A negativa é para esquerda, Ayde!

Capoeira / Carybé | Cultura afro brasileira, Produção de arte, Arte
Carybé: Capoeira

Thata Alves-

A moça nem precisava passar rasteira, ela deixava angoleiro no chão, toda vez que dava um rabo de arraia, seus cabelos movimentavam-se com ondas semelhantes as do mar, perfumavam e hipnotizavam os companheiros de roda, era difícil manter bateria de berimbaus afinada. A ginga dela mexia com toda a senzala…

Seu cabelo de movimentos como o mar, deixava o marinheiro, marinheiro, marinheiro, só, só em devaneios de como fazer pra dar jogo. Sua pele tinha mesma tonalidade que o Hungo (como berimbau é chamado na África).

Quando ela cantava eram em cantos iorubanos. Angoleiro ficava doido, não conseguira responder o coro, mas se permitia embalar. O encanto era tanto, que, no jogo de dentro, o movimento invertido passava desapercebido por quem jogava com a moça.

Por ser vaidosa Ayde, treinava em frente ao espelho perfumada, mesmo que o suor se misturasse e intensificasse outro aroma. Romã era a essência que gera.

Seus treinos eram semanais, às quartas com seu grupo e os demais dias em seu quintal. Vizinhos que a espionavam treinar, não acreditavam que braços e pernas tão delicados fossem capazes de se sustentarem em uma bananeira, girarem com velocidade em um rabo de arraia ou mesmo conter a jeito e agilidade de uma rasteira. Porém Ayde tinha uma pequena dislexia, a moça tinha dificuldades com direita e esquerda, chegava a serem bobos os erros que cometia…

Segredo de Ayde era a dificuldade dela com esquerda e direita, por isso ela treinava em toda véspera das aulas em frente ao espelho, que também dificultava, pois o espelho mostra imagem invertida…

A moça da pele cor de biriba vivia esse dilema de acertar! Se exigia demais, sofria com erros pequenos. É que cresceu sendo apontada, sempre disseram a ela, precisar ser duas vezes melhor. A frase pesava uma tonelada…

Até que em uma sexta-feira, em que toda capoeira veste branco, numa roda tradicional e milenar de seu grupo, seu professor que tinha idade pouca, mas sabedoria de um griot, ouve Ayde questionar com uma amiga de roda que não sabia fazer assim. (O que era assim? O que era assado?)

O professor passou os olhos, com a inteligência de quem faz uma chamada e volta a compor no chão a roda com palmas de mão e afinação no couro.

Ela sempre passava a vez quando tinha de jogar com seu professor, havia um amor platônico por ela, que ela não conseguia olhar nos olhos, exigência necessária para um jogo jogado… Se ela fizesse, o olhar nos olhos, o feitiço virava contra feiticeiro. Era Ayde a dona de encantar…

Sua amiga que era cúmplice desse segredo, ria discretamente toda vez que essa cena se dava, era engraçado ver como a mulher virava menina de um instante para outro, quase o mesmo que ver gelo se derreter em água no calor de Salvador, a rapidez da mudança de estado da menina mulher.

Quando a roda acabava, depois de um jogo lindo, no qual o Mestre costumava chamar os mais soltinhos pra um jogo de compra e mostrar a paciência que é reverência na capoeira, em que devagar ainda é pressa, foi então que entenderam a filosofia.

O atabaque começa a soar, o samba de roda começa !!!

Quem veio antes abre a roda, e as mulheres rainhas, companheiras de mestres iniciam a celebração, ali cada uma mostra sua malemolência, ora com sorriso, ora com cintura. Menos Ayde, que era ousada e sabia mostrar das duas formas, pronto para mais uma sessão de hipnose, o atabaque que fora afinado primeiro já estava para desafinar, São Paulo faz frio…  Mas quando a umbigada convida Ayde a entrar na roda, ela se aproxima do ancestral atabaque pede agô e dança em frente a ele! Logo o couro responde, aquece com o calor da moça e toca novamente com seu timbre inicial, grave.

E gravada na memória fica, Ayde ao chegar em sua casa, desliza com os dedos pro lado, via as fotos que fizera do dia e ria sozinha em sua cama de lençóis pastéis. Capoeira também é forma de banho, alma lavada e energia renovada, ela conclui que o investimento é esse insistir seu tempo nesse lugar, pois não se ensina experiência.

Já é quarta feira de novo, na terça houve o treino prévio com o jardim, com o espelho e consigo. Ela gritava:

Eu consigo! E eis que o ‘au’ se deu.

Foi no treino de quarta com orgulho de ter aprendido o movimento, com perfeição, perfeição que só ela exigia. Mas na hora do treino seu professor pede que aplique o ‘au’ com a outra perna, para se trabalhar o lado esquerdo, que culturalmente é menos usado por nós. Pronto! A menina trava toda  e se vê perdida em meios aos colegas, sua as mãos, vai tentar o ‘au’ pro lado oposto que ela não treinou e desliza, quase cai , com o suor nascente nas mãos, que em contato com o chão para fazer o movimento , baila nesse atrito , mão e chão, chão e mão, suados. E a moça cai.

Recomeça, cai de novo, e segue até o fim das filas formadas, no penúltimo movimento faz quase que certo. Mas não faz.

Fim de treino abraços, sem que as palmas das mãos encostem nas camisas alvas. O mestre chama Ayde de canto, pela sensibilidade de um griot, percebe na moça semblante de frustração. Pergunta a ela o que está havendo e quais dificuldades. Ela se envergonha a dizer, mais diz.

– Eu tenho feito errado, não acerto o movimento, a negativa é pra direita eu vou pra esquerda, o corpo diz uma coisa a cabeça outra.

O mestre diz: “Jogar Capoeira também é só entrar na roda e sair, pois ao entrar e sair você com o corpo responde que aceitou o convite de dançar. A intenção já é grandiosa por si só, por ter tido vontade em fazer. Não é pirueta no ar…

Foi pra casa, revirando essas frases, olhou por baixo, fez a chamada, gingou, deu ‘au’, chamou na tesoura, aplicou a cabeçada. Tudo isso com a frase que recebera, ela procurava entender a mandinga desses dizeres.

Sexta feira outra , a moça encara a roda, ela entendeu que seu corpo só estava atrofiado para a capoeira, anos de sequelas fazem isto, às vezes a gente acha que não é capaz de desempenhar aquilo que é nosso como herança, experiência não se explica, e a vontade de querer matar o banzo faz com que ela decida , veste seu manto branco, canta couro, bate mão, a energia é de dendê , quentura se dá. Para sua surpresa seu mestre pula a vez pra jogar com ela, já não era capoeira, era balé ! Ou era capoeira mesmo com a sincronia mais bonita de uma dança. Houve o encarar nos olhos, houve o encaixar o corpo, não houve ego para execução de tal, houve respeitar o movimento do outro, o tempo de passar uma perna, um braço, houve Capoeira!

Quando o perfume de ambos exala, a fusão em vapor se espalha por toda a senzala, o encanto de Ayde é quebrado, todos não se fazem apaixonar, apenas o amado antes platônico.

Ao finalizarem o jogo ele sussurra em seu ouvido dizendo: “ Consegui jogar com você, porque eu não sou destro.

6 comentários em “A negativa é para esquerda, Ayde!

  1. Parabéns Thata… Essa narrativa dinâmica sempre me faz pensar em movimento, cor, dança, cheiros, sabores… da nossa gente dos nossos corações em festa…

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