Sem pé nem cabeça: ou soluções para um futuro sem dor

 Retrato 621_146_d78, 2018. Imagem digital, dimensões não definidas 

Arlete Mendes-

Caros leitores, o futuro é agora, a cybernanobiotecnologia mora ao lado, o transhumanismo é o próximo passo. Aos pessimistas um aviso: nem tudo está perdido, para além da dizimação do planeta e do massacre social em contínuo andamento, ainda há de haver a esperança, deixo aqui um registro de soluções para que ninguém diga que esse lado de cá do planeta em nada contribuiu com o progresso desse mundo moldável a imagem e semelhança do homem.

Cabeça desrosqueáveis: assim como a lâmpada, ao apagar as idéias, troca-se o filamento que conduz as sinapses da criatividade, ou, para  os mais imediatistas, será possível adquirir uma cabeça nova, a troca é simples, gire sentido anti-horário para retirar a antiga e gire sentido horário para instalar a nova, certifique-se que a base cervical esteja com os movimentos preservados e boa lubrificação discal. Caso seja necessário recomenda-se a manutenção cervical antes de conectar a cabeça ao tronco. Será o fim das enxaquecas, cefaleias, bem como pesadelos e sonhos de perseguição, a cabeça poderá ser desrosqueada ao dormir, permitindo que seu corpo descanse sem o peso da consciência. Aviso aos fãs do filme “O exorcista”, finalmente vocês poderão fazer a cabeça girar em 360 graus, mas ainda terão de preparar a sopa de ervilha!

Pés acoplados: ninguém mais precisará se preocupar com o tênis desamarrado, esse modelo já vem com calçado fixo, que não desata, nem fura, nem descola. O tratamento antibacteriano e anti-odores garantirão o fim do chulé, serão fabricados modelos para todos os estilos, bolsos  e ocasiões. Os dias frios contarão com a linha de pés-peludos com acabamento em botas de pele de carneiro, pés-pantufas para o descanso e pés-nus para os podólatras. Sendo a última palavra para os problemas de unha encravada, pé de atleta, joanete, esporão, varizes e má circulação. Altamente recomendado para corredores, atletas de alta performance, bem como batedores de carteira, sacoleiras e aqueles que amam bater uma perninha.

Mãos retornáveis: por ser um dos itens de uso intenso e alto desgaste, sobretudo na era pós-pandemia, as pobres mãos, abaladas pelo viciante uso de álcool gel, serão vendidas em cascos retornáveis. Pensando no  impacto biológico para que não deixemos pegadas ou mãozadas ecológicas. Será, enfim, a realização do sonho de equilíbrio entre homem e a natureza. Alertamos que por conterem tecido identitário elas terão suas estruturas epidérmicas mantidas, podendo ser totalmente diferenciadas em seu interior, há a versão extensível a para aqueles que têm problema de alcance, devido à baixa estatura, e as boomerangs para aqueles que gostam de praticar arremesso de mão, a nova modalidade esportiva em alta.  Há ainda as mãos-punho-de-ferro, prontas para autodefesa, programadas a partir dos golpes de Bruce Lee, e também a mão-diarista, em que as tarefas domésticas serão executadas de acordo com a lista programada, sem o desgaste do corpo e a fadiga mental costumeiramente provocados pelas tarefas manuais. Para as madames, a versão do luxo ao lixo é a mais recomendada, unhas retráteis para melhor desempenho durante o autocuidado e execução das tarefas do lar, sinto informar mas nessa era o trabalho doméstico será responsabilidade de cada família, mas em compensação haverá a perpétua elegância das unhas compridas para as noites de gala, manicure perfeita, inabalável, sim, e a cor poderá ser escolhida conforme o traje ou o humor.

Caríssimos, o tempo do sem pé nem cabeça nunca foi tão prazeroso, urgente e necessário.

Publicado por arlete mendes

escrevinhadeira, educadora, mãe de meninos e meninas, amante da música, da literatura, da vida!

11 comentários em “Sem pé nem cabeça: ou soluções para um futuro sem dor

  1. Quero as mãos domésticas, mas elas trabalham sem o corpo? Porque enquanto elas fazem as tarefas de casa, pego outro par especialista em levantamento de peso, digo: copos. Hahahah @mei os produtos

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  2. Muito criativa, Arlete ‘Mary Shelley’. Seríamos mais flexíveis e moldáveis. E nos casos de dor era só desacoplar e deixar de lado, nesses casos poderia também ter membros de reserva. Também haveria menos corpos desengonçados, pois apareceriam artesãos qualificados para moldar membros esculturais. Admirável mundo novo.

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  3. Belo texto. Spoiler da realidade que se aproxima… cyborgs construídos nas impressoras 3D rumo a imortalidade. Pena que a mentalidade continuará humana.

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