Fome de pai

Carlo Pires: Migrações em África

Arlete Mendes –

Era domingo, ou seria segunda? Fora do tempo regulado exclusivamente pelo trabalho, já não sabemos que dia exatamente é. São as bendições da quarentena. Estamos fazendo as refeições juntos, isto para nós significa debater assuntos polêmicos e lavar roupa suja, descobrimos que este é o momento mais adequado, porque se algo no assunto incomoda, devora-se com mais voracidade uma coxa de frango e tudo fica mais ameno. Menos para os frangos.

Neste dia em particular resolveram cutucar a bílis familiar, o debate foi longo, acalorado, deu tempo de gelar um pavê, trata-se de um tema que azeda qualquer conversa aqui em casa, creio que os dados estatísticos não me contradizem, falar de paternidade num país como o nosso é sempre um angu de caroço. Costumo dizer que o Brasil é uma pátria sem pai.  Ele tem ido embora continuadamente, ao longo dos séculos, na primeira nau de partida com uma rapariga de tez mais clara, nos acenado como sinal de afronta.

Nesse debate passeamos pelo pai histórico, pelo pai real, pelo pai ideal, pelo pai aceitável até chegarmos no pai possível, no pai que deu, né? Fazer o quê? Como dizia uma personagem de alguma novela que eu nunca assisti, mas ouço a frase à exaustão: “É o que tem pra hoje!”.  Será que é de alguma novela mesmo?

Às vezes penso que essa falta de memória deve ser efeito colateral da ausência de pai, a gente vai apagando as memórias tristes, e acaba apagando até o que não deve. Meu pai sempre estava com fome e comia numa bacia. Nunca deixava a gente falar enquanto comia, comia quase o frango inteiro, deixava o peito para gente, era parte que todas nós gostávamos, uma coxa e o fígado para minha mãe, que era o que ela mais gostava.

Cuidemos da conversa, entre pai pra lá e pai pra cá, para tentar entender meu pai que era alvo de ataque dos netos, resolvi contar um pouco da história dele. Primeiro questionei, como alguém que nunca teve um pai, vai saber o que é ser pai? Paternidade é uma invenção do mundo contemporâneo. Muitas coxas de frango em riste, falas indignadas entre a salada. Fui até xingada de falsa feminista, mas tentei seguir com minha argumentação. Jovens crescidos sem pai são um tanto coléricos, eu não me ofendi com o xingamento. Antes retomei a história de violência, de machismo, de patriarcado, de abandono, de carência material e afetiva, de falta de modelos, enfim..

Daí um tomou minha taça e deu gole, como a argumentação estava nos levando a zonas perigosas, tive de usar a estratégia de Cristo e fiz uma parábola.  Metade da história tive que intuir, já que só me restaram pistas.

Meu avô Raimundo era negro. Chegou forasteiro com sua família num povoado no meio do sertão, formado prioritariamente pelo casamento consanguíneo entre descentes de portugueses e algumas indígenas agarradas à laço, por isto só,  já dava para entender  sua ira incontida diante do desprezo que sofria naquela comunidade. Sei disto porque minha mãe conta que a primeira vez que viu um negro, lá em seu povoado, ela saiu correndo com medo. Triste a fala, mas muito reveladora. O medo do desconhecido leva ao preconceito, o preconceito a intolerância e a intolerância ao ódio. Esta era a matéria prima que estava na forja do meu avô. Como cada ser humano lida com os males recebidos de forma diferente, ele resolvia suas diferenças na faca, na bala, no murro.

Quando minha avó recebeu o pedido de namoro, às escondidas, sabia de algumas confusões que ele se metera, mas relevou, fugiu e se casou a contra gosto dos pais. Teve seis filhos.

