Domingo

Ana Karina Manson –

Há pessoas que precisam do sol para se sentirem vivas, outras do mar, outras da estrada. Eu preciso da casa dos meus pais. É lá que recarrego minhas energias; lá me conecto pelo olhar, pela voz, pelo abraço deles com algo que transcende minha existência.
Portanto, após um mês longe deles, devido ao distanciamento social que estamos fazendo (e faço questão disso para preservar a saúde deles, principalmente), resolvi pelo menos passar na rua e trocar esse olhar, ouvir essa voz de longe; essa voz que me traz energia e pulsa minha vida.
Assim, peguei minhas filhas, cuja felicidade foi imensurável quando disse que sairíamos e, de longe, mataríamos a saudade dos avós. A pequena até perguntou, entusiasmada:
— E posso colocar roupa de sair?
Foi gigante a felicidade quando eu lhe disse que sim.
Fomos e, também eu entusiasmada, entrei numa rua errada, o que é tão estranho para mim, pois faço tal caminho há pelo menos vinte anos.
Sei que ao final dessa rua, na qual continuei por imaginar que poderia pegar algum atalho, deparei-me com uma interdição feita por jovens com motos ou mesmo caminhando, conversando, buscando alguma diversão que acessam aos domingos na periferia de São Paulo.
Tratava-se de uma exibição de motoqueiros, muitíssimos motoqueiros e outro tanto de igual tamanho de jovens assistindo à exibição. Era a diversão do domingo.
Certamente o atalho não aconteceu e tive que voltar e retornar ao caminho correto desses vinte anos.
Mas voltei pensativa, entristeci preocupada com aqueles, talvez, desconhecidos. Continuei meu caminho, pensando como podiam se arriscar em tempos que todos deviam ficar em suas casas, por mais difícil que seja; todos deveriam proteger suas vidas. Pensei desesperada.
Neste momento rememorei as tantas conversas que já tive sobre os riscos a quais os jovens se colocam cotidianamente e que, se em alguns instantes parece aventura, em outros é um descuidar-se.
Percebi que, na verdade, em algum momento da vida aprendemos a nos cuidar e se nos cuidamos é por que nos sentimos importantes. Nas minhas reflexões fiquei pensando se estes jovens não tinham passado por este aprendizado e, na sequência, a minha pergunta foi ‘quando eu passei por este aprendizado?’.
Logo minha memória me respondeu e visitei minha infância. Lembrei com saudade, carinho e gratidão da vó Joana que descascava laranjas para os netos rodeados em volta dela, carregando as frutas em seu avental. E me oferecia a “tampinha da laranja”. Como me sentia especial, importante e cuidada ao receber este mimo. Meus olhos enchem agora e chego a sentir o cheiro das laranjas. Também recordei de quando a vó guardava o fígado do frango frito para mim, pedaço tão disputado na família!
Também a vó Zefa me cuidava, podia ser brava como fosse, sua doçura que me oferecia nas bolachas especiais que guardava no pote, faziam me sentir amada, cuidada e importante.
Voltei aos meus dias e pensei se esses jovens que arriscavam suas vidas, não simplesmente na aventura da moto, mas no risco de adoecerem por um vírus maldito, não teriam vivido esses cuidados ou se viveram o que os fez que se sentissem descartáveis? E que provavelmente nem percebem que se sintam assim?
Queria gritar tão alto “VOCÊS SÃO IMPORTANTES, SUAS VIDAS SÃO IMPORTANTES! CUIDEM-SE, PROTEJAM-SE!” de modo que fosse impossível não acreditarem em mim.
Calei o grito e um pedaço de mim adoeceu por não ter tampinhas de laranjas para cada um deles.

Ouça nossa voz: Domingo

14 comentários em “Domingo

  1. Oi Ana, tudo bem?
    Compartilho desse.mesmo sentimento, aqui onde moro também…”vidas importam”, o sistema faz com que pensem assim, descartáveis com um discurso de um presidente genocida..
    Amei a maneira como escreve…a riqueza se detalhes me fez viajar para a sua infância…um beijo…se cuida!

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  2. Ana Karina ! Uma reflexão que também tenho nesses últimos dias.
    Parabéns por expressar sentimentos que temos nestes dias que estão cada vez mais prolongados .

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  3. Minha infância foi marcada por pessoas que tinham a necessidade de me tirar algo central do seu texto, auto estima.
    Lindo o seu texto e parabéns pelo dom da escrita.

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  4. Querida, sempre nos fazendo pensar em como foi bom viver e crescer na época em que acabamos vivendo, Penso que devemos cuidar melhor de nós, de todos nós. num abraço que envolva o mundo!

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  5. Lembrei da vó Maria e da Vó Olinda.
    Uma nos benzia toda vez que a visitávamos. Pegava a faca fria, nos deitava na cama e fazia a “benzedura”. Testa, queixo, peito e barriga. Murmurando não sei o que e sei exatamente o que.
    A outra fazia questão de todo almoço de família fazer a roda de oração. Fazia todo mundo levantar, fazíamos a roda e até mesmo os netos materialistas históricos se viam ali, compartilhando. Abraçados não sei pelo que e sei exatamente pelo que. Tinha ainda o pão, a farinha de rosca moída no moedor preso numa mesa improvisada na oficina improvisada do tio.
    Estranho. Essa sensação do imaterial, do invisível. Do cuidado. Divisor de águas realmente.

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  6. “Tampinha de laranja com sal” rs!

    Poxa eu penso nesse risco e tambem no risco de jovens pretos, serem mortos dentro de casa, como acontecera com Joao Pedro e dezenas mais…
    Ali o risco era de expor-se a rua
    Aqui os risco é de nascer com a cor da pele que nascera…

    E as vezes nem tendo o bagaço da laranja pra chupar.

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    1. Tem toda razão Thata. É uma luta fora de casa e também dentro, em todos os espaços. Tenho toda certeza de que para jovens pretos viver é difícil, viver já é resistir. Dói pensar há quanto tempo é assim e mais ainda quando vemos hoje uma sociedade que em grande parte está disposta a manter esse racismo. Dói em mim e sei que dói muito mais em quem sofre na pele esse racismo, esse crime.

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  7. Neste texto o narrador nos revela um profundo desejo de que o outro também seja acolhido, seja amado, seja valorizado, assim como ele próprio foi.
    Mas as abismos de valores, de orientações, de cuidado não são os mesmos para o vizinho de porta, viver neste meio agreste é sempre andar no fio da navalha, um deslize e tudo pode ruir, a diferença está entre quem tem sempre uma mão estendida e aqueles que quando caem só encontram a navalha…Infelizmente cada dia é mais navalha, menos tampinha de laranja.
    João Pedro, presente!

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