A nua


Celane Tomaz-

Na justeza de sua ainda breve vida e dentro dos limites do contorno que separava sua vívida consciência de seu corpo- matéria, tinha anseio por saber sua grandeza. Era mais uma segunda-feira refém do tempo, frente a seus ponteiros. Seu cheiro de banho fresco exalava pelo quarto, suave e limpo. Sem estar pronta, vendia sua coragem ao cotidiano.
O trabalho, a rotina, os seus e os pesos não podiam esperar. E, ainda assim, carregava nas pausas de seu piscar de olhos algumas (e)ternas esperas. Eram tantos “sim” que lhe contrariavam. Pelo menos naquele dia desejava estar coberta de seus “nãos”.
Sem luz, diante do espelho, escolhia o vestido que esconderia sua nueza. Branco ou vermelho, cor de vida ou opaco. A palidez não se servia, já que era sensível ao seu estado de alma inquieta.
Encarava-se com um sorriso sutil e a falava sobre o rosto que estamparia seu dia. Era tão convictamente indecisa. Todas as suas faces lhe cabiam. A mulher, a mãe, a filha, a desconhecida. Quem tão bem sabia de cada uma delas? Apesar de tão sua e pertencida, nem ela mesma lhe era tão íntima.
Precisava se compor, mas o tempo astuto a despia.
Regida pelo seu próprio silêncio e por uma autonomia por vezes tão mínima, percebia que estava viva por bruscos e brandos movimentos com que transitava seu corpo no mundo, e aos poucos tais extremos lhe ensinavam como devia domar a vida. Levantava os braços, desenhando no ar invisível possibilidades de ser e estar, como ali podia, assim nua. Seus seios, de tantos afagos, indefesos e frágeis, estavam à mostra. Seus próprios contornos não lhe impunham limites. E sabia que por detrás do emaranhado de seus cabelos se escondia um universo plural. Seu sinal de nascença, perto da cintura, carregava outros elos vitais. Outras marcas, de infância ou sutura, lhe explicavam intraduzivelmente a mulher que diante estava.
Ao se cobrir, pensava em quem estaria a observá-la, enquanto o véu de seu vestido rubro deslizasse sobre o seu rosto e inquestionavelmente prendesse seus braços e contraísse seu corpo para que coubesse naquele disfarce de pano?
Atônita com aquele desencontro súbito, não se vestia de mais nada. Emudeceu os lábios com um batom, corou de rosa a face pálida e dilatou com tinta os cílios, enquanto os olhos descansavam abaixo das pálpebras.
Tarde, no escuro da noite, vestida de cansaço, presa num vestido sujo, jogando as chaves e seus tantos papéis sobre a mesa, voltaria para se encontrar.

Ouça nossa voz: A nua

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