mater

Carolina Tomoi –

Eu mesma sempre fui contra esse negócio de tudo dar presentes: “É tudo comércio!”, “Esses capitalistas não perdoam as crianças, as mães, os pais, agora é dia dos avós. Que absurdo tentar vender perfume no dia das mulheres, dia 8 de março é dia de luta! Não me venham com parabéns!”

E apesar de tanto ralhar, há quase duas décadas, meu duro coração racional começara a amolecer.

Primeiro a gente aprende a ser filha, que é bem diferente de ser filho. Ao menos era muito na época que eu cresci, tanto que meu maior desejo era mesmo ter nascido menino. Porque meu irmão nunca precisou fechar as pernas pra assistir televisão e nem aprender fazer faxina com esmero pra poder depois fazer na casa dele.

Mais ou menos por aí, você também aprende a ser neta, sobrinha, estudante boazinha com letra bonita de menina… ajudando, limpando, cuidando, amando (mesmo que às vezes no coração bata forte outros sentimentos de liberdade), respeitando e aceitando, quer dizer: obedecendo!

Mas há dezessete anos, essa fortaleza de revolta transformou-se em duas bicas que insistem em transbordar a cada mês de maio. Ela nasceu e me pariu também. Pariu uma mãe, uma nova filha, uma neta mais grata, uma sobrinha mais atenciosa, uma aluna mais atenta e uma professora mais humana e compreensiva.

Mesmo sabendo de todas as teorias de marketing e publicidade por trás dessas campanhas de dia das mães, minhas barragens teimam em transbordar, por mais manutenções que eu faça, construindo barreiras mais e mais altas. Como pode um coração amolecido superar os comandos de um cérebro detentor de argumentos tão bem fundamentados?

Coisas sem explicação, coisas do coração, coisas de mãe…

Descobrir que não há autoridade que autorize o amor, descobrir que sempre há tempo para mais, descobrir que todo tempo nunca é demais, descobrir que amor é ilimitado e compreender todo amor recebido, posicionar as mãos em prece, não para pedir mas só pra agradecer essa água nos olhos e à pessoa que há dezessete anos mudou sua vida e te mostrou quem são os que realmente importam nos caminhos que transformam os pequenos fios de água em mar.

Dedico a três mulheres especiais na minha vida: minha pequena-grande mestre, Elis Ayumi que completa, em maio, 17 anos me mostrando e ensinando a ser mamãe e uma pessoa melhor. Minha Mãe, Célia Maria, que me trouxe até aqui, me ensinou e ensina tanto com apenas sua presença. Minha Sogra, D. Nina, que descansa agora de uma vida de luta e alegria, por ter me dado uma família inteira, a qual amo incondicionalmente.

Ouça nossa voz: mater

12 comentários em “mater

  1. Nossa! Tão intenso como o amor de mãe. É realmente um crime usar amor tão sem igual para o comércio!!!! Aliás, acho que tem sido estratégia dos maus usar os mais intensos sentimentos alheios (amor, fé, sendo de justiça, etc) e deturpa-los.
    Seus texto transborda esse sentimento transformador que nasce com o filho parido e só cresce, aperfeiçoando quem somos e nosso olhar para o mundo. Parabéns pelos seus também 17 anos!!! Obrigada por ser uma mulher transformadora em minha vida também!

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      1. “Descobrir que não há autoridade que autorize o amor”, seu texto transbordou sensibilidade, toca nessa nossa constituição de se tornar mãe. Parabéns para a Elis, sua talentosa mãe e para a mãe do Robinho, vcs formam um coletivo cheio de vida e luz. Grande texto rememorei minha experiência e militância… Bjsss

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    1. Que texto envolvente, real, duro e doce. Que me fez viajar de volta a minha meninice e confusa adolescência até o dia que me tornei mãe. Parece sonho e poesia, mas é só o significado mais importante de uma vida. Amei!

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  2. Eu as vezes lamento as datas tambem.
    Mas quando os ibejinhos vem com , um desenho feito pra mim, de mim com o cabelo ocupando quase a folha toda do A4
    Cai por baixo minha resistencia a data rs

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  3. Pura sensibilidade e verdade. Emociona e enche o peito de recordações minhas de mãe, filha, mulher. Gratidão Carol por compartilhar suas palavras sentimentos e pensamentos.

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  4. Lembrei-me de um dia das mães que debatíamos o que presentear. Para quem recém acessa o mundo do consumo, presentear nessas datas é sinal de mérito e muito orgulho, podíamos, enfim, dar a ela algo que ela queria e não podia comprar. Eu queria um passeio, porque ela nunca saia de casa, minha irmã queria dar um jogo de panelas de inox da Tramontina, recém novidade no mercado. Fui voto vencido, compramos o jogo de panelas parcelado, alegria dela não tinha igual. Só depois de ser ter minha casa é que entendi a importância de objetos práticos na cozinha, amo minha máquina de lavar como um ente querido, e, pasmem, as panelas delas continuam impecáveis, mesmo depois de 25 anos de uso!
    Só compreendemos a magnitude e a singeleza desses seres, quando maternamos!
    Pensar o quanto dela existe em mim…e vejo muito dela em minhas meninas…a genética de gênio é forte!
    Daí quando te li entendi o motivo de todos terem medo de ti e ao mesmo tempo te amarem tanto, herdou a braveza da Célia e a doçura da Elis…rs…
    Amo vcs!

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  5. Parabéns minha cunhada, amiga e irmã que sempre nos leva para um caminho de reflexão de coragem para lutar!! Esse texto faz a gente reviver cada momento de nossa vida o amor incondicional de ser mãe e filha. Amei a dedicatória !!!!!

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  6. Cheguei aqui, pronta para ler você, ou a parte (inteira) que te cabe nessa maternagem e me pego revirada do avesso como filha, sobrinha, neta, irmã, amiga e tantas mulheres que habitam minha não tão doce existência! Você me levou para esse lugar do laço, do vínculo pelo amor/desamor, necessário! Lindo texto de tramas e feituras humanas!

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