Carolina Tomoi –

Vó fumava. Lembro dela sentada no banquinho – era um banquinho só dela, cujo assento era côncavo, ela mesma o havia desenhado e encomendado num marceneiro da vizinhança – seus cabelos meio dourados ficavam translúcidos conforme batia aquele solzinho de começo de manhã. As armações dos óculos arredondados eram marrons, mas tinham umas manchas transparentes que faziam uma moldura perfeita para seus olhos claros e pele alva. Com todas as rugas que suas sete longas décadas a permitiam ter sentava acocorada em seu banquinho, com o cotovelo apoiado na coxa, medida perfeita para que os lábios alcançassem o cigarro.

De rabo de olho, repassava o quintal. Observava calmamente o canteiro, o capim santo já precisando de uma poda, hortelã que não tava lá essas coisas, podia cortar um pouco aquelas raízes, almeirão que nunca faltava nunca mais tinha dado as caras, umas cheirosinhas cebolinhas, salsinhas todas saidinhas, até que davam pro gasto. O boldo, sempre presente e verdinho, não sei pra quê, porque ninguém tem coragem de tomar aquela desgraça. Vó até revirava os olhos pra tomar novalgina, boldo então, ela dizia “de amarga, basta a vida!” mas também ela nunca precisou, tomar boldo.

Vó tinha uma força de leoa. Contava que numa época, talvez com uns dez ou doze, levantava muito do antes do sol, descalça com um saco de algodão nas costas, punha-se a caminhar pra roça de algodão. Seus minúsculos pés eram as primeiras coisas a quebrar os fragmentos de gelo que a geada há tão poucos minutos tivera o esmero de esculpir. Os dedos das mãos como iscas moles para espinhos congelados das fofas e alvas plumas de neve na qual o algodão houvera se transformado na madrugada. Por isso às vezes queixava-se de dor nas juntas. Só se livrou desse martírio, quando levou um chute do padastro que a descadeirou. Sua vó a socorreu e a livrou daquele monstro, privando-a da convivência de sua mãe e irmãs.

Teve oito filhos, perdeu dois. No nascimento de um deles foi levada em pé dentro de um carro ao hospital, não podia sentar-se nem deitar, mas o bebê já havia morrido. Estava torto, desencaixado e nada mais podia ser feito. O outro anjinho nasceu vivo, mas sofreu por alguns meses e não resistiu. Essa também foi sua última gravidez. Os outros filhos todos nasceram em casa. Três são paranaenses, outros três paulistas. Eles viviam viajando. Três homens e Três mulheres.

Apesar de tudo, acho que ela foi feliz. Ficou viúva cedo e sentia muita saudades do meu avô, ele aprontava, não era mulherengo, mas sofria com uns apagões e ficava violento. Uma vez quebrou os dois braços dela. Não foi por querer. Ele ia bater num dos meninos, ela entrou na frente, pra proteger. Depois ele não se lembrava de nada, chorava, acho que um dia cansou de se esquecer. Foi-se embora e esqueceu de voltar para ela. Sempre me contava que não suportava dormir longe dos braços dele. Que depois que se casaram, nunca mais havia dormido longe de seus braços.

Hoje quando estou brava, afasto de mim meu carinho, penso na minha vó.

Depois que o cigarro acabava, ela jogava a bituca no cantinho, levantava devagar daquele banquinho. Ia perto da torneira e começava o dia molhando o canteiro.

Ouça nossa voz:

10 comentários em “

    1. Carol muito lindo… Saudades de quintal, de plantas, chás. Lembrei de uma fala do Duvivier que afirmou que no filme “A Vida Invisível” está a história de nossas avós. Seu texto destaca muito bem a luta dessas lindas vós guerreiras, algumas além das bitucas eram benzedeiras. Bjs

      Curtido por 1 pessoa

  1. “Foi-se embora e esqueceu de voltar para ela.” que frase linda
    O texto tb me fez lembrar dos verdinhos aqui de casa, sempre pedem tudo do que ha aqui. Mas o boldo reina sobrando rs , najestoso, tapete de Osala, aqui o usamos pra banho rs

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