Quem é como Deus.

Retrato silenciado. Dlaton Paula

Thata Alves –

Tinha uma caixa com doze cores, para entreter o erê, punha papéis brancos no chão de casa, pra ele ali desenhar.

E não é que o menino dava para risco? Todo o desenho de erê era um quadro!

Minha sala era quase que uma galeria de arte, de tanto sufite espalhado pela casa, e assinado pelas mãozinhas do erê, ainda meio coordenação motora.

Eu sentava poucas vezes com ele para ajudar nos risco, mas sabe como é né?

Almoço pra fazer, decidir qual mistura descongelar, com o freezer cheio como este é difícil decisão, a tv de 65 polegadas pra tirar pó, a cachorra pra levar pra passear.

Tim dom! Tim dom!

Catorze e trinta, e havia esquecido. Ainda tinha a manicure pra abrir a porta, descer com a cachorra da patroa. Não, não, a patroa não era cachorra não! Mel era o nome da cadela.

Quem me dera em meu freezer ter dúvida de qual mistura descer.

Mel era cadela comportada, defecava em saquinhos perfumados, e eu tinha de passar lencinhos umedecidos na cachorra, nunca vi frescura tanta.

O passeio era rápido, cerca de 10 minutos, eu gostava, pois quando eu assim fazia, também me distraia um pouco daquela rotina, esse passeio era o último do dia!

Sinal que meu expediente também encerraria.

Volto com Mel no elevador, a coloco no colo e subimos até o 7º andar.

Devolvo a cadela, arrumo minhas coisas e vou pra casa de encontro ao meu erê.

Era um cena previsível abrir a porta e dar de cara com ele no chão, cheio de lápis de cor, giz de cera e canetinhas.

Estava fadigada, estava. Mas naquele dia senti vontade de sentar no chão junto a ele. Pensei em minha cabeça: ter paciência de limpar o rabo de cachorro com lencinho, por que não ter em acompanhar meu artista plástico em projeção?

Ele queria desenhar estrelinhas cor de pele, eu ri alto ao pedido e foi tarefa difícil dizer que não existia o lápis “cor de pele”, sim o lápis cor de rosa, da pantera cor de rosa e tal. Risos.

Tive que chamar os parentes todos em casa, que eles parassem suas funções para me dar um help, peguei o lápis cor de rosa, coloquei no braço de Vovó e perguntei:

– E aí erê, esse lápis cor de pele, é da cor da pele da vovó?

Ele riu, riso de sapeca e disse:

– Não mainha, vovó tem cor de tronco de árvore.

– Pois bem, menino, vamos continuar.

– Pai, venha cá, por favor.

E o movimento se deu igual, ao pôr o lápis no braço do avô.

– Diga aí erê, meu pai, teu avô, tem cor de que?

– Eita mainha, vovô tem a cor do café que ele toma, depois de pitar o cachimbo.

– Tá vendo erê? Agora, pegue o lápis e ponha na mamãe, diga ai, mamãe tem cor, dessa tal cor de pele?

– Não mainha, a senhora tem a cor do café do vovô, mas com um pouco de leite.

Todos nós rimos.

Foi tarefa difícil, mas erê entendeu.

Pintou as estrelinhas de marrom, e quando foi guardar as cores disse.

– Nossa mainha, é verdade né? A patroa da senhora não tem a cor da cor da pele. Aliás, tem, quando tá com vergonha, mas também fica verde quando tá doente, e num geral ela tem cor de pálida né?

– É meu filho, é. Risos

Jantamos, escovamos os dentes, banhamos e ponho o erê pra dormir.

No mesmo quarto a gente sonha, eu um pouco depois dele. Filho meu desenha bem.

E eu tenho mania de desembestar a escrever. Fecho a agenda, lembro das contas pra somar e adiar a tarefa de cálculos por aquela noite.

Com fogos acordo, é mercadoria chegando cedo aqui…

Dessa vez minha mãe não pôde ficar com ele porque iria fazer uns exames no médico, levo menino comigo.

Leve o sono, ele acorda logo, já deitei ele arrumado pra não me atrasar, mas quando o sono do menino bate de novo, menino parece ter peso de marmanjo, pesa em meu colo, e no vagão ninguém me cede o lugar, fico ali equilibrando, o peso do erê e do mundo.

Chego no apartamento da madame, bom dia ao Jorge, que todo mundo chama de porteiro, mas o nome dele é Jorge. Erê já ta acordado e compara:

– Mainha! Jorge tem cor das castanhas de natal que sua patroa põe na mesa né?

