CARTA À MIRTES

Juliana da Paz

Quanta força é necessária para enterrar um filho? Eu não posso responder e a questão não é retórica. Ouvi você dizer, em algum lugar: “Não consigo odiá-la pois a dor de perder meu filho é maior que tudo isso. Eu só quero que a justiça seja feita, se fosse eu não teria nem direito a fiança.”


Eu nem sei bem aonde foi, pois desde o acontecido, em todo lugar eu lhe vejo. Olho minha mãe preta e lá está você, em muitas tias minhas eu lhe vejo. Leio livros sobre direitos humanos, leio noticiário, lembro do vô Flor em tudo miro sua face. Sei que Miguel é uma imagem agregada a sua, mas para ele não tenho sequer coragem de olhar… Tenho negado esse buraco que sua morte me causou.


Tenho lhe escutado a semana toda. Nós choramos juntas durante dias, caminhamos vazias pela casa, um oco no peito, mas sua força e sua delicadeza nem ouso dizer que conhecerei um dia. Vi você a prestar contas na TV, nos jornais, essa mídia que nuca lhe viu, nunca lhe quis, que jamais ouviu os gritos de seu filho chamando “mãe”, que jamais escutará a mudez que a falta dele lhe deixou na alma…isso eu olho e olho sabendo que não tenho.
Minha indignação é bem mais agressiva que a sua, me falta a força da calma, sempre me faltou. Eu que também já estive a limpar casa alheia, de certo engoli menos sapos. Eu me arrisquei mais e sei o porquê fiz. Minha tez menos escura me fez mais aceita, minha adequação à linguagem formal dos patrões me deu meio ponto a mais de status, meu cabelo menos crespo… Que poço sem fundo… Que labirinto…Que difícil sair daqui, dessa falta de apreciação daquela mulher como ser humano, se fosse meu o filho ela já estaria linda, escovada, unhas feitas no céu dos ricos e brancos, mas você, bem mais nobre, espera que a justiça seja feita.


Querida Mirtes, dou-lhes por inteiros meu braços, minhas energias, minha falta de palavras, esse silêncio… O silêncio, pois a cada palavra sinto mais vã minha carta. Eu mesma não creio que algo, além dos muitos dias por vir, poderá em algum momento sanar esse luto. Imagino mesmo que apenas muitos, muitos, muitos, abraços poderiam, juntos aliviar o peso desse luto, fazendo-a amparada pela comunhão de todos os braços do mundo… que mesmo juntos, não deveriam ter a força que você teve para enterrar um filho.

5 comentários em “CARTA À MIRTES

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