Ressignificância

Aquarela Carybé (1911-1997).

Thata Alves –

O calor, dessa vez, não era dos corpos que se tocavam pela primeira vez e nem era a mesma sinfonia que o coração tocava quando, no colar do abraço, o coração – dele – palpitou. Agora era outro ritmo. Era outro cenário, mesmo que na mesma cidade.

Dessa vez seu coração batia acelerado com a solidão do vazio de chegar ao aeroporto. Os devaneios que ela trouxe nas malas com o intuito de devolver tudo que ele deixara em sua casa, tudo que era resquício dele ela despachou…

Ao pisar em terra firme ela carrega uma esperança utópica de que ele a surpreenderia e apareceria , bem queria que ele ali estivesse. Nada.

Uma hora e meia tentando transformar pesadelo em sonho.

Quando sai do ar condicionado do aeroporto, o calor da orla a abraça, a fumaça do dendê hipnotiza, tudo isso faz ela retomar a estima e ressignificar a viagem.

O Uber é simpático com a moça, faz apresentar cada canto de todos os santos, tal como se fosse guia turístico. Ela viajava, não esta da Bahia, mas a viagem que seus pensamentos a levavam, Iansã com sua brisa a acalmava.

A moça é de peixes, e estava ela defronte ao mar, Iemanjá a cuidava, seu ori são, sadio.

O moço do Uber diz ao fim da corrida, quando a moça do GPS diz “Chegamos ao destino”, que estava encantado pela moça, ela o olha nos olhos, agradece o carinho e sorri sem dentes, desse sorriso que só seu outro amor sabia decifrar (riso de timidez).

Ela sabe que carrega uma magnitude, é como se andasse e jogasse glitter em seu próprio caminho, aprendeu a reconhecer esses fascínio de fascinar.

Seu pai quando pequena a embalava nos braços acarinhava seus cabelos e sussurrava:

– Essa é minha Osunzinha. Minha Osunzinha.

Essa memória a atravessa no mesmo instante em que a lágrima salgada, como as águas de Iemanjá, percorre a pele preta, da preta.

Ela lembra do reinado que ela vem.

Da realeza que és.

O canto é que guia a moça, faz melhor do que qualquer aplicativo de localização, ela segue a canção.

“Mar amando, mar amando, vem em mim

Mar amando, mar amando, até o fim”

Era voz feminina doce, como bolinho de estudante, banana da terra…

O encontro desse canto a faz ganhar um abraço, embalado por ritmo Ijexá ela permite desatrofiar o corpo e seu corpo rescende as memórias de como dançar, isso é herança ancestral, ela ouve a intuição, ouvir a intuição sempre foi sua playlist predileta.

Faz seu cortejo “espalhando glitter” até o pelourinho, o samba duro a faz amolecer, o riso antes sem dentes faz esbanjar em gargalhadas, ela vive por ela, sua canga a torneia, suas curvas no misto de alegria e transparência oferecida pelo tecid , leve, quase solto.

Sabia de cor a discografia o Ilê Ayê, porque mesmo nascendo na cidade Cinza ela não se identifica com o lugar… Desfruta, comunga , fartura de tudo como a Bahia é, ela tinha isso no corpo, ancestralidade tinha ela.

Na exaustão de dançar compra uma água de coco, e surpreende-se com garçom que traz para ela a água de coco e uma porção não pedida, ela franze as sobrancelhas, olha pro garçom e antes de poder questionar, o rapaz diz, tem um bilhete em baixo…

O bilhete dizia:

Para o sorriso mais bonito do Pelourinho…

Ela interpreta uma espécie de buquê

A porção era de camarão

E o admirador secreto de Sango…

2 comentários em “Ressignificância

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