Escrevessência

Foto: Celane Tomaz

Celane Tomaz –

Escrever é dar movimento à dança-canto que meu corpo não executa. A poesia é a senha que invento para poder acessar o mundo.”

Conceição Evaristo, em Cadernos Negros 25

Apesar de estáticas e imutáveis as palavras desse texto, nele ecoa a minha voz sem tempo. A minha voz, única e por vezes indecifrável, pede permissão para que adentre ao teu universo outro – tão único e tão plural – ilimitado e sensível ao toque dessas linhas que escrevo.

Quem será capaz de ler com a mesma dor e o mesmo amor com que escrevo? De fato, ninguém. Decerto que com outra dor e com outro amor, e ainda assim tecemos a infindável linha de nossos tempos. Cortamos os brutais silêncios  pelo outro poder da palavra, distante das injustiças e das desgraças que detêm os escritos do mundo.

Das memórias de marcantes e remotos passados, materializar a ousadia da expressão pela palavra é o/um presente nos dado. É preciso resistir, mesmo que por um fio, pelo rascunho potente ensaiado pela ponta da caneta. Indispensável é fazer dos nossos fios, a teia que nos cerca e nos mantêm na liberdade do alcance mútuo.

A minha presença e a tua, leitor, estão vivas e latejantes no compreendido silêncio das entrelinhas.

São tantas as histórias revisitadas e reinventadas ao toque dos meus e dos teus lábios, discorrendo e sendo (re)escritas por tantos dedos, e tantos olhos, encontrados e atentos, que (re)vivem suas verdades na brevidade desse momento – enquanto nos lemos.

Faço-me leitora das minhas entranhas e imprimo no papel a minha marca. Escrevemos e lemos com o eco de outras vozes, e com a existência rabiscada na carne, por vezes dilacerada e sangrando, por outras suturada e pulsando a permanência de vida, resistindo a morte das vozes das nossas memórias, dos nossos ancestrais, negando a condenação da morte do que somos.

Versa-se as linhas das cicatrizes ilegíveis. A cada leitura, a releitura e os tantos sentidos com que lemos – o encontro da cura.

E nos tempos rascunhados, em que as marcas são de descaso que se arrastam nos muros e no asfalto, e indiferença às narrativas de periféricos caminhos, fazemos amor pela palavra.

Pela escrita, tornamos possível outra vida, dentro da que em vida morremos. Pelo verbo encurtamos as distâncias. Traçamos outros começos, pois no íntimo-princípio sempre se nasce, sempre resta – o verbo. Escrevemos outra história.

Aqui, onde a palavra é escancarada, o verbo escrito é o grito que nos inquieta, encoraja e dilata a tábua do peito – e nele, se reescreva! Ouça o eco que reverbera na face, nos significados, nas construções que tu, leitor, faz dentro de si mesmo.

Dedico-lhe a chama eterna das palavras. Que queime, que arda e que consuma! Que exale o cheiro dessa escrevessência entre os teus dedos. E que pouse em ti o corpo dessa pássara chamada ‘palavra’. Capaz de carregar a nossa própria história e o mundo no seu voo de asa.

Viva o canto, de todo canto, o grito, a musa-palavra que nos movimenta. Viva o nosso escudo de resistência, a nossa fonte inesgotável, que nos embriaga de existir. Viva à nossa escrevessência.

Ouça nossa voz: Escrevessência

16 comentários em “Escrevessência

  1. Coisa Linda esse texto! Parabéns! Realmente não podemos deixar esse gigante adormecido dentro de nós, que são as “Palavras” e o ato de escrever!!

    Beijos no coração 😍😍

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    1. #VivaNossaEscrevessência👏🏼🤩!…. Parabéns amiga!… Parabéns pelo dom de saber expressar seus sentimentos e sua essência em palavras!… Belíssimo texto! Não podemos deixar que a riqueza da leitura e da escrita se dissolvam com o tempo!… É realmente enriquecedor! Nos torna empoderados! 🤩👏🏼

      Curtido por 1 pessoa

  2. Que sensibilidade! Refleti sobre o difícil exercício de me colocar no lugar do outro de modo intenso e verdadeiro!
    Parabéns Celane, que riqueza de detalhes!!!!

    Curtido por 1 pessoa

  3. Lindo texto. Consigo me permitir estar no lugar do escritor. Cada imagem, descrição poética do ato de escrever me inundando como ondas, novas, velhas, constantes, mutáveis vivências. Cada nova imagem arrematando a anterior num crescente que não se finda, que adoravelmente não se efetua. A escrita perdura, perdura, se estende.
    Obrigado.

    Curtido por 1 pessoa

  4. “Viva o canto, de todo canto, o grito, a musa-palavra que nos movimenta. Viva o nosso escudo de resistência, a nossa fonte inesgotável, que nos embriaga de existir. Viva à nossa escrevessência.” Isso claramente é o refrão de um música. Bora fazer juntas?

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