A cada ano a única coisa que crescia era o ódio, e aos poucos esta era a única linguagem que vô Raimundo conseguia pronunciar. Daí a começar a beber e a querer bater nela e nos filhos pequenos foi um caminho quase que natural, nisto minha avó perdeu quatro dos seis filhos que teve, por fome, por doença, por queda de rede…

O ódio cada vez maior, até que uma noite, quando ele saiu com um facão na mão dizendo que estriparia um a um se ela partisse, não teve dúvidas, fez uma trouxa, pegou um punhado de farinha, um pedaço de rapadura e uma cabaça de água, meu pai ainda mamava, e partiu caatinga adentro. Passou três noites dormindo na mata, até que foi encontrada por seu irmão, que estava a sua procura desde então, e a levou para casa de seus pais.

Como os irmãos de minha avó juraram morte a vô Raimundo, ele sumiu do povoado, na verdade soverteu no mundo. Ninguém sabe se vivo ou  morto.  Minha avó só tinha notícia das mortes que a ele eram atribuídas, essas notícias sempre chegavam. Como findou o velho Raimundo? Ainda moço ou velho?  Certamente carcomido pelo único sentimento que lhe ofertaram em abundância: o ódio. Quando penso em tudo isto, acho que meu pai se superou em todos os sentidos, foi melhor, muito melhor pai que o velho Raimundo, gosto de chamá-lo de velho, porque desejo que ele tenha vivido bastante, e que seja a prova viva de que a dor, o racismo, o preconceito, a intolerância e o ódio podem produzir em larga escala, a nível continental.

No final o pavê de limão ficou mais doce do que nunca.

Publicado por arlete mendes

escrevinhadeira, educadora, mãe de meninos e meninas, amante da música, da literatura, da vida!

8 comentários em “Fome de pai

  1. Essa ausência do pai muitas vezes deságua num mar de carências que, por sua vez, é preenchido por uma dependência à qq manifestação de autoridade política dominante. Gosto muito de uma revelação do Lévi-Strauss nas Estruturas Elementares do Parentesco: o ser primitivo não conhecia que era seu pai, pois havia uma promiscuidade nas relações sexuais e como sabemos hj uma criança humana leva nove meses pra ser gerada. É por isso q a palavra mãe surge muitíssimo antes q a pai. Que se fodam os pais! Quem me gera, dá vida e amamenta é a mãe. Kkkkkkkkkkkkk. Alias a função da autoridade paterna, no extremo, só serve pra repressão. E aqui, na pátria amada, temos q conviver com o paternalismo atávico q nos presenteia historicamente com figuras funestas como o Pai dos Pobres. Abaixo o mundo patriarcal com fronteiras. Minha pátria é o universo! Viva Pachamama!

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    1. Clayton, suas reflexões são sempre provocadoras. De fato não queremos o pai do patriarcado, o pai da opressão, queremos renascer. Reinventar-se.. Nessa busca vislumbrar uma existência que não seja uma chaga aberta… Gratidão,sua leitura me instiga!!!!

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  2. Difícil compreender o abismo que se criam entre pais e filhos, entre casais. Penso que deve ser muito sofrimento reprimido.
    Como a história original, a contação também finda, num susto! Cadê eles?

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  3. Tema que revela tantas chagas abertas, tanta invisibilidade. Vi tantos homens sertanejos em teu texto, tanto dos nossos movidos a ódio, a “valentia”. Que surjam novos pais, possíveis, inimagináveis.

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  4. Seu texto nos traz u m a questão muito séria e cuja discussão é cada vez mais necessária. É impressionante como a paternidade presente ou ausente causa dores que ecoam por toda a vida para muitos e atravessa gerações.

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  5. E haja entendimento para que não nos enchamos, nós também deste ódio de onde brotamos. E haja saber fabricar amor no peito para entender as histórias de nossos homens, meninos induzidos ao ódio o tempo todo. Que saibamos sempre argumentar e viver a desconstruir as montanhas de negligência e mal trato a que nos relegaram, não passaremos adiante. Daremos ao mundo pais sempre melhorados, feito sua avó fez, nossas mães fazem, e nós faremos!

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