Derradeira primavera

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Silmara Guerreiro: Jardim do mundo

Elisa Dias –

Eu carrego comigo uma alma saudosista que vive revirando as gavetas do meu passado.

Memórias sempre são revividas e acessá-las me traz um misto de sensações que é difícil descrever. Chego tão fundo dentro de mim que sempre me afogo no mar que sou, um oceano profundo de recordações e velharias. É de uma beleza tão triste rever a vida, que esta dor que vos falo chega a ser bonita.

Recordo-me dos segredos repletos de perigo, guardados de baixo de sete chaves, que outrora era o que de mais grave poderia ser e neste instante é apenas uma recordação empoeirada. Algumas juras e promessas inquebráveis são aloquetes abertos.

Diários mofados, o primeiro beijo escondido, a primeira vez que vi o sol nascer, o espetáculo de cores que me trouxe a certeza, mesmo aos quatro anos de idade, que havia a existência de uma energia suprema que até hoje gosto de chamar intimamente  de Deus . O que me intriga  de forma aguda é ainda o fato estar tão viva dentro de mim a lembrança de alguns dias que não possuíam em sua forma nada de especial, mas consigo sentir o cheiro da tarde e o gosto que a vida tinha, e como me pegava em devaneio, me percebendo como um ser humano, sentia pulsante o sangue e a terra sob meus pés, e sempre costumava agradecer o momento porque no meu íntimo eu sempre soube quando estava vivendo algo único mesmo que não houvesse nada de especial e louvável em um dia qualquer .

Fiz esse rodeio tremendo para voltar no tempo e contar a maior crueldade que a vida poderia ter feito comigo, a minha memória pousou sobre a primavera de 2004, onde eu ainda uma criança desbravava a minha vida e meu intimo, vivia me emocionando ao ver filmes, fotografias, ouvindo músicas, olhando pro céu, com uma nostalgia que me fazia sentir saudades do que nunca vivi, era como se eu estivesse me desprendendo de algo momento, me fazendo assim saber que sou dona de uma alma antiga que esteve aqui em muitas outra vidas. Sou irmã e prima caçula, o que me proporcionou, uma oratória sem limites para uma criança, segredo de primas, ocultar histórias dos irmão,s e, claro, ser bode expiatório nos feitos que não tinham, em nenhuma hipótese, a aprovação dos meus pais, em contraponto a todo fardo de ser a irmã caçula eu ganhei a sapiência de saber coisas que não cabiam para minha pouca idade, e que fique claro que todas elas eram tiradas de conversas escutadas atrás da porta, e roubos pontuais de diários da minha irmã.

Em uma tarde onde seguia minha rotina de criança malina, subi a ladeira da minha casa com um pedaço de telha  de fibra, que eu havia adquirido da construção do vizinho, e era novo tesoura da criançada, pois sentávamos todos naquele pedaço de telha e escorregávamos rua a baixo  até colidir com qualquer coisa que nos barrasse, e aquela era a felicidade imensurável. Eu carrego dentro de mim uma alma criativa, pois crescer num mundo que seu povo é esquecido e nada é oferecido, tem que se criar seu próprio mundo para não se afundar na lama, e fingir não viver no seu próprio meio. A imaginação de um criança é presente dos céus. 

Aquela tarde de primavera era como qualquer outra, não trazia com ela nada de mais, entretanto quando eu subi o morro e vi a forma como o sol beijava as casinha sem reboco, como as crianças andavam por ali descalças, e que meu avó com seus 60 anos estava colecionando mais calos nas mãos e perdendo a cada ano alguns centímetros, me dei conta de que estava vivendo ali um momento efêmero, que eu era um ser humano. Senti meus pés no chão, me tomei inteira de uma melancolia que me doía as costas e o pé barriga, parecia até que haviam facas me rasgando.

