das inseguras origens

ou de como conheci os carijos*

The Kiss – Gustav Klimt – 1907-1908 – óleo e folha de ouro sobre tela – 180 cm × 180 cm – The Österreichische Galerie Belvedere, Vienna, Austria

Quando me vi já estava num coletivo intermunicipal, um azulzinho, parada na Raposo. Hoje, vinte anos depois, tão mais minha conhecida como Travares, Raposo Travares. Aby e eu numa aventura ao desconhecido município tão tão distante de Carapicuíba. “Carapicuíba é longe pra caramba, Carapicuíba só se for de carro, é!” mas estávamos no busão. Até era fácil para duas garotas nos melhores anos de suas vidas, peregrinar por periféricas cidades satélites de Sampa, as cidades dormitórios de todas as pontas da grande metrópole, agora, prestes a chegarmos tão longe num sábado à noite…

Tínhamos as instruções precisas para chegar: descer no ponto final da Vila Dirce, pegar a Estrada do Gopiúva, na metade do caminho avistaríamos a cruz da Igreja católica, mais a frente a grande Árvore do Jandaia, casa do norte Ali Babar, rua do Vereador, viela, primeira porta do lado esquerdo…

Enquanto esperávamos o trânsito fluir imaginávamos o que encontraríamos por lá. Mas ao descer do ônibus fomos penetrando numa escuridão quase rural. E não tínhamos ideia se o caminho que seguíamos era o correto ou se estávamos perdidas mesmo seguindo todas as orientações. Na época, confiar nas orientações, nos instintos e no quem tem boca vai a Roma era o que nos restava. Afinal, os modelos portáteis tijolões só víamos nas novelas.

muitos algos me afligiam.

Era época de mudança, conquistas e amadurecimento, todos que conhecia ingressavam ou se preparavam para ingressar na universidade. Entre os carapicuibanos que acabávamos de conhecer não era diferente. Íamos a um casamento de dois jovens calouros da UNESP-Araraquara. ele Química, ela Letras. Que lindo ver um casal de pobres e pretos ingressando de mãos dadas numa vida toda nova, toda brilhante, toda merecida, toda galgada na luta e no suor de suas histórias, mesmo antes das quotas e de políticas de equiparação social serem aceitas nos salões de discussões “não-racistas” do país.

Entre os calouros, ainda tinha a melhor amiga. De ambos, dEle e de minha antecessora. Outros vários presentes: seus amigos de longa data, os parentes, irmãos e irmãs, cunhados e cunhadas. Uma festa para comemorar as aprovações e o casal que tendo lutado junto e vencido, iria casado – ao menos para os amigos pois os pais da noiva sequer desconfiavam que eles namoravam há anos – viver os anos de ouro de sua formação e porque não de sua libertação. E eu lá, sendo apresentada, a namorada.

o coração acelerado. era o caminho certo. Aby quereria vir embora na primeira hora da festa. quem estaria lá. o que pensariam de mim. e Ela???? como seria… e ele. como agiria… a melhor amiga ao menos seria uma amiga…

Avistamos a árvore e apesar de já ter pensado ver pelo menos dez grandes árvores do Jandaia pelo caminho, soubemos que era a verdadeira quando nos deparamos com a magnífica copa imperando pela estrada, depois a casa do norte, fechada, e, no momento que parecia ser o mais desesperador e escuro já visto, encontramos a rua do Vereador e em frente a viela estreita e com cara de poucos amigos, um carro com estranhos conhecidos parou ao nosso lado. Os próprios anfitriões, com a cerveja para festa, nos salvaram de assalto e nos acolheram.

Na sede dos carijos aguardamos e a festa foi chegando, se fazendo quente, cheia de abraços apertados, corpos copos suados tilintando, braseiros acesos, gargalhadas em meio ao rock-forró-baladas, um casamento secreto, por isso tão romântico, tanta zueira, impossível ouvir-se uma só palavra, as bolhas embriagantes ainda pululam nos frágeis flashes-memória daquela noite.

Abraço mais apertado foi da melhor amiga, senti que a ganhara também pra mim.

E ele. Ele também. Apesar de ser ele assim, muito livre por natureza… cabeças com asas que voa voa. Mas tem pouso certo. E quando encontra um ninho, sabe com carinho como afirmá-lo. Ganhei a noite. Aby se divertiu a beça. Acredito.

Então, como uma debutante borbulhante cambaleante pela alta madrugada tive certeza que podia. Que devia. Que merecia estar ali. E estava. Nunca mais saí.

*carijos: amigos autodenominados dessa forma por características etílicas pré-determinadas genética ou sociologicamente, tanto faz. A aceitação ao grupo costumava ser feita geralmente de bar em bar em grandes caminhadas pelas madrugadas.

Ouça nossa voz: das inseguras origens

2 comentários em “das inseguras origens

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