Nego Dito

Seydou Keïta, fotógrafo. Bamako, Mali 1996.

“Meu nome é/Benedito João dos Santos Silva Beleléu /Vulgo Nego Dito, Nego Dito/

Se chamo a polícia eu viro uma onça eu quero matar, a boca espuma de ódio/

a boca espuma de ódio”.

Thata Alves –

Toda vez que meu pai se referia ao meu avô materno, ele dizia assim:

– Vocês vão lá na casa do nego dito?

Era o sogro de meu pai, a gente adorava ir pra lá, pois tinha um campo de terra.

Bem em frente ao castelo de meu avô. O meu avô era isso que os arquitetos dizem que são. E fez tijolo por tijolo o nosso castelo, tinha até uma torre e tudo.

E ver os jogos de várzea da torre era o mesmo que ter comprado cadeiras cativas.

Eu já até me arrisquei no futebol, mas eu gostava mesmo era de ir ao campo.

Pois, minha prima Dani, tinha uma bicicleta e sempre tentava me ensinar.

Eu ia porque, caso eu caísse, o campo era todo feito de terra, ia doer menos e cair para a poeira subir é quase que triunfal.

Era muito legal passar as férias no Jardim Irene, jardim nunca tinha, tinha terra como no campo, mas Irene existia.  Irene é minha tia, a mais alta delas!

Todas as irmãs de minha mãe começam seus nomes com a letra I, Ivania, Irene, Ivonete, Inalva, Ione (que é a minha mãe).

A não ser Lucineide e Aline. Essas se deram bem, pois eram as raspas do tacho e se livraram de terem nomes com a letra I.

Também, quais nomes teriam?

Toda vez que nós íamos lá, era quando eu tinha acesso a todas elas, ou quase todas. As primas. Que a gente sempre tinha dificuldade de lembrar o nome de todas, pois eram muitas.

A nossa família é matriarcal.

Minha mãe não tem irmãos.

Na casa da tia Irene era muito legal, pois os meus primos eram bem altos como minha tia, então eles sempre pegavam as frutas no pé pra mim. Principalmente limão, era um limão rosa que eu amava chupar, com sal! Hummmm. Até saliva os beiços de lembrar…

Uma vez, o tio Dela foi tirar as folhas secas do limoeiro, e, ao puxar, um morcego saiu batendo as asas, não era folha seca, e todos nós rimos da cara dele. Ele brincava de ser mal, sempre ouvindo 509-E e os Racionais Mc’s.

E vê-lo se assustar ali foi uma alegria compartilhada.

O limoeiro também era paisagem de diversão, nele ficava um balanço, que o tio Dela também fizera.

Com o passar dos anos, as plantas foram secando, naquele nosso pequeno jardim.

A casa da tia Irene era a única com jardim, que era mini, pensando hoje. Mas, naquele tempo, era todo o Ibirapuera, ao meu ver.

Minha tia uma vez disse que a minha avó Eunice, que eu não conheci, gostava de plantas como eu. Ela cultivava rosa de todas as cores, pretas, lilases, roxas, roxo é diferente de lilás, verde florescente, azul, anil. O canteiro de minha avó tinha essas cores todas, e eu num conheço, mas consigo ver.

Com os anos as flores começaram a secar e foi resistindo apenas o pé de limão rosa. Eu fazia questão de pegar os limões e chupar. Eu ia lá, na casa da tia, pegava aquela faca, que era uma faca de serrinha, com o cabo azul marinho, que estava derretido numa parte por encostar-se à grade da boca do fogão. Mas, era minha faquinha preferida, pois ela era rápida e atendia logo o meu desejo de devorar aquele limão.

Tia Irene, também contou que o vô Benedito, era atrevido e aventureiro e, sem avisar, subia no muro e ficava lá chupando os limões, com uma perna dobrada, e a outra no muro, a balançar, chupando a fruta cítrica.

Assim ele sempre fazia, mas a tia Irene avisava:

– Pai! Desce daí, o senhor já não tem idade, não é mais um menino não!!!

Nego dito, não dava nem ouvidos, e eu tenho a certeza que ela cantava mais ou menos assim:

– “Eu invoco eu brigo eu faço e aconteço, eu faço eu aconteço, eu boto pra correr!”

Tudo isso com a mesma calma de quem está lá, em cima do muro, com a perna balançando.

O meu avô, dizia que eu era a neta mais bonita, e chamava a minha mãe de Bada Branca, eu fui a vários dicionários tentar traduzir, e não achei o significado. Também perguntei às minhas tias e elas não sabiam responder então, esse é um apelido da minha mãe que eu não sei traduzir.

As idas lá eram bem raras, mas sempre muito marcantes. A ponto de trazer essa nitidez até os dias de hoje. Nítido também foi quando soube do falecimento do meu avô, um sentimento estranho… Eu estava viajando e não pude ir à passagem dele. Minhas tias todas foram, mas a tia Neidinha era meio brigada com meu avô. E eu não sei como ela se sentiu com a noticia, também não soube se ela foi vê-lo pela última vez.

Eu, da praia, tentava pedir que a tia Irene fizesse umas escadinhas com meus primos, que também eram altos, para alcançar o céu e pedir pra ele descer, tal qual ela pedia pra ele descer do muro.

Mas eu herdo também do meu avô a teimosia, lá ficou.

Perguntei a tia Irene como tinha sido e ela não tinha muitas palavras, mas disse que o pé de limão secou no 7º dia da morte do Vovô.

Só aí que eu senti que a história azedou.

Ouça nossa voz: Nego Dito.

8 comentários em “Nego Dito

  1. O texto nos faz vivenciar os sabores desse tempo passado que ainda enche a boca. Não tem como não me identificar no pegar o limão do pé e na teimosia do vô. Gratidão pela narrativa que me levou para o pé de limão de trás da casa da vó e me fez salivar. Sabor e saudade.

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    1. Thata, viajei aqui com as referências ao futebol de várzea, Jardim Irene, única casa com jardim, temosia. Tenho muitas memórias envolvendo esses elementos. Passear por esse texto é um encontro necessário. Memória é resistência. Nego Dito vive em nós agora!

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  2. Nossa, que emocionante… também fui envida a outro tempo de cercas de chuchu, abacateiro no quintal… cheiros de ervas e cores mil… muita herança matriarcal… orgulho por compartilharmos dessas raízes ancestrais.

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