A esfinge e o colibri

Richard Spencer: Rainbow ballet

Arlete Mendes –

Tenho o hábito de tentar entender meus sonhos, ainda que muitos deles sejam esfinges devoradoras. Tenho sido despedaçada ao longo dos anos pela falta de compreensão dessas imagens. Talvez não somente pelos sonhos, mas pela própria vida. Olho para as mãos, há muitas cicatrizes, mas a maior delas é aquela que meus sonhos tentam ressignificar e eu não tenho alcançado o tempo de entendimento.

Penso, vez ou outra, que não conseguirei compreensão nenhuma. Inventaram uma fábula que insistimos em contar repetidamente para ver se acreditamos, mas sabemos, lá no fundo, que se trata apenas de uma doce mentira que escolhemos papaguear.

O símbolo, o tempo, o ser são inatingíveis. A esfinge é uma musa impassível.

Quantos sonhos desconexos, narrativas incompletas, interrompidas de modo abrupto, o choro, o prazer, o gozo, o horror, ondas gigantescas que arrastam tudo…

Ultimamente tenho sonhado com idas a supermercados em que me perco entre corredores, carrinhos e prateleiras. Mas meu sonho predileto é quando assumo o corpo flutuante de uma guerreira. Lanço flechas mortais, sou icamiaba, Ci, mãe da mata. Com um único golpe parto ao meio meu inimigo. Há muitos inimigos, mas a aniquilação é o destino de quem ousa atentar contra a vida do meu povo. O vermelho me banha, a cada golpe contra mim desferido brota no chão um filho meu, sobrevoo mata para que todos eles renasçam.

No dia seguinte acordo cansada da luta onírica.

Normalmente esqueço-me dos sonhos não sangrentos, mas ao longo do dia acontece uma desordem no fluxo da rotina. Um copo que quebra, a filha que cai, um ente que parte e eu me lembro do sonho. Como se as sensações insólitas provocadas pelas imagens indecifráveis fossem uma preparação para estranheza sentida naquele instante. O espanto não é pela intercorrência, mas por eu saber de alguma forma que sentiria exatamente aquilo.

Voltando do trabalho. Presa no trânsito… O que Marcel Proust teria escrito se estivesse preso nessa realidade caótica que chamam de contemporaneidade? Estaria em eterna busca do seu tempo perdido?

Ocorreu-me a genial ideia de ligar o rádio. O entrevistado, uma autoridade indígena, apresentava aos ouvintes a cosmogonia do povo Guarani. A narrativa beirava muitos de meus sonhos. Misto de aventura mitológica e poética, um mundo tão envolto em mistério que chegava ao nível do não pensar. Fiquei encantada com as imagens, tão sublimes narradas na voz daquele parente tão distante, por hora separado pelo tempo e espaço, ( parente é palavra em português que os indígenas utilizam ao reconhecerem um outro indígena),  que eu nunca saberia da existência se não fosse o trânsito e a maravilhosa atitude de parar de pensar nas madeleines de Proust e ligar o rádio.

Confesso que jamais conseguiria reconstruir de memória a mistura tão perfeita entre imagem e som do tupi, tamanho o êxtase diante daquela poética. O animal escolhido como a própria manifestação divina: O colibri. Um leve bater de asas deu origem a todo universo. Ah, quanta sabedoria na forma de ver o mundo. Justo agora que ensaiava uma escrita de poemas-pássaros. O que o sujeito mais quer senão o voo?

Sei voar tão bem como o deus-colibri. Ágil, leve-luz, bailo e levito em pleno ar. O sol só intensifica meu brilho, o temporal apenas me banha, tiram de mim as cores que reluzirão no arco-íris. E já não sou pássaro, nem chuva, nem cores, mas todos eles dentro de mim…

Acordei atrasada, novamente.

Publicado por arlete mendes

escrevinhadeira, educadora, mãe de meninos e meninas, amante da música, da literatura, da vida!

13 comentários em “A esfinge e o colibri

  1. Lutas em sonhos tombando com a realidade… “Sei voar tão bem como o Deus colibri” texto belíssimo guerreira. Parabéns Arlete você tem muito talento, inspiração, sensibilidade, sabedoria em contar histórias como nossos parentes indígenas em tempos de “queda do céu” …… Gratidão pelo presente. Bjs

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  2. As provas que o mundo é muito simples e que tudo está conectado vem em nossos sonhos. Lá é que vemos o mundo sem a lente da verdade, da consciência… essa que tantas vezes nos cega! O real é o sonho dos vates que cantam o mundo.

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  3. Que seus textos sejam céu para que todos possamos nos tornar Colibri.
    Como consegue enxergar os mistérios da vida num mundo tão bruto?
    Revela/enxerga/traduz com uma leveza, um mundo onírico que sem a literatura e a arte escorreria pelas nossas mãos como areia.
    “Você vai carregar água na peneira a vida toda”.
    Obrigado.

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