Cultivei dentro de mim essa sensação. Era fim de semana e com minha alma antiga ganhei um gosto por ser boêmia, e tinha o costume de ficar acordada o mais tarde que pudesse ouvindo os CDs do meu irmão e rabiscando meus diários, diga-se de passagem ainda hoje tenho todos, acho que sou uma guardadeira de recordações…

Foi uma noite onde a melancolia não me deu um único momento nem para respirar a dor física  continuava a me rasgar. Foi quando olhei minha camisolinha branca com mangas bufantes, e a cena que me assombrou aquela noite toda estampou minhas vestes de criança me fazendo saber que aquela tarde foi a última que pude ser uma menina, eu tinha me tornado uma mulher, e o vermelho que transpassava minha camisolinha e sujava o lençol não me desesperou por não ter a compreensão do que se passa, era o contrário, pois as leituras nos diários da minha irmã e as conversas escutadas atrás das portas, foi um curso intensivo sobre aquela metamorfose que estava sucedendo no meu corpo.  E não poderia ter me acontecido nada pior, era uma quimera o meu maior medo de ter que me tornar uma mulher aos nove anos de idade. Não pensei duas vezes, peguei minha imagem de Nossa Senhora de Aparecida ajoelhada no chão do meu quarto, e implorei por tudo que existia de mais puro e sagrado no que aquele feito fosse desfeito, e é claro que no meio das lágrimas de desespero  eu tinha plena convicção que Nossa Senhora não ia me desamparar. Aquela foi a noite mais aflita da minha até então existência, mas dormi com a fé de aquilo teria sido apenas mais um sonho ruim e que o vermelho no dia seguinte sumiria.

Pois bem, esperado a mancha só se lastrou,  eu nem conseguia acreditar que minha Santinha havia falhado comigo, afinal de contas  nem na Copa de 95 quando eu assisti o jogo todo do Brasil com ela na mão ela me desamparou, e em meio a decepção, desgosto e revolta, me peguei em outro devaneio me percebendo suspensa naquele momento, onde eu me desprendia de mim e me tornava outro alguém, comecei fazer uma junção de conversas ouvidas e montei um quebra cabeça filosófico da compreensão humana, do porquê aquilo tinha que ter me ocorrido. Poxa vida, um castigo de Deus ?

Outro dia ouvi uma senhora dizer que as mulheres descendentes de Eva teriam a mancha do sangue em suas vidas por toda eternidade como lembrança do castigo por ter provado do furto proibido, posso lhes garantir que nunca na vida desejei tanto ser um menino descendente de Adão, de longe eu me deparei com a primeira injustiça contra o feminino. Adão também provou do fruto proibido, logo seria justo que ele também tivesse um castigo. Mais era chegado a hora como eu ia reportar essa notícia a minha mãe ? O que ia Dizer ?

Tive a brilhante ideia de me fazer de completa desentendida, fingir que não sabia o que estava me acontecendo, e incumbida do maior cinismo e meu talento nato pra atuação, me coloquei no maior pranto  até que ela se convencesse de ir até meu quarto. Não sei mensurar a imensidão do constrangimento da conversa que tive com minha mãe por horas naquela manhã. Eu não queria ser uma mulher, ter me privar de fazer tanta coisa por sete dias, era castigo por ser criança levada?

Minha mãe passou a notícia para algumas tias que me deram os ‘’parabéns”. Parabéns ? Para quem ? Acho que por todas as minhas traquinagens  minha mãe se vingou, pois ela contava para todas as mulheres, já que dos homens eu devia manter isso em sigilo absoluto, e a cada repassado desse feito eu caia em prantos  e todo mundo ria de mim e tentava normalizar o fato mais pavoroso que poderia ter me acontecido.

Acontece que não foi na primavera de 2004 que deixei de ser criança,  eu tive ainda longos anos correndo ladeira acima e abaixo com os amigos, voltando para casa no fim da tarde com o corpo salgado, e vez ou outra eu ainda conseguia me perceber como ser humana vivenciando um momento único, que mesmo sem nada de especial, e mesmo na derradeira primavera eu sabia que o que eu trazia de esplêndido em mim vinha de outras vidas e eu jamais me desprenderia da minha alma saudosista.

Ouça nossa voz: Derradeira primavera

2 comentários em “Derradeira primavera

  1. O universo feminino tão intenso! As mulheres por vezes precisaram se esconder, era a orientação! Seríamos criminosas? Alguns queriam, e ainda querem, que nos vejamos da pior maneira! Não nos vemos! Não veremos! Esse universo feminino é belo e forte! E quero muito ensinar isso à minha menina de 9 anos… obrigada pelo texto!

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