Mãe Autônoma

Fotografia de Seydou Keita, fotógrafo, Mali.

Thata Alves –

Impressionante o quanto

A guarda dos filhos é da mulher

Ora se não é?

Quando há a separação

quem que fica com a prestação

do inalador

que não sara a dor dessa ferida

Fica aberta

Pingando sangue

E se não fosse o bastante

A saúde mental da mulher

Sofre

Porque ela a todos socorre

Mas não há quem

cuide de suas feridas

Internas, físicas, psicológicas

Numa separação

não existe pai que proponha

Guarda compartilhada

É a mãe que fica com toda a carga

Ela já não tem mais

Tempo pra produzir

pra se cuidar

uma vida social

uma amiga que levante seu astral

Uma viagem pro litoral

um bom livro na sua prateleira arsenal

Um churrasco sem crianças no quintal

Seu dinheiro

é pra todo é pra suprir o financiamento familiar

Pra contas a pagar

Ja não sabe mais o que é cabeleireiro

Nem fazer a unha

Mas o que mais a tortura

é o descaso

esse não dividir o fardo

De um fruto que outrora

Era o melhor plano dos dois

De nós

após

Só os nós

que a mãe autônoma tende a desatar

Dinheiro da pensão

não paga a ausência

a ciência de que o primeiro passo

Passou e não se viu

O dente caiu

já nasceu

E você nem olhou

o choro gritou

e também em seu peito

Éramos nós 3 querendo leito

E o desespero é tanto

que chora filhos de um lado

É a mãe num outro canto.

Num entanto, tem um tanto de roupa no tanque

pra exercer

tem a matéria dos filhos pra resolver

Tem o almoço pra fazer

tem que providenciar a mistura pra comer

Já pagou a conta de água, de luz, de telefone