Meta fora!

Remédio Varos- Lady Godiva

Arlete Mendes –

O cachorro persegue o próprio rabo. Brincadeira ou descoberta? Não aceita sua condição canina? O rabo é inimigo ou  amigo?

A mariposa fixa-se sob a lâmpada fria. Desejo incontrolável? Sabe da morte ao amanhecer? Quer seu amor incandescente? Sente?

Cá estou, o cão e a mariposa são minhas metáforas. Queria abolir as metáforas. Elas me arrastam para um fingir entender aquilo que nunca compreenderei.

Metáforas são prisões. Prisões que acalantam nosso parvo existir sobre o mundo.

Tudo que eu mais anseio é a realidade. A realidade daquele que não sabe se terá a próxima refeição. A realidade de quem escapa de treze tiros a queima roupa. A realidade de quem morre todos os dias e ao som do despertador se levanta. Quero que essa vívida realidade me toque, me alcance e me devore até o último átomo, até que nada me reste.

Caro amigo, ainda assim, o que fazer quando meu filho é uma metáfora.  Meus cabelos são uma metáfora? O lixo que entreguei agora ao caminhão é uma metáfora?

Não sabendo o mundo, me entrego à via fácil das metáforas. Ela é uma cortesã. Eu pago.

A linguagem em seu eixo paradigmático. Enigmático!

Pobre dos linguistas que tentam capturá-la… Selvática!

Sei que sentiste a falta das metáforas. Vale lembrá-lo que no jogo entre leitor e autor ela é mero peão no xadrez. Cheque mate, que me mata, porque não digo e digo, porque aceno e não grito.

Metáfora é meu diabo engarrafado.

Por vezes a ponho de castigo, de cabeça para baixo. Cramunhão que dorme comigo.

Não quero metáforas, quero olhar fixamente em teus olhos, sem piscar, e neste átimo quero que você me entenda por inteira! Num único trago te entorpecer com tudo que sei e não sei.

Ser tua dama a cavalgar nua, noite escura, rua fria, pelo pão e pelos pobres.

É noite, o cão não dorme e a mariposa…sabes bem que teimosia é sina!

Ouça nossa voz: Meta fora!

Publicado por arlete mendes

escrevinhadeira, educadora, mãe de meninos e meninas, amante da música, da literatura, da vida!

5 comentários em “Meta fora!

  1. Não sei se me doem as metáforas como boias salva vidas para sobrevivermos ou a certeza de que para alguns (ou muitos) tanto faz, se com metáforas ou não, custa entender a realidade. Simplesmente não querem entender e cruelmente fingem que ela não existe. Lembrei agora da moça dos 500 pares de sapato… Vou parar senão surge uma metáfora rs. Gratidão sempre pelos seus textos!!!

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  2. O jogo segue, todos se esfalfando para adiar o cheque mate. Peões na linha de frente, instintivamente, a cada amanhecer, partem para o primeiro ataque. Quantos sobreviverão antes do entardecer?
    O diabo já saiu da garrafa, agora espectador liberto espreita a peleja colado ao tabuleiro, ignora o sobrevoo das mariposas em suas rotas descontínuas à procura de uma lâmpada, como que a buscar o seu sentido nesse jogo desregrado e arrevesado.

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