As dores não são imaginárias

Ana Karina Manson

As amigas de escola da minha caçula se tornaram “amigas imaginárias”. Ao longo do dia a pequena brinca e conversa com elas como se estivessem ao seu lado. Saudades dos dias de escola.

São tempos de pandemia; amigos imaginários, amores imaginários, abraços imaginários.

Queria escrever sobre o poder de nossa imaginação em criar realidades; mais ainda no poder da imaginação da criança para sobreviver a estes dias. Mas não posso…

As dores não são imaginárias.

Essa é a realidade que nos atormenta, que me atormenta.

As dores não são imaginárias.

Pergunte àquela mãe que encontrou seu filho de cinco anos caído, machucado, negligenciado no duro chão do condomínio luxuoso. Condomínio de luxo com conforto garantido pelo corretor. Mas foi duro para o menino filho da doméstica; é dura a vida e a morte para filhos de domésticas.

Você ainda se lembra dessa mãe? Por favor, não a esqueça!

As dores não são imaginárias.

Pergunte àquele pai que relatou o sonho assassinado por balas, quando o filho brincava no quintal. Ele guardou no peito e na memória o sonho que o filho nunca realizará. E ainda precisou repetir e repetir e repetir esse sonho para dizer que seu filho que brincava em casa era bom.

Você ainda se lembra desse pai? Por favor, não o esqueça!

Tenho medo de um povo que enterra seu passado em covas alheias e caminha imaginando uma alegria, uma cordialidade que não há. Cordialidade está na lista de privilégios que nos dividem e nos atormentam. Cordialidade é para alguns, para outros ela é imaginária.

As dores não são imaginárias.

Quantas mães choraram e choram seus filhos mortos e enterrados e suas dores ainda vivem e viverão sempre. Suas dores não duram o tempo da notícia. Os jornais escrevem outros acontecimentos, outros mortos, e suas dores perduram. João e Miguel foram para terra do nunca. Nunca mais viverão racismo, descaso, violência. Seus pais: para sempre racismo, descaso, violência e uma dor inominável. Para sempre.

Ouça nossa voz: As dores não são imaginárias.

11 comentários em “As dores não são imaginárias

    1. Só de ler, só de ouvir essas histórias, a gente corre e dá um abraço mais apertado no filho que está no conforto da nossa casa…
      E a gente fica angustiada porque pensa nos filhos das outras mães!
      Até quando?

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  1. Fantástico como vc consegue nos comover, indignar, refletir, traduzir… Sentimentos que às vezes precisam de outra voz pra sair de dentro de nós. Gratidão amiga!

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