Flor da Paz

Juliana da Paz –

          Adoro ouvir Histórias de mãe, porque, geralmente, são assim, Histórias com H maiúsculo. São de um passado tão presente na pele, na veia, na vida de agora. Ela ME conta sempre que conta Histórias nossas, de nossa família. Eu catuco mesmo, sempre tentando ir mais longe, mais fundo, mais! O lugar mais profundo onde consegui chegar, foi a Vó Flor. Era quase uma lenda para mim, mas ela me dizia tanta coisa. Eu amava saber porque eu tenho cara de índia, porque danço batendo o pé no chão assim e me sinto bem me aterrando assim. Os sons dos pássaros, as ervas e chás, as folhas todas, eu gosto e conheço pelo cheiro e reconheço o design de cada uma com muita facilidade. Tudo isso me rodeia a cabeça enquanto minha mãe conta o que lembra, o que ainda resta dessa memória.

          – Nasceu na tribo.

          – Onde mesmo?

          – Em Pernambuco.

           – Era Fulni ô, Pankararu? Era o quê?

          – Eu nem sei. Ela já chegou lá em casa muito velhinha. Cuidou de papai depois que ele ficou órfão. Era mãe da mãe dele.

          – Ah! Então ela era sua bisa.

          – Sim. Ela era avó de papai, mas gostava mesmo é de ser cuidada por mamãe, mas não a chamava pelo nome, ela dizia: “Só quero ficar na casa da mulher de José”

          – Por que?

          – Ela conheceu uma outra mulher com o mesmo nome de mamãe – Ana – que ela não gostava, era sua desafeta, por isso chamava “mulher de José”, não Ana. Mamãe sempre dizia que ela tinha muita vergonha da História dela. Contava tudo aos cochichos e pedia segredo.

          – Oxe! Por que?

          – Ela não queria que soubessem que foi capturada e levada de sua tribo, pelo meu bisavô.  É a única coisa que sei dele. Meu pai não falava muito a respeito, acho que ninguém soube muito dele. Ele a deflorou a força, e ela teve muitos filhos com ele. Uma das filhas foi minha avó, Maria da Paz, que morreu muito cedo. Era passadeira na casa de um fazendeiro. Morreu por conta de um choque térmico, estoporada, como se diz lá no interior. Deixando meu pai para minha bisa cuidar.

          Durante a narrativa eu só me impressiono e me impressiono com a singeleza das palavras para narrar tão sofrida História. Uma flor que perdeu, por maldade ou sina, por crueldade e ainda menina, pai, mãe, tribo. Uma flor a se reinventar, com suas raízes forçadas a se alojar em outras terras, embarrigar de um homem que não se escolhe, envergonhando-se por toda a vida por não ter vivido a história que escolheu.

          Acho também muito lindo como minha avó Ana, “Mulher de José”, a acolheu. A escutou e guardou, durante sua vida, seus segredos. A respeitou na sua vontade de ser preservada. Há quanto tempo ela não sabia o que era ser preservada por alguém?

          – Mãe e você conversava com ela?

          – Não. Eu nem a conheci. Tudo que sei era minha mãe que contava. Mamãe contava que já no final da vida ela era fujona, fugia mesmo. Para o mato. Só queria voltar para casa. Para a tribo. E que sempre a traziam de volta. Teve uma vez que ela se despiu inteira e se besuntou todinha de bosta, para que não encostassem nela. E saiu de casa. Quando a encontraram, já estava bem longe, ela era miúda, fácil de carregar. E trouxeram de novo a coitadinha para casa. Ela chorava muito. Deram banho nela. Lavaram seus cabelos que eram compridos, alcançando as canelas, ela não gostava de cortar.

          – Ela morreu com que idade, mãe?

          – Ah! Não sei filha, com uns 70 anos, ou um pouco mais que isso.

          E foi assim que conheci minha raiz mais funda, até onde eu consigo ir, era uma flor, Flor da Paz. Arrancaram-lhe um dia, eu não sei bem onde, mas era o seu lugar, o único que ela sabia, que ela amava, que sentia, onde brotava. Seu nome nem sabe, o SEU, dado por seus pais, daquela tribo onde nasceu, de onde aos 12 anos de idade, colheram-lhe sem permissão. Levaram-na à força. Obrigaram-na a viver uma vida que ela não queria para ela, nem para ninguém. Eu me orgulho tanto dela, eu sinto tanto por ela, eu vou e volto na História, do antes para o agora e sigo fazendo links sem fim. Ela vive, forte, índia, forçada, envergonhada, dentro de muitas mulheres da família Da Paz e também dentro de mim. Ela vive na minha face, no meu cabelo, na minha vontade de fugir, assim, feito ela, que mesmo depois de todos os desvios forçados em seu caminho, até o fim insistiu no que seu coração pediu e fugiu! E lhe trouxeram e ela fugiu! E de novo e de novo, sem desistir. E de novo, assim, insistente, ela vive, dentro de muitas mulheres da família Da Paz e também dentro de mim.

          Olho para o meu quadril achatado, muito largo, meus peitos pequenos, meu narizinho de nada, meu beiço inferior dobrado, minha cintura fina, minha pele, minha cor… “Eu pareço com você Vô Flor? É com você que pareço?”. Minha História que se com – funde com a dela, toda feita de fragmentos, sem registros, não me diz o suficiente, mas quem é semente, sente.

Ouça Nossa voz: Flor da Paz.

9 comentários em “Flor da Paz

  1. Encontrei na sua história um tanto da minha. Sei que lá pela Bisa, ou antes dela, também uma flor foi roubada, cortada, violentada. Certamente não me pareço fisicamente com essa parte da família, mas a carrego de outras formas em mim. Até me senti sua parente… Meu avô veio de Pernambuco e tantas vezes quis saber de qual povo indígena vem nossa história. Curioso foi que uma semana depois da morte dele, tivemos uma visita dos funi-o na escola em que trabalho. Chorei quando os vi, pois era meu avô ali… Gratidão pelo texto que me levou lá que também é aqui.

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  2. Ler-te é sempre uma alegria,Juliana. Tens um domínio da narrativa que é para poucos! Sou uma desterrada, sempre buscando uma história perdida que me acenda alguma luz, obrigada, pois me destes muitas luzes…um sol vibrante domingo de manhã.

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  3. Transformar uma triste história em história de luta e resistência. Parece que esta é a tarefa… Nunca deixar morrer nossas vidas, nossa história, nossa luta!

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  4. Ju, que história forte. Meu avô em meio a periferia e caducando também fugia. Queria voltar pro Sertão. Montava nas motos e fingia ser cavalo. Só pra fugir. Gratidão por sua partilha e pela sua história. Um abraço

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