Eu ri, meio sem graça, pois Jorge não entenderia a brincadeira interna nossa.

Me elevo ao sétimo, e nem sou recebido com bom dia .

As crianças dela já grudam em meus pés, um quer ser, o outro jogar vídeo game.

Ela a patroa – pálida – sai pela porta e só me alerta de levar a cadela às 14h para passear.

Não se conformou de deixar isso na geladeira com um bilhete de letras garrafais.

Saí do metrô, com peso do erê, mas agora é tudo isso aqui pra equilibrar.

Dez pras duas da tarde, ela chega, eu já estava ajeitando a coleira de Mel pro passeio da tarde, o combinado das crianças eram ir comigo, mas por terem me aperreado toda manha não irão, ficaram, todos eles.

Aviso a pálida, perdão a patroa e desço, fujo daquilo, ao menos por 15 minutos.

Reflito ali entre meus passos  a língua da cachorra pra fora a pedir água, que a cadela tem vida melhor que a minha…

Fico entretida com esses pensamentos e quando menos espero, a ligação da patroa, já deu quinze minutos, tenho de voltar, pelos mesmos caminhos, caminhos hereditários que mamãe também fizera e pegar o elevador.

O prédio da madame tem vários ricaços, de blogueiros a artistas da TV, chego perto e tem uma multidão. Já imaginei.

– Descobriram a amante do diretor de cinema.

Mais perto e não era! Antes fosse, era erê meu que tava no chão.

Mesmo assustada ainda segurei Mel, porque meu acordo foi cuidar dos seus, e eu sempre cumpri, minha mãe sempre cumpriu.

Mas gente do céu, era meu erê ali!

Na hora veio o desenho das estrelinhas que meu erê fizera, com cor marrom, era estrelinha agora meu erê, eu não te contei criança , mas ia comprar pra você as cores daquele lápis caro, da edição que fizeram só com cores das nossas peles, é caro menino, mais eu ia dar pra você.

Enxugo os olho , e pra todos aqueles paparazzis digo em meia dor:

Eu sempre cuidei de você, minha família e eu, suportamos há centenas de anos seus açoites, eu que eduquei seus filhos quando eles só tinham o estudo e não a educação, minha mãe submeteu a cuspida na cara pelas tuas crias mal criadas, apenas pra não perder o emprego, minha mãe , vinha em casa sem paciência conosco , porque seus filhos a consumiam!

Meu pai levou vocês de cima para baixo a vida toda em segurança.

Eu tive acesso aos seus cofres e nunca ousei tirar uma moeda dali, e você foi incapaz de ter paciência com meu filho, paciência que tive até os tempos atuais? Com vocês! Com os cocôs da sua cachorra, vejo agora que a cachorra da madame é sim você! Pálida, como disse meu erê!

Nos desenhos de meu erê tinha tanta profissão que ele sonhara, mudava todo dia de escolha, mas não importava pra mim, o apoiaria no que ele quisesse.

Você não permitiu meu filho, ser o astronauta do desenho dele.

Não deixou que ele chegasse a ser o advogado que ele gostaria de ser nos desenhos dele.

O ogan que ele quisera ser nos desenhos dele, com o tambor feito do tronco de árvore da cor da vó dele.

Hoje procuro nos lápis de meu filho algo afiado pra escrever, e apesar de tantas cores de giz de cera, as canetinhas, minha caneta tem cor de sangue!  Sangue que sobe aos meus olhos, sangue de meu filho estirado no chão, sangue das injustiças que lavaram esse solo.

Quem é como Deus, essa é a tradução do nome de meu erê, Miguel é o nome que escolhi pra ele, minha mãe é cristã e disse que era bom um nome bíblico, mas hoje me pergunto, quem é como Deus? Que cor tem esse Deus? É pecado querer vingança pela morte do meu erê?

Descobri com meu erê que desenhar com caneta cor de sangue, não há borracha para apagar.

Elevador é quase um templo.

Exemplo pra ninar teu sono.

Sai desse compromisso

Não vá no de serviço.

Se o social tem dono não vá.

Ouça nossa voz: Quem é como Deus.

4 comentários em “Quem é como Deus.

  1. Sem palavras…
    Seu texto nos aproxima ainda mais dessa história sem cabimento, que acontece desde sempre é até quando? Indignação e tristeza!

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