Sagração da Primavera

Elisa Dias –

Uma a uma foram desfeitas as amarras que me prendiam a mim mesma.

Minha alma cálida se despia das saias rodadas e do medo de escuro, eu não me sentia ali, vez ou outra me perdia em devaneios e sucumbia a ideia de me reconhecer estando presente naquele momento desconhecido, temido, e que a tanto ansiava.

Eu procurava lirismo e poesia naquele ato tão irracional, que me distanciava mais ainda do meu consciente. Por vezes eu flutuava, mas outras eu me afundava numa lama que me puxava para o chão, pra parte sólida do núcleo da terra. A respiração não sintonizava com nada, desritimava com a pele arrepiada, as unhas e os dedos  que se agarravam no corpo pressionado sobre o meu. Eu estava indo contra o que meu ser acreditava, mas minha carne faminta festejava e se lambuzava e os estímulos faziam meus sentidos se expandirem pra um universo infinito dentro de mim. 

Eu profanava assim o amor, desmistifiquei a beleza dos seres vivos, foi então que entendi o sentido da vida.

Só via a minha frente lindas cores azuis esverdeadas que me fitavam, os seus ventos me sussurravam calmaria. Respira! Respira! Respira! E, assim o mar rebentou em mim, água e sal desciam sinuosamente pelo meu rosto até chegar nos nossos lábios e misturar com a saliva, a delicadeza e gentileza que uma a uma das minhas lágrimas  eram secadas por aquelas mãos robustas  e calejadas  de alguma forma. Aquele gesto pequeno e gentil me trazia paz, depois de um tempo, era tudo tão animalesco e voraz. Eu já não sabia ao certo diferenciar o desejo e a dor, a carne que corta, sangra, e naquela dança descompassada, ele me conduzia no breu, eu não sabia aonde ia, estar no seu corpo era como conhecer um país distante, me assustava, eu não conhecia nada. Ele preenchia meu corpo, mas o vazio da alma ali estava, me via sangrar, me julgava, por vezes, me amaldiçoava.

E, no fundo, eu gostava de ser como uma fera domada pela força física. Eu estava em tuas mãos, não por ser obrigação, mas por escolha minha. E, conforme ele me conduzia naquela dança, eu percebi que mesmo sem saber aonde ia eu que comandava o andamento, os passos, o ritmo, o volume e a intensidade. Mais forte mais fraco.

Comecei entender o que acontece com uma semente no solo, a terra é perfurada de forma ardente, pra semente ser plantada, a semente é germinada, a delicadeza brutal dela saindo da terra era a mesma com que, aos poucos, ele se firmava dentro de mim. Assim, o primeiro verde naquela terra, nasceu, depois de tantos outros terem passado por diversas primaveras nunca a fazendo florescer. Sem conhecermos a guerra do solo, semente e raiz, a flor depois de muito tempo apareceu, e eu naquele momento era como a última flor a surgir na primavera, em aparência frágil e beleza intrigante, parecia estar só, todas as outras murcharam, caíram morreram, mas eu iria perdurar por muitos verões. Assim, nascia algo novo em mim, uma força desconhecida, que movia ele a lugares e me movia a ele, nos movíamos juntos, arávamos a terra, sentíamos o cheiro das flores, a dor, o medo, as lágrimas e o escuro, aos poucos sumiam, não era ausência de Alma era eu mesma matando a minha sede de vida.

Ouça nossa voz: Sagração da primavera.

5 comentários em “Sagração da Primavera

  1. A mistura de sensações, cheiros, textura, cores, sabores nos mostra como a vida é realmente o intensa e penetra por todos os poros. Que viagem sensorial!

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