Poção

Evelyn de Morgan: Poção do amor

Elisa Dias –

Em uma garrafa de vidro, produzi um vinho, uma receita e a junção de tudo que sinto.

Alimentei-te, nos últimos anos, dos meus doces instintos, bebi sozinha o veneno produzido no meu íntimo, eram gotas dos teus respingos. Adicionei um a um dos meus vícios, mau presságio, sangue tinto, agouro, olho gordo de vizinho, maldição ancestral, malária e uma pitada de coentro.

Notas dissonantes, três acordes de tritongo, seguidos de palavras tiradas de um dicionário, do qual você jamais seria capaz de compreender, praga do Egito, fome, miséria, castigo de Deus, pecado, gozo reprimido, libido perdido, adicionei licor barato, veneno de rato, mau olhado, arruda, espada de São Jorge, guiné e erva daninha.

Tristeza? Isso eu adicionei de monte, solidão disritmia cardíaca, falência do pulmão, ataque de pânico,  fracasso, catarata seguida de cegueira, adicionei dias eternamente escuros, juras, conjuras invocação, mentira, traição, carcaça retirada de um despacho na encruzilhada, oferenda de Exu, sangue de galinha, carrapicho, picão, barbatimão, velho barreiro, sangue de cordeiro, sujeira retirada das raspas do chão, fraudes em contas bancárias, restos de aborto, água de esgoto, falência múltipla dos órgãos, perda de memória, perda de paladar, loucura, esquizofrenia, insônia eterna, o medo de uma criança perdida no escuro no meio do mato,  gritos e lágrimas sufocadas.

 Por fim adicionei as últimas cinco gotas do meu sangue, tive constância e deixei aquela lambança curar, apodrecer, fermentar, assim tinha posto na garrafa de vidro a minha alma.

Servi-te-a numa taça, assisti com frieza cada gole que descia pela sua glote, o degustar do vosso veneno.  Num estrebucho caiu no chão. Era tarde de mais! Não te estenderia a mão nem se implorasse pelo meu perdão, não tinha antídoto para aquela Poção!

 Eu te fabriquei por tanto tempo o néctar suave da vida, o amor, afago, afeto, carinho, orações, proteção,  mel, azeite de oliva, nome no altar e nos pés de Maria,  novena pra Nossa Senhora Desatadora dos Nós, oração de São Bento, alegria, lágrimas de virgem,  gotas de orvalho que eu colhi das folhas uma a uma, pôr do sol , comida fresca ao meio dia, sonho de infância, beijos de amor, primeira vez, primeira transa, banho de rosas branca, manjericão e alecrim, cantiga de ninar, vela branca,  vestido florido, horas a fio contanto  cada um dos teus cílios, dedicação integral, te entreguei minha juventude, as chaves que acessavam a minha lama! Você bebeu a água da fonte produzida pelos anjos,  a fonte secou,  bebe agora esse licor  maldito! Não tem volta, nem fabriquei o antídoto.  Enquanto você estiver desgranhento no chão, eu brindo, morro porque beberei desse veneno contigo.

 Não me restou nada, nem de feio, nem bonito, traçamos uma guerra invisível e mais uma vez,  eu morro contigo!

Ouça nossa voz: Poção

6 comentários em “Poção

  1. Se produzisse em grande escala essa poção ficaria rica!!!! Quem nunca desejou entregá-lo? O realmente difícil é a coragem de não produzir o antídoto. Coragem. Texto muito envolvente!

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  2. Adoro esse teu estilo enumerador de imagens, evocando memórias de cheiros cores e sabores… com ele consegue construir uma descrição quase cinematográfica da cena. Isso traz muita sutileza em ações e situações muitos intensas e aterradoras, por que não dizer. Lindo!

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