Um despertar

Celane Tomaz

Celane Tomaz-

Acordei com a claridade atravessando a minha janela. Os raios solares cortavam a parede oposta. Já era tarde para a minha consciência recém apreendida e para os meus sentidos quase agora recuperados. 

Meu corpo, ainda sobre a cama macia, livra-se aos poucos do peso da dormência.

Ainda é lento o movimento que faço para perceber-me. Tentar compreender-se é sempre um estalar dolorido ao inclinar a coluna, e decifrar-se é querer apoiar os pés no chão frio – ainda em tontura.

Olho ao redor no quarto. Resisto em ser parte da velha mobília e sombra transitando na posição de sempre.

Ser novidade é uma perspectiva. Posso dormir de frente para a janela, do lado contrário da cama, reverter o cansaço com o corpo deitado no avesso.

Acordei. Agora sem sonolência, dói comprimir-se na eclosão do pensamento, que toma o corpo sentado e o tronco sustentado pela ereta fixação dos braços sobre o colchão confortável e os lençóis amarrotados de vazios. Espreguiçar-se para enfrentar a sonolência do mundo.

No quintal, pela janela, observo as folhas desprendidas do fim de outono, leves e caídas no chão. Dói amadurecer sob a queda da verdade. Dói se amanhecer um dia.

Os cabelos entre os dedos – ousada tentativa de organizar os fios bagunçados. Tenho nas mãos a desordem. E sobre a pele ainda quente, o corte do dia colocando os poros à mostra.

Despertei da fuga inconsciente do corpo, da pausa necessária para não ruir nesses dias em que tantos corpos desabam.

Sentada, deslizo os dedos sobre o queixo e a boca. Tateio a perplexidade do silêncio e me construo na intimidade do espanto.

A secura da boca contrasta a umidade dos olhos que, atônitos e dementes, encaram o mundo e molham o tempo em seus segundos em mim desnudado. Meus olhos olham para nada. Olham e nadam. Ainda assim, submersa na convicção de ser pertencida a hoje, em mais um dia igual e irreconhecível, no qual os fatos escorrem como os goles amargos de café na garganta.

Levanto. Mas é outro dia pisando nos medos, com os pés fincados no absurdo.

Dormir ou acordar? Recuperar ou perder os sentidos? Para amanhã acordar mais um pouco, para amanhã despertar outra vez.

Ouça nossa voz: Um despertar

9 comentários em “Um despertar

  1. Lindo!!! Muitos dias assim refletindo entre Dormir ou Acordar entre tantos dias de grandes Incertezas e Inseguranças , desatinos na sociedade urgindo.

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  2. Me fez bailar os pensamentos sobre as manhas, retomei como sao as minhas , e entre ” Dormir ou acordar? Recuperar ou perder os sentidos? ”
    Lembrei que pelas manhas, ibejinhos me acordam com beijos doces de café da manhã

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