Vó era analfabeta

Ana Karina Manson –

Dias desses aqui em casa cismaram de querer fazer pão.

Já quase imediatamente vai alguém buscar na “internet” uma receita e mais outra e mais outra.

Logo um lembrou-se do livrinho de receita que a mãe tinha. Com todo capricho, só faltava desenhar os bolos e tortas. As páginas até amareladas pelo tempo.

Eu indo mais longe, lembrei da vó e de suas tantas receitas que encantavam a família toda e os netos, principalmente. Era o melhor pão de que já se ouvira falar com aquela margarina derretendo logo que tirava do forno. Sem falar no encanto de ver a bolinha subindo no copo d’água, que anunciava a hora de levar ao forno. Era mágica, que a infância tentava desvendar.

E vó fazia nhoque, macarrão, polenta, pastéis, rosquinhas de pinga e muitas, muitas, muitas outras receitas que não caberiam mesmo num caderninho. Não precisava: vó tinha tudo na cabeça. E nem poderia anotar no caderninho: vó não sabia escrever.

No máximo fazia seu nome e com letra tremida; o mesmo traço que desenhava flores. Vó desenhava flores e seu nome. No papel desenhava flores, no jardim cultivava as mais lindas rosas vermelhas aos cachos já vistas.

Vó era analfabeta.

Era sim, digo e repito e não é para diminuir o seu conhecimento. Quisera eu saber o tanto que vó sabia.

Quando eu digo que vó era analfabeta vem junto meu grito indignado pelo direito negado a ela por ser mulher, por ser pobre.

Não saber escrever palavras não fez de suas palavras menos importantes, mas fez da sociedade menos justa e mais desigual.

Não é coincidência que minhas duas avós não sabiam escrever e meus dois avôs sabiam; sabiam pouco, é verdade, pois a pobreza não lhes permitiu estudar muito, mas como homens tiveram o direito de registrar no papel o básico que carecesse.

Vó registrou em nossas memórias, em nossos corações, em nossa educação, em nossa história, em nossa alma. Vó é maior que qualquer livro escrito.

Hoje quando vejo uma senhorinha tentando aprender a escrever sua história e contando que não aprendera na infância porque o pai não deixara (—Ah, se aprender haverá de escrever para namorado!) ou porque já trabalhava desde pequenina e nunca parou, vejo que colocar no papel o que viveu não muda sua vivência, não muda sua tão valiosa experiência, mas lhe dá o direito de registrá-la para si, para os outros, para ninguém. Afinal, é um direito seu a escrita para fazer o que quiser com ela.

Para desenhar, cultivar e escrever flores.

Ouça nossa voz: Vó era analfabeta.

13 comentários em “Vó era analfabeta

  1. Ana, quanta delicadeza pra falar de assuntos tão críticos e por tantas vezes apagados de nossa história. Nossas ancestrais privadas de tanto e nossa dívida eterna de não calar pelo sacrifício que fizeram e por todo amor que mesmo assim foram capazes de emanar apesar das adversidades… As cores das tuas memórias pintam as mesmas cenas de minha nostálgica infância como se houvesse uma misteriosa ligação entre elas…

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  2. Acredito que estão mesmo interligadas, todas elas, todas nós e as que ainda virão. Nesses dias de isolamento sinto ainda mais forte a presença delas, a sabedoria que tiveram para enfrentar e sobreviver a tantos nãos e ainda mais a minha voz ecoando a delas. A nossa voz amiga.

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  3. Minhas avós tb eram de uma sabedoria iletrada. Eram duas Marias. A Maria paterna morreu quando eu tinha um aninho. Viveu parindo e criando os vinte e três filhos. A Maria materna cheguei a ajudar juntar umas letras. Eram astutas, argutas e resistentes aos infortúnios. Mantiveram uma certa alegria de viver. Uma pelo q disseram. Outra pelo q vi e vivi. Depois q a Maria materna morreu nunca mais comi um bolinho de polvilho tão gostoso! Salivo até hj! Kkkkkkkkkkkkk.
    Estou com vc Ana Karina! Pelo direito das mulheres fazerem o q elas quiserem com suas escritas!

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  4. Essa mulheres são seres colossais, mudando o curso dos rios, dos planetas, das galáxias…
    Em sua extrema simplicidade guardam complexos segredos, que hoje teimamos em desvendar.
    Gratidão. Ana.
    Abraços
    Arlete ♥️♥️♥️

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  5. Consegui ver com nitidez a bolinha subir no copo de agua , mas tal receita nunca foi feita pra mim, por minhas avos.
    pois a vida colocou pontos finais nas historias delas, antes que a gente pudesse tecem as nossas historias.

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  6. Consegui visualizar a bolinha no copo, porem tais receitas nao foram feitas pelas minhas avos.
    A vida colocou ponto final em suas historias, antes mesmo que a gente pudesse tecer as nossas.

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