com a morte ao lado

Vale de eucaliptos, alvorecente, por CarolTomoi

Pela milésima vez iniciei minha primeira aula de yoga. Como um frequentador do AA, estou muito positiva nesse primeiro dia. O relógio deserpertou e acordei, levantei determinada. Higiene e computador, enquanto liga, homeopatia… me acalma… água. Será que consigo?

Em tempo estou presente para responder os primeiros bom dias. Olho ao redor, o sol nascendo lindo, clareando meu vale de eucaliptos, meu deserto verde; no pasto ao longe um cavalo pasta bucólico por detrás de uma cerca… recordo a discussão recente entre os vizinhos sobre as cercas. a quem finalmente cercamos…

Assisto atenta às orientações, sigo-as da melhora maneira, percebo-me uma boa iniciante. depois de tantas primeiras aulas. testo limites. dores. sempre um pouco além, ar. quando enfim uma tênue sintonia passa a vibrar conectando enfim mente e corpo em função da respiração um ruído forte e seco no telhado lá fora me impressiona. adeus concentração.

Sinto o corpo tremer ao olhar para o chão e vislumbrar a morte em pessoa.

Dou um salto e o medo e o horror me consomem. Vejo as perninhas estremecerem e testemunho o momento em que a alminha batendo asas não pode mais carregar aquele corpinho avariado pela queda. Olho ao lado e percebo mais uma avezinha caída. são duas. Corro abro a janela e olho a rua. quem seria capaz de tal atrocidade. justo aqui, o paraíso das aves. nada. ninguém. grito. chamo. Avisto uma gotinha de sangue fresco mas escuro, saída do biquinho, daquele corpinho já imóvel cujas plumas recém formadas eram fugazmente tocadas pelo vento. não suporto o frio e entro.

Olho para a tela. penso na aula 1001.

Sem derramar lágrima controlo a respiração. Sento-me. Deito-me. Agarro as pernas e olho em direção ao forro. a janela alta emoldurando a ponta fina de um pinheiro que como flecha aponta um caminho… uma resga de nuvem branca risca esse derradeiro azul de outono. inverto o olhar tesa.

O corpinho estático permanece. lembro-me da outra. estico o pescoço um pouco além do exigido. avisto o segundo o filhote, ainda há vida. mas permanece inerte. trauma pelo choque. por não conceber a localização de pouso. o mundo de cabeça para baixo. desacordado apenas. Mas esse não sangrara como o que se alinhara comigo. uma gota redonda e espessa.

Não posso esperar o fim da aula. não dá pra relaxar. preciso trabalhar. digito adeus e logo em meu trabalho. uma pausa para xixi e água e pensar o que fazer com os pássaros feridos. E como na intersecção que desenham os condores no azul infinito, ao retornar não mais avisto os cadavereszinhos.

Apenas a escurecida gota de sangue n:a arma do crime. motivo: ocupação do espaço. cenário: telhado nas alturas. Meu cúmplice, a essas horas, respondido meu grito de horror, rapidamente encarregou-se de liberar a cena do crime antes que eu dramatizasse ainda mais a já catastrófica perda.

A segunda avezinha velara a companheira fielmente até que precisou se proteger de meu leal comparsa – conhecedor que é de minha falta de tato com cadáveres, gentilmente antecipou a covéirica tarefa – fazendo a solitária sobrevivente, ainda que em luto, bater asas desesperada enquanto a hemorrágica amiga traçava seu último voo em nosso repousante vale alvorecente.

qual reação frente a morte?

melhor sepultura, penso, que tiveram as milhares de almas humanas que buscam descanso e com as quais convivemos diariamente, pela ignorância e pelo descaso, numa nação desgovernada como estamos! na pandemia de um vírus ensandecido pelo poder.

Ouça nossa voz: com a morte ao lado

9 comentários em “com a morte ao lado

  1. Sensivel . Humano. O coração se faz presente em cada sinal gráfico. É tudo o que precisamos pra resistir ao inverno dos podres poderes. Não há como impedir a chegada da primavera. 😉😘🤩🌞

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  2. O descaso com que a vida humana tem sido tratada por este desgoverno e o clima tenso que estamos vivendo, se reflete em sinais na natureza mesmo quando na tentativa de nos conectar a ela. Somos a própria.

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  3. As vezes delicada com a própria ave abatida, sangravam as duas , cada uma com sua poesia. Ainda o maior escudo de quem tem a delicadeza pra lutar contra a indômita natureza de criaturas estúpidas adereçadas de faixa presidencial ou não. Este é o tempo da estupidez de quem asfixia o outro na calçada e não lhe dá ouvidos. A barbárie caminha no mundo como hemorragia, mas a poesia ainda suspira com a “segunda avezinha” que acompanha a dor da outra. Este é seu papel.

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