Eu menina

Celane Tomaz –

Quando bem menina pensava que tudo era enorme, quase sem medida e infinitamente maior do que a mim. A extensão da rua, os portões das casas, a cabeça das pessoas adultas, o alcance do céu. Tudo era imenso e eu sempre tão inclinada e tão fragilmente curiosa, mas não da altura dos meus medos e da minha pura vontade de viver.

Os dias de sol sempre eram estados de alma. O sol sorria tão aberto e eu sorria de volta. Desafiador era manter os olhos bem concentrados, encarando-o como se eu fosse mais resistente do que ele, impotente na minha miudez. O mundo a mim era recíproco e o desconhecido me levava. 

Os desenhos das nuvens revelavam um universo à parte. Outras crianças, sapatos e sorvetes podiam ser vistos ou criados. O céu e as nuvens eram matéria-prima dos meus sonhos de criança. E era para lá que iam as boas pessoas e os mais velhos, foi pra lá que foram os meus dois cachorros que sempre nos visitavam naquelas formas cheias e brancas, tão limpas e bem maiores do que eram quando brincavam no quintal de casa. Morrer podia ser sinônimo de viver melhor em outro lugar, porque viver aqui também doía. Doía a ferida aberta na testa, o castigo “dendicasa” e a queimadura provocada pela forma do bolo de cenoura ou a cobertura quente. A morte. Dela não tinha medo. Temia ficar dias sem brincar, caso chovesse. A chuva. Bastava alguns minutos tentando contar as gotas dela no chão cimentado ou de barro, que ela tudo lavava e levava. As tempestades já ensinavam que não havia prazer maior do que depois delas poder sair e que era possível pisar nas poças antes que secassem.

Os dias de sol tinham cheiro de manga e a cor das mãos de mainha, pretas banhadas de dourado, descascandoas mangas sentada na calçada. Saboreava-as na rua junto com a minha liberdade. O dia podia não ter fim. Podia a própria noite não vir e o escuro em outro lugar descansar. Meu maior medo era lamber e limpar os dedos amarelados de manga distraidamente no vestido colorido e manchá-lo com as mãos sujas das frutas da estação, pois dava “nódoa”. Era uma marca para sempre. E para sempre era o resto da vida! A cabeça doía e doía de tentar pensar o que era esse tal de “pra sempre”. Eu não entendia. Mas entendia quando pensava que as mães deveriam ser os únicos seres a caber nesse no “pra sempre”, e não a nódoa.

Era melhor brincar do que pensar. Era melhor rir do que ter medo. Mas o medo era tão feito de medo, que só hoje vejo que não eram tão assombrosos assim. Os medos de hoje talvez sejam realmente assombrosos. Talvez os medos de hoje sejam de outras quedas, feridas, monstros e velhos do saco de verdade.

Quando menina não sabia ao certo os dias da semana, nem os meses que passavam, muito menos as horas marcadas nos ponteiros dos relógios dos  homens importantes, e do seu tempo que era sempre um inimigo relutado. Não sabia com exatidão as estações do ano, mas bem distinguia no céu e no ar o calor para os banhos de mangueira e o frio para os bolinhos de chuva. Eu sabia que crescia, mas nem percebia que doía.

Quando menina tanto ouvia vozes e os sons do mundo. Por vezes não entendia, mas isso bastava – eu sentia. “Corre, menina, corre!”. Tanto corri que as fugas para os quintais de outras casas e as raladas nos muros e nas pedras das ruas sem asfalto renderam-me boas cicatrizes nos joelhos. Cada linha uma boa história. Cicatrizes das dores da vida crescendo. Arriscando-me, remendando-me, sorrindo e chorando. A cura estava no beijo da inocência.

Quando eu era menina pensava que tudo era enorme, quase sem medida, infinitamente maior do que a mim. Tudo realmente é imenso. Eu continuo inclinada e, por vezes, curiosamente frágil. Mas neste mesmo mundo, vasto mundo, nunca coube e não cabe, desde pequena, a minha coragem.

Ouça Nossa Voz: Eu menina.

8 comentários em “Eu menina

  1. ” O que curava era o beijo da inocência”… Em que lugar do tempo a vida nos obriga a largar, ou ao menos, guardar bem guardada essa poderosa arma que nos livra de absorver tanto veneno? Texto lindo, de escrita leve e corrente, feito uma menina corajosa!

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  2. Que texto lindo! E como caminhei, corri pela minha infância… Mas me tocou mesmo pensar nessa menina crescendo. Crescer não é fácil e ver os filhos crescerem menos ainda. É um misto de sentimentos que nem sei se damos conta ou se queremos dar. Às vezes é orgulho e admiração, outras é um aperto.

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