Faça a coisa certa

Remédio Varos: Romper o círculo vicioso

Ana Karina Manson –

À professora Socorro e ao professor Gilberto

Há alguns anos, acredito que uns trinta, numa brincadeira de amigo secreto um professor me presenteou com bombons e um cartão. Não me lembro a marca ou sabor dos bombons, mas o cartão ainda o tenho e mesmo que o perdesse como muitas coisas se perdem no tempo, ainda me recordaria de seus dizeres.

Escreveu-me então: “Um famoso diretor de cinema americano, Spike Lee, em um filme chamado “Faça a coisa certa” sobre o racismo nos EUA, colocou no final duas frases com sentidos opostos; uma apelando para o conformismo, para a aceitação do mundo como ele é; outra chamando à luta para mudar o mundo. Por isso, ‘fazer a coisa certa’, escolher a melhor opção; aceitar as coisas como elas são ou tentar, dentro do possível, mudá-las. As pessoas que por obra da natureza, do destino ou de seu próprio esforço possuem algum talento especial, devem usá-lo para mudar o mundo. Espero sinceramente, que você use seu talento para ‘fazer a coisa certa’”

Nesse tempo nem imaginava quem era Spike Lee, porém entendi o conselho, mas não a dimensão do que me fadava a ser e fazer.

O fato é que a cada decisão que tomo, vem em meu pensamento se estou fazendo a coisa certa. Sobretudo quando essas decisões referem-se à coletividade.

Por algum tempo pensei que fazer a coisa certa seria estudar, ter uma formação, ser uma pessoa digna, responsável – uma cidadã de bem. Fiz tudo isso.

Porém, hoje enxergo o que tal professor quis me dizer há tantos anos. Ele havia vivido tempos difíceis nesse país. Ah, é preciso dizer também que a disciplina que ministrava era OSPB – Organização Social e Política do Brasil, resquícios destes tempos difíceis.

Todavia, já ministrava tal disciplina com a possibilidade de nos dizer a coisa certa. Era início da década de 90. Podia falar de organização política, mas dessa que se faz em chão de terra, em pátio de fábrica, em salão de igreja, etc.

Com o passar do tempo fui conhecendo as desigualdades que assolam nosso país, desde as que o professor queria nos alertar e perduram ainda hoje, até as que foram surgindo ao longo desses anos, pois apesar de pouquíssimas tréguas e fiapos de esperança, a distância entre os desiguais aumenta assustadoramente.

Há momentos em que surge uma sutil ilusão quando escuto minha amada mãe falar “perto do que tínhamos, agora somos ricos”. E relata situações em que não havia realmente nenhum direito contemplado.

Não havia moradia, saúde, educação, saneamento básico, segurança…

E de repente quando nos damos conta a frase do passado, aplica-se ao presente:

“Não há moradia, saúde, educação, saneamento básico…”

Não há para muitos. E para alguns há uma pseudo-moradia, pseudo-saúde, pseudo-educação. E nesse há sem verdadeiramente haver, há quem se engane e aceita o mundo como é, conformam-se. Ou mesmo há quem satisfeito em ver tantos não terem seus direitos contemplados, continuam aplaudindo a engrenagem da desigualdade por serem eles os poucos a gozarem de direitos que são quase que exclusivos, quando deviam ser de todos.

Hoje, leio quase trinta anos depois, o cartão e suas inspiradoras palavras, pensando nos dias atuais e o quanto é necessário fazer a coisa certa, ou ao menos “tentar, dentro do possível, mudar o mundo”. O quanto é necessário pensar nos tempos difíceis vividos pelo professor e outros tantos. Tempos esses que urge negar e rejeitar. E pensar nos tempos difíceis vividos hoje por tantos que às vezes nem se dão conta de como são diariamente torturados em ônibus lotados, em hospitais sem atendimento, em escolas que aprisionam.

Ah, professor, se pudesse lhe diria que vou tentando fazer a coisa certa, agora eu, professora, colocando-me no lugar da aluna que teve seu avô desaparecido no tempo da ditadura, cuja foto carrega na bolsa – foi só o que ficou.  Coloco-me no lugar da aluna assediada no ônibus; da doméstica explorada pela patroa que não quer deixá-la estudar; do adulto aprendendo a escrever que nem sabe como fazer para votar, correndo o risco de copiar qualquer número só para sentir menos vergonha por não ter frequentado a escola antes (bem que ele queria); do menino negro que nem teve o direito de sonhar. Da mesma forma que um dia se colocou no meu lugar – a aluna pobre da periferia que nem sabia que podia sonhar; sonhar em fazer a coisa certa. Obrigada!

Ouça nossa voz: Faça a coisa certa

12 comentários em “Faça a coisa certa

  1. Quantas de nós demoramos também a entender que podemos sonhar, quantos também ainda não podem. Gratidão Ana 🙏🏽 fortes reflexões

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      1. Obrigada! E a você e ao professor Gilberto que dedico esse texto. Você é um exemplo e estímulo para continuarmos e não desistirmos!

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