Mutum

Graffiti de Michele Cunha.

Thata Alves –

Eu nunca tive animal na minha casa. É que sempre me preocupei com pôr a comida pros meninos e ter mais um bicho significaria ter mais uma boca para fazê-lo. Tanto que uma vez eles disseram assim:

– Mamãe, a gente quer um cachorrinho. 

Fui lá e expliquei que um cachorro precisa de muitos cuidados como dar banho, dar comida, levar ao veterinário (que era o médico dos animais), limpar o cocô, sair pra passear, evitar as pulgas, adestrar, dar injeção… E após a conclusão da minha solução com bons argumentos, eles me responderam:

– Ah, entendi mamãe, então pode ser uma irmãzinha!

Me restou apenas rir, né? Não contaria pra eles, naquele instante, que ser mãe é padecer no paraíso.

Mas, tínhamos animais no quintal, visitavam-nos, as borboletas, os canários, minhoquinhas, gatos intrusos, abelhas e mariposas. Eu tinha um passarinho especial. Nunca quis animais, talvez para não prendê-los. Mas, eu tinha esse especial, era um Mutum e a gaiola dele era o instagram, e parece confuso, mas eu vou explicar.

Eu amava ouvir a minha playlist preferida: todos os stories que ele publicava, Mutum era afinadíssimo e cantava do gospel ao funk, do nacional ao internacional, e eu? Repetia essa playlist o dia todo! Os meus dedos estavam até viciados no “voltar”. Então, era assim, punha os fones de ouvidos pro canto de Mutum ficar mais rente, e toda noite antes de dormir o ouvia cantar. E a noite os passarinhos não cantam e é só a noite que eu tenho mais tranquilidade de ouvir algo com calma, e era assim que me presenteava ao anoitecer.

No final da 1ª quinzena do mês fiz novamente o ritual, dei banho nas crias, lemos um itã pra ninar, eles foram pro quarto deles, mas cinco minutos depois voltaram com a malandragem de criança que quer ficar mais um pouquinho no ninho da mãe. Eu já previa isso e os esperava. Uns trinta minutos depois fui ver o ninho dos passarinhos e o ronco era o canto sinfônico! Peguei meu roupão, ensaboei-me com sabonete de capim limão, sai do box, hidratei-me com óleo de coco, borrifei perfume de bergamota, incenso de canela, deitei na cama, sem roupa ou babydoll, introduzi em mim o que me daria orgasmo, este, o fone de ouvido.

Pra ouvir Mutum cantar.

(Nossa) Espantei-me! 

Fui ver o moldem de internet e estava tudo ok, fiz logoff do app, login, na lupa procurei o perfil Mutum oficial, passei os stories dele, e não tinha som, estranho!

Fui ver se meu volume estava baixo, ou se o problema era com o meu fone de ouvido, peguei o fone do outro aparelho, entrei no app por outro gadget, e nada!

Vi se ele ocultou o som naquele ícone que tem de deixar o vídeo mudo, e …

É, era quase isso, Mutum tava mudo, não cantava mais… Desesperei-me e fui ao direct falar com ele, já que não podia ouvir a voz dele, ele precisava ouvir a minha, de desespero por não ouvir o seu cantar! Ele compreendeu-me e retornou.

Disse que na árvore que vive as coisas não iam bem… As flores continuavam verdinhas, sua árvore não corria mais o risco de ser cortada, tinha até as frutas da época prestes a florir, pois a poluição fora reduzida nesse isolamento, e as acerolas viriam antes do período sazonal, mas as questões eram no ninho, a família não tava bem. A sinfonia desafinava, e ele por mais dedicação que estivesse nos estudos, nos studios, o coração palpitava diferente …

Decidiu ele ouvir apenas uma sinfonia por hora, seus batimentos cardíacos , o tambor do coração… Eu compreendi, em silêncio também me fiz e fui experimentar ouvir o meu…

Ouça nossa voz: Mutum.


6 comentários em “Mutum

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