Abraços

Gustav Klimt

por Ana Karina Manson

“Não aguento mais ficar aqui como uma margarida num jardim de móveis”, disse a menina cansada de ficar em casa.

Ela sabe das razões desse isolamento, é inteligente, sabe que precisa se proteger e sabe mais ainda: precisa proteger aos outros, principalmente os mais velhos; principalmente sua avó querida.

Há entre as duas um mistério, algo especial que ninguém sabe explicar, nem elas.

Para quem as conhece sabe que essa conexão vem desde os tempos em que a pequena era gerada no ventre de sua mãe – elo entre as duas. Era só a avó falar e a menina fazia visíveis ondulações na barriga da mãe. Quando nasceu, cessava o choro e reconhecia a voz da avó.

A menina cresceu, dizendo a quem quisesse ouvir que a avó é “a melhor pessoa do mundo”. E a pequena tem razão.

A avó é pura bondade; é colo e calmaria. E nesses dias de isolamento, em que a pequena precisou ficar distante da avó, verbalizou o tanto que queria abraçá-la.

— A vovó me acalma, repetia incessantemente em momentos de ansiedade.

A mãe, vendo a agonia da filha, levou-a para ver a avó, de longe, da calçada e a avó do alto, quase pulando para resgatá-la.

As visitas de calçada acalmavam momentaneamente o coração, mas faltava o abraço.

Ah, o abraço…

Essa vontade de tocar a pelo do outro, a qual identificamos bem nos rompantes da paixão, quando encontramos o ser amado e queremos tocá-lo como se isso fosse mais que um desejo: uma necessidade. E quando acontece desejamos que o tempo pare.

Nestes tempos atuais, vivemos essa sede de pele, de corpo, de se enlaçar no abraço do outro com todos aqueles a quem amamos.

Quando encontramos no acaso do mercado, da farmácia, da padaria, nas visitas à distância sentimos um ímã nos atraindo ao outro; quase incontrolável e, ao contrário das paixões, é justamente por amor que controlamos o ímpeto de respirar no colo do outro, de colocar os corações a baterem ritmados como numa orquestra.

Às vezes a “coisa” se assemelha à morte, quando choramos pelo abraço que nunca mais haverá.

O fato é que a menina estava triste, impaciente, ansiosa, pedindo a avó como quem pede para respirar.

 A mãe tentou brincar, dançar, deixá-la cozinhar, cantar e até brigar para que voltasse aos seus afazeres com entusiasmo.

Mas nada resolvia e a menina continuava tristonha, ainda que cantasse. Ela é assim meio passarinha: canta todo o tempo, mesmo na dor.

Até que a mãe achou um desenho que a pequena fizera da casa da avó. Era a casa vista da rua, da calçada e doía vê-la olhar o que considerava o melhor lugar do mundo pelo lado de fora.

Ela não estava apenas isolada; estava exilada.

Esse exílio rasgou o coração da mãe que não pode suportar seu papel de fiscal do distanciamento, pois era ela que ditava as regras entre as duas. A mãe é a personificação do superego e amava demais a ambas e as protegeria com sua própria vida se preciso fosse.

Todavia, num rompante, a mãe levou a menina à casa da avó, que a vestiu numa capa de chuva, cobrindo o rosto já com máscara e a abraçou, oferecendo-lhe todo ar que havia em si, todo amor que há no mundo.

Neste dia, a pequena nasceu, não do ventre da mãe, mas do abraço da avó. E a margarida floresceu num jardim de flores.

16 comentários em “Abraços

  1. Esse afeto, esse afago é o que nos move, nos alimenta, nos alenta. Sabida menina que encontrou seu lugar de acalanto. Por um mundo de mais colos e abraços. Gratidão

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  2. Achei de uma sensibilidade incrível, você capta, Ana, com sua escrita tudo que temos vivido neste isolamento e creio que o que mais dói é a falta de abraço. Como estudante de Psicanálise achei incrível a “a mãe era a personificação do superego” comparação acertiva demais. Emocionante e incrivelmente bem escrito. Sou muito grata.

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    1. As distâncias qur nos separam de qurm amamos nos dilacera, mesmo que seja pelo cuidado, pelo amor.

      “Neste dia, a pequena nasceu, não do ventre da mãe, mas do abraço da avó. E a margarida floresceu num jardim de flores.”

      Lindeza de final! Simbólico e poético.

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  3. Coisa mais linda❤️. Mesmo intuindo onde vai dar toda a narrativa, a gente quer muitoooo ouvir que uma nasceu de novo nós braços da outra. Lindo!

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  4. *Ana Karina* que lindo texto , eu sinto a mesma coisa por parte da Isabelle com o vínculo com minha Mãe , outro dia fiz Bolo de milho aparentemente delicioso e a Isa disse , mas igual o da vovó não tem igual ..rsrsrs
    Muito lindo esse Amor de Vó😍

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    1. Kaká, cheguei a ver a cena de ambas esticando os braços: a avó de cima da varanda e a pequena ruiva em baixo, sobre a calçada. Deu até vontade de erguer a pequena para que alcançasse as mãos da avó. Tento imaginar tamanho é, o orgulho dessa avó

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  5. Kaká, cheguei a ver a cena de ambas esticando os braços: a avó de cima na varanda e a pequena ruiva em baixo, sobre a calçada. Deu até vontade de erguer a pequena para que alcançasse as mãos da avó. Tento imaginar o tamanho que é, o orgulho dessa avó , Inês, que o prazer tive de conhecer.

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