Terra de colibris

Aves del paraiso | Artes, Pintar, Criatividade

por Elisa Dias-

Eu venho de um lugar onde mora o Sol, atrás das cordilheiras e desertos, no horizonte alaranjado do fim da tarde.  O lugar de onde eu venho  não existe medo da morte ou ao menos a morte, não existe velhice, nem marcas do tempo,  todos os vestidos são decorados com flores colhidas das varandas das casas, que por sua vez estão sempre de portas abertas, exalando cheiro de café fresco, nas portas  não existem  trancas, cadeados ou tramelas.  A noite as estrelas incendeiam um céu de colibris , eu corro descalça  atrás de vaga-lumes antes de dormir.

Eu  estava flutuando por entre as nuvens  e sobre os oceanos, me camuflava no azul do céu, deitava nos campos, sentia o cheiro da terra, feito abelha  bebia e saboreava o néctar suave das flores, deixava o sol acariciar e beijar afavelmente meu rosto, corando as maçãs da face, colhia frutas frescas, manga rosa, amora, jambo,  degustava com gentileza os sabores da terra. Corria atrás das borboletas  de cores roxa, azul e violeta, me banhava nua na cachoeira, vez ou outra se estivesse no destino da minha sorte tomava banho de chuva, e o cheiro da terra molhada me transportava para uma atmosfera de imagens, gostos e sons.

E no crepúsculo me deitava nos braços do Criador, como criança deita no colo sagrado de seu avô. Avô que nunca tinha partido e repetidamente chegava todos os dias respingado de concreto e cheirando a fumo, pitava seu cigarrinho tomava um bom café no canto da sala de cócoras, eu estava em paz por saber que ele estava em casa.

Eu podia ver a grandiosidade  da natureza e diferenciar  todos os tons de verdes  que revestiam aquela terra distante, o tempo passava pelas minhas mãos  com calma,  sem pressa, algumas vezes eu tinha a sorte de ouvir teus conselhos, ele sempre me dizia : – Eu estou bem, não desperdice sua vida se preocupando comigo ! Era um velhinho de longos cabelos e barba branquinhos como a neve, ele estava lá antes de todos nós, talvez antes mesmo do Criador.

Todas as mesas transbordavam fartura, revestidos da simplicidade, a minha gente aproveitava o que vinha da terra, a terra jorrava mel e leite, a relação de amor e devoção que exista entre o povo e a terra era louvável, um dependia do outro para existir.

Ali naquele colo fértil de tudo que há de bom, as crianças cresciam sem pressa, perdiam os dentes todos da boca e tinham medo do ‘’Boi da Cara Preta’’, dividam a vida com lumes de estrelas, andavam pelas estradas de terra se balançando nas asas dos anjos, e quando eles perdiam suas penas, a criançada fazia a festa pra saber quem as guardaria como o maior tesouro.  Mesmo no breu  da noite não havia escuridão, nenhuma mãe dormia aflita,  no silêncio das horas se ouvia calmamente a voz de Deus, durante o dia ele  se fazia de menino brincava e cantava cantigas de roda, ele era um menino, pois só alguém sendo um eterno menino seria capaz de criar um lugar assim, só alguém sendo menino perdoaria e esqueceria o mau feito, ou daquela topada no dedo da bola mal chutada.

Todo menino já foi Deus um dia e viveu no paraíso, mais tem menino que é teimoso não conseguiu ouvir os conselhos do tempo, teve pressa, perdeu o rumo, esqueceu do caminho de estrelas que trilhava seu destino até sua velha casa, todo menino já foi Deus um dia, já morou lá onde o Sol nasce,  e sendo Deus é dono no seu próprio destino, escreve sua própria história.   Ei, menino-Deus, te acalma, sinta os ventos da madrugada, saboreei a sua própria vida, e numa noite qualquer  sonhe com a terra de colibris, voz de pai, abraço de avô, colo de mãe, e um o menino Deus já foste um dia.

Ouça nossa voz: Terra de colibris

2 comentários em “Terra de colibris

  1. Chegar ao fim da leitura é como o despertar de um sonho fantástico… Como se estivesse saindo de uma pintura quão belas cores usaste em sua palavras pinceladas em tela branca.

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