Casa

por Celane Tomaz

O barulho tímido da chuva ritma o compasso de um novo tempo. O dia sem cor, o céu anuviado de cinza, amanhecido na frieza dos sopros que embalam os dias e, ainda assim, os braços que esperam são de outra estação.
São tardes, noites e manhãs sempre tão iguais, vividas numa espécie de monotonia prazerosa, repetida em ventura e contentamento. Entre os espaços dos cômodos e as paredes pálidas – a felicidade.
Do lado de dentro, a fumaça do banho quente embaça a maldade do lado de fora. E as cortinas fechadas impedem a entrada da poeira das incertezas de cada manhã.
A esperança se materializa no cheiro do café que se coa e na torrada que acolhe a manteiga que derrete com o calor da mordida. Um certo privilégio mora no som das talheres que tilintam sobre a mesa. E a paz descansa no encontro da pele com o cobertor.
Ao redor, os livros pendurados e pendentes na estante, o excesso de trabalho sobre a mesa, entre as atenções requisitadas, as idas e esperas supérfluas e desimportantes e a divisão de um só corpo em tantos outros – o existir se desprende, se parte em pedaços.
A vida exigida e outra é interrompida por beijos molhados e cruzados. Entre risos, lábios e enlaço, a pausa explica o sentido inexplicável da vida – inteira e dividida.
A barba áspera e disforme acolhe os lábios úmidos e pequenos do menino que mal sabe verbalizar o que é o amor, mas bem sabe senti-lo e vive-lo com todos os sentidos de seu corpinho miúdo.
O menino brinca de ser herói num mundo em que desconhece a maldade. Na limitada extensão da sala enfrenta obstáculos, seus monstros e vence seus medos com sua força que cresce. Seus olhos grandes e pretos sorriem e saltam incansavelmente por cima da alegria que existe entre um sofá e outro e que quase não cabe em si.
Compreensível que o amor tenha cheiro de alho e cebola da comida caseira sendo feita na cozinha e que dance no quintal como a roupa lavada no varal. Que o amor seja visto pelos cômodos, pela mobília inconsciente, que mesmo muda presencia os afetos que se manifestam para além de palavras e dizeres.
Respiro e me encolho dentro da xícara de chá do fim do dia.
Anseio por dias vivos e azuis avistados de cima dos telhados. Cedo, esperarei o sol relutar entre as nuvens, tentando passar pela fresta da janela. Será outro e o mesmo dia de frio e de calores.
O barulho tímido da chuva ritma o compasso de um novo tempo.
A vida na casa. A casa da vida.

Ouça nossa voz: A casa

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