Ser-tão

Gilvan Samico: Criação das Sereias

Arlete Mendes

Já disse, não sou paulista. Não adianta jogar mais essa carga em mim. Nunca fui, nunca serei. Os registros? Sim. Mas nem todo fato é um fato inteiro. Explico-lhe. São Paulo é um acidente em minha vida, assim como um dedo mindinho aleijado, os dentes que faltam em minha boca, os amores perdidos, os amores encontrados, meus filhos…

Nascer não é um fato isolado, é um contínuo, a gente nasce e morre ao longo da vida. Eu nasci muito antes de vir ao mundo. De repente uma moça grávida, um casamento às pressas, sobreviver em outro estado, um ser sem sertão…

Eu nasci primeiro da solidão de minha mãe, numa terra de muito sol, que faltava o pirão, faltava água, faltava futuro, mas não faltava calor. Nasci antes de nascer, e como já pensei em ter nascido demorei mais tempo para vir ao mundo.

Não crê? Não me venha com essa, contra fatos há muitos argumentos. Quando cheguei? De repente. Mãe sozinha, numa casinha de um compartimento, sem nenhum dos seus. Dei trabalho.  Enfermeiras mandaram chamar as freiras, rezas e rosários em cima da barriga dela. Rompi. Foi minha primeira morte.  Quase sem vida, roxa, imóvel. Espremeram de mim um resvalo de suspiro. Não olhei com curiosidade para esta terra. 

Pouco calor para me aquecer.  O poço era distante, muita roupa para lavar.

Menina que nasceu quieta, fica quieta para mãe trabalhar.

Como não tinha o calor, minhas mãos sempre em gelo eram esquentadas com água amornada. Um saco plástico entre os cobertores para o frio suportar.

Menina da terra do sol, se aquece nos panos que a mãe vai trabalhar.

Garoa fina e saudade fizeram mãe chover.  Para não se desfazer em rio, pegou as trouxas e eu, voltamos para os nossos.  Não levou muito tempo pai veio nos buscar, chorei dizendo adeus pelo vidro embaçado do ônibus. Três dias dizendo adeus, adeus aos meus. Ecoando em rotação e translação entre sol e chuva, cidade e sertão…  Adeus… Adeus…Adeus….

Foram longos anos de solidão, quase sem em quem pudessem confiar. Nesta terra de ninguém, morria-se um porque deu bom dia e outro porque não. Custaram longos anos até que pudéssemos pisar sem tanto medo nessa terra vermelha, vermelha de tanto sangue nosso derrubado.  Custei a entender…

Menina sai do porta, teu amigo é pai, mãe e irmão.

Ah, sim,estudei. Mas os pisões nos pés dos meninos que riam das minhas havaianas, do meu sotaque, da minha pele de sol, dos meus cabelos de macambira, isto não consta no histórico escolar.

Se esta terra acha que me tem, está enganada, eu nunca a tive, tenho amigos, quase que conto todos nos dedos das mãos. Amores?  Se foram em dores. Aqui morri muito mais do que nasci. Morri 55 vezes. Nasci somente cinco.

Sou filha de outra terra, sou filha do sertão, onde posso ser, ser-tão… Lá eu sou.  Céu.Sol. Pássaro Amarelo. Nuvem azul. O caju e a cajuína, Juazeiro e Petrolina. E o velho Chico mora no meio, bem no meio de mim.

Não sou digna desse chão, ele me diz isto todos os dias em muitos nãos.

Vai –te embora filha do vento, vai-te embora e leva teu azul!

Tenho uma arenga com ele, me deixou com a pele escamosa, o olho anuviado e o coração sempre acelerado.

Sou ingrata, não. Só não me chame de paulista, porque não nasci aqui. Nasci no meio. Entre  vida e morte, entre cidade e sertão.  Sou meio, meada, mestiça, multidão…

Ouça nossa voz: Ser-tão

Publicado por arlete mendes

escrevinhadeira, educadora, mãe de meninos e meninas, amante da música, da literatura, da vida!

9 comentários em “Ser-tão

  1. Arlete vc me fez rememorar uma espécie de maldição q o Paulista carrega. Antes de se inventar o termo Bandeirantes para designar os homens desbravadores do território “brasileiro” a serviço da coroa portuguesa, estes eram chamados de Paulistas. Pesado! O termo aparece em documentos do século XVII. Se não me engano Bandeirantes foi cunhado duzentos anos depois.
    Paulista carrega a mácula do genocídio, do estupro, da quase extinção dos povos originários. Envolve muito sangue derramado, pisado e repisado. Maldição e crueldade. Por outro lado, podemos questionar: em q parte deste planeta não há a marca da perversão humana?
    O q importa é reinvenção q pessoas como vc fazem metamorfoseando a dor em beleza.
    Minha veia anarquista rejeita fronteiras e bandeiras. Cedo aprendi q os gentílicos são expressões vazias de sentido e significado pra quem tem o universo como morada. Pra quem sente as partes do todo em si mesmo. Acho q é uma forma de inverter a identidade e de procurar uma desidentidade q me dê sentido.
    Somos universo. Uma parte no todo. Mas o uno em mim.
    Às vezes desvio um pouco o caminho q me motivou escrever. Esquizofrenia pura.

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    1. Clayton,
      Ler seus comentários sempre me traz um aprendizado e uma alegria, esses sentimentos são muito caros para mim, como sabes…
      Eu não conhecia essa origem nefasta do termo, era algo intuído, talvez alguma informação transmitida ocultamente pelo DNA ancestral, perpetuamente perseguido, que me diz que essa cidade quer nos matar…
      Como diz Mujica a elite paulistana não compreende que estamos numa era de integração, se fecha e menospreza tudo que não é si mesmo…Narciso acha feio o que não é espelho… Isto é muito doloroso…
      Meu abraço transcendental…

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  2. Linda Arlete, conterrânea ❤️ tantas emoções seu texto me trouxe. Chorei aqui porque eu te entendo e eu te sinto. E, por também, não ser paulista e ser tão ❤️

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  3. Lindo de viver.
    Sinto que a nossa ligação com a terra natal permanece a mesma onde cai magicamente o cordão umbilical. Ali é o seu lugar. O mundo pode ser encantador, mas sua origem está lá

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    1. Obrigada pela leitura, amado amigo, curiosidade: nossa família tem a tradição das mães guardarem os umbigos dos filhos, minha mãe tem os nossos, eu tenho dos meus meninos. Ela é meu chão, assim como minha avó foi o dela, as pessoas são nossos vínculos reais com a terra, eu tenho parte de mim aqui, e outra muito importante lá… mas quando penso num lugar de acolhida, definitivamente não é SP que me vem a cabeça. Imaginário que construímos…vai saber…
      meu abraço.

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  4. Minha prima, emocionei-me muito ao ler este texto. O sertão, o sol do nordeste tem um jeito diferente de fazer gente. Interessante o nosso desencontro e encontro. Eu nasci no bairro da Liberdade, paulistana no registro. Mas, felizmente, com menos de 2 anos, voltei pras origens do mais pais. O Ceará! Eu nunca me considerei paulista,nunca mesmo. E o maior orgulho que carrego na vida, foi ter sido criada no chão do meu Ceará!
    É justo aí onde a gente se encontra: no amor ao sol, ao sertão e à pele queimada!

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  5. Lindo texto, mas triste… Lindo essa identidade com sua terra, triste essa distância física e mais ainda a dor dessa terra paulista. Alguns lugares são donos da gente e o seu te encontrou, isso já é um ganho. Há tantos que vagueiam sem serem encontrados pelo seu lugar. Sei que você está me fazendo querer conhecer esse canto do Brasil! Rs

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