QUEBRA-CABEÇAS

Heitor dos Prazeres: Lavadeira

Ana Karina Manson –

Ela era menina ousada. Cheia de planos desde pequena. Há quem diga que a culpa fosse da mãe: Dona Esperança era cheia de botar sonho na cabeça da menina.

Dizia que a filha ia ser miss quando crescesse e lá estava a menina se olhando no espelho toda, toda.

Outras vezes dizia que a menina iria conhecer o mundo, viajar de barco, navio e avião. E lá ia a menina ficar imaginando cada lugar de seu futuro enquanto montava o quebra-cabeça gigante ganhado do tio, que tinha desenhos de todo canto do mundo. Passava um tempo bom no quebra-cabeça; montava e desmontava só para montar de novo. E quando tinha a parceria do primo! A viagem pelo mundo em peças era ainda melhor!

O gosto pelo quebra-cabeça a menina carregou por toda a vida. Juntar peças é também um jeito de viver.

Dona Esperança também botou na cabeça da menina que ela devia estudar, trabalhar e ser livre.

A menina acreditava:

— Se mãe está dizendo, há de ser verdade!

Ela só não entendia por que a mãe achava tão bom algumas coisas que nunca fez.

A mãe não tinha estudado. Sabia só o número da condução quando visitavam a tia e às vezes perguntava para um estranho qual era o ônibus chegando, dizendo que tinha esquecido os óculos.

Trabalhar, a mãe trabalhava e muito! Acordava logo cedo e cuidava do pão e do leite da filha e do café do marido. Ele saía para o trabalho de homem e a mãe, em casa, trabalhava mais que muito homem junto. Era um lavar e passar sem fim; roupas bonitas que a menina, ousada que era, sonhava em ter um dia.

Livre, dona Esperança fingia que era e de vez em quando até acreditava. Tinha dia que o vento que balançava as roupas no varal já era um bailado de liberdade. Tinha dia que uma comichão por dentro queria mesmo era sair pelo mundo de braços abertos, sentindo o vento bailando no vestido que cobria seu corpo e não na roupa de uma qualquer no seu varal.

Nessas horas sentia que até a roupa no varal era mais livre do que ela. À roupa bastava tirar o prendedor e o vento levaria. Ela já nem sabia que prendedor a segurava e quando não se sabe é mais difícil se soltar.

A filha cresceu cheia de sonhos que a mãe lhe semeara. Sementes que cultivadas haviam de levar a menina por um caminho melhor do que o seu.

E levou. A menina estudou e a mãe, orgulhosa, só sofria por não saber assinar seu nome na lista de presença das reuniões de pais. Pior que a vergonha dos outros pais e da professora, era o sentimento de que parecia não ter estado ali reconhecendo o talento e esforço da filha; parecia não ter existido.

Também a menina trabalhou, e muito, tanto quanto a mãe; eram mulheres fortes. Mas não era na casa, no lava-passa alheio. Ela saía para trabalhar fora de casa e descobriu, inclusive, que trabalhar fora de casa não era trabalho de homem. Faltava ainda que descobrissem ela não, mas muitos outros, que trabalhar em casa não é trabalho de mulher. Quando a mãe finalmente foi ser livre, Teresa também voou. Não como a mãe nas asas de um anjo, mas num avião que a levou para longe e depois mais longe e mais e mais. Foi conhecer o mundo e de cada pedaço de terra, de cada povoado trazia uma lembrança e assim continuou a montar quebra-cabeças.

Ouça nossa voz: Quebra-cabeças

6 comentários em “QUEBRA-CABEÇAS

    1. Que bom que gostou!!!! Muito obrigada!!! Acho que uma forma de homenagear as mães, mulheres que ensinaram , a que transbordaram essa sabedoria.

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