Cabelinho de fogo

Foto de Thaís Eigenmann.

Ana Karina Manson –

— Estava falando com aqueles bichinhos que ficam no nosso quintal. Mas eu não estava conseguindo escutar…

Disse a menina e seu olhar completava a frase que a mãe pronunciou sorrindo:

— Eles falam muito baixinho, não é?

— Sim, são as formigas – respondeu também sorrindo a pequena de cinco anos.

Sorria porque a mãe compactuava com sua verdade inventada. Ela de fato conversava com as formigas e, quiçá, ouvisse seus sussurros.

A pequena tinha dessas: noutro dia repreendera a mãe por não ter dado bom dia às plantas. Ocasião em que exigira que a mãe batizasse o lírio da paz, que julgava a preferida da mamãe. A pequena sugerira Linda. E assim o lírio da paz recebera seu nome; tornara-se único!

— Bom dia Linda!

Volta e meia a mãe se pegava observando as delicadezas da filha. Até o pai era flagrado dedicando o olhar surpreso para a menina que agia como se já tivesse vivido até a velhice. Ela tinha certa sabedoria que se alcança com o tempo e o viver das coisas.

Certa vez, o avô adoeceu e a pequena, contava com três anos na época, passava o dia segurando a mão dele. Não brincava, nem via desenhos. Parecia querer segurar seu tesouro para que ninguém o levasse dela. E ela o segurou.

Talvez num cantinho desconhecido da memória a menina guardasse a despedida do bisavô.

Contava a mãe que certo dia pegou a pequena, ainda bebê e, como fazia todos os dias na mesma hora antes de partir para o trabalho, amamentou-a.

Era ação natural esse encontro mágico de mãe e filha que se dá na amamentação, no alimentar de si mesma ao que lhe é mais precioso; é troca que nunca ninguém é capaz de explicar.

Neste momento especial de toda manhã, algo que ora parecia simples brincadeira de um bebê tornou ainda mais mágico aquele instante.

O fato é que enquanto mamava, a bebê olhou para a janela e acenou com um gesto de tchau.

Mais tarde a mãe soube que naquele horário morria o Bisa, que dias atrás chamara pela última vez a bisnetinha de “cabelinho de fogo”.

Por vezes a mãe pensou se era coisa de sua imaginação ou só vontade de seu coração que seu tão querido avô e único bisavô da menina viesse se despedir, mas sabia com precisão o horário de todo dia. Se fosse coincidência, era linda e afagava o coração cheio de saudades e gratidão.

A mãe sabia desde que a tinha no ventre para o que viera a menina.

— Ela virá para ajudar, cuidar das pessoas – dissera certa vez um guru. Entre outras palavras que levou a mãe aos prantos de emoção pela pequena que ali era gerada.

E não é que a pequena cismou que será bombeira quando crescer!  Ao ser perguntada, sua resposta é:

— Porque quero ajudar os outros bombeiros.

No entanto, dias desses anunciou:

— Tenho uma dúvida: não sei se serei bombeira ou médica…

Todavia, mesmo que a dúvida a aflija, ela segue cuidando dos que a cercam com sua gigante sabedoria infantil. Dedica-se a cuidar das plantas, das flores, das formiguinhas, da mãe, do pai, da irmã, da vovó, do vovô e de tantos que chegam até ela e se encantam com sua delicadeza.

Ouça nossa voz: Cabelinho de fogo.

Ouça nossa voz: Cabelinho de fogo.

7 comentários em “Cabelinho de fogo

  1. Como disse a vc, Ana, acho que de alguma forma nós, os adultos, estamos em busca de retomar um laço com o mundo mito-poético que um dia se perdeu na lógica e na razão impostas. Nossos meninos e meninas são os portais para acessar essa sabedoria, que agora só nos aparece nesses lampejos, mas antes era nossa matéria prima.
    Carolzinha, não perca isto!

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  2. É tão linda e delicada a forma como deixa escapar o amor em cada palavra, em cada descrição. Não dá pra terminar a leitura sem os olhos marejados. Talvez por ter vivenciado o início dessa história ainda dá mais vontade de apertar e abraçar. Minha charazinha fogueta!

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