredos que a deixaram muito extasiada. E ela já se sentia nua, de pele à mostra, pelo amanhecer do dia.
Maria falou sobre desejos calados, ingênuos medos, estupro no casamento, autoanulação, traumas, a maternidade que lhe foi roubada, o corpo violado, as violências que não sabia dar nome, o sentir silenciado e a mulher que era. E seus olhos desabaram pela culpa que sentia por não ser quem queriam que ela fosse. A mulher para os outros e não para si, refém da culpa por tanto e que com muita dificuldade, se percebia.
Com os olhos atentos e paralisados, e o gosto quente do café amargo, pensou muito nas semelhanças e nas diferenças que as uniam, apesar das distâncias, dos pesos e dos tempos. Pensou em todas as mulheres. Nas mulheres que crescem e nos homens que educam. Pensou e sentiu muito, em todos os seus sentidos. Sentiu a ela mesma de um modo muito diferente. E foi infernal.
Pensou em como estava sendo doloroso, doído na carne e na alma, se tornar a mulher que se expandia dentro de si num doer de ossos. Tudo doía. E há dias a contração a arrebatava. Pensou em como se retorcia na dor de amadurecer, avançar, recuar, virar do avesso. Dilacerava verbalizar tantas consciências e não saber como agir, organizá-las num emaranhado complexo entre o que era essência e novidade. Uns fios soltos em que o sentir se amarrava e se impunha, e a razão era frágil, fiapo de nada.

A procura incessante de um jeito de vida que também matava.
Pensou em como queria com força ser e poder se exercer fluída. Mas naquele instante, só era feita de contradição.
Pensou no seu entusiasmo pela vida. Outra contradição ao pensar que a fuga deste plano era um desejo que a corrompia, o barulho do mundo a contraía e o grito dele provocava o seu grito – ambos num eco uníssono de medos.
A notícia do suicídio da filha de uma amiga a parou.
Qual é o sentido que nos faz?
Queria então um mundo só dela. Mas um mundo nos moldes do ideal? E o enfrentamento do real? E a obsessão pelo ser? O verbo? A palpável existência? Queria os dois – o seu mundo neste mundo de enganos (que também o era).
A liberdade que queria era a unicamente dela, desconhecida, indecifrável. Ela mesma se recusava a explicá-la.
Pensou no ser que se fazia nas palavras, nas últimas falas tão sensatas, os vários contextos, com diversas pessoas e como reverberaram.
A agonia de se fazer pelo verbo. Uma constante entre orgulho e negação sobre o que a mostrava a si pela constante necessidade de palavra.
Pensou nas palavras que a faziam. E o tanto que dizia, mas que nunca falava. E ainda a incompletude e o vazio dos muitos discursos que fazia. Nisso, estavam silenciadas suas muitas falas – as incompletas, as soltas, as lançadas na ânsia de se fazer existirem, e que não teve a chance de falar e, mesmo assim, ressoaram.
No seu silêncio também cabia a incompreensão, pela ilusão de sensibilidade. A sensibilidade em dormência.
O café esfriava. E nem sabia se ainda tinha alma.
Pensou naquelas poucas horas de vida que a tornaram vulnerável e perdida. Pensou no tanto de vida que não a cabia mais, no tanto de vida que queria e nos espaços inabitados que se abriram, fecharam, abriram… Pensava até no que não sabia dentro disso tudo – sobre o agora. A cega lucidez. Um corpo estranho. O tanto que a faltava. O gole de café gelado. A perda dos limites e da percepção dos contornos – os delas e dos outros – os eus.
Naquele fundo escuro de xícara quase sem café, se reconhecia irreconhecendo. E ela só queria a utopia de estar pronta.
Uma inútil tentativa de preservar a sensatez diante do caos que se punha, diante das confusões que se mantinham, do muito sentir desesperadamente suspenso, impalpável, e do tanto que tentava fazer daquilo um conflito ordenado, mas ainda era conflito.
Não havia fuga. Por instantes, somente tentativas vis, estúpidas e vãs de terminar o seu café, de partir para a rotina e se dar aos tapas nas faces que a esperavam.
Permitir-se para ela era vazio, mas sem saber como, ainda assim era o que precisava.
Sentia se distanciando de tudo, e mesmo compreendendo tanto, muito não alcançava.
Ela se via presa dentro de si. Dentro de um eu que queria dela seus olhos e um desconhecido que também a mantinha e sustentava.
Era outro dia de café, atrasos e cansaço, mesmo depois do descanso da pausa nesse sono acordado de tudo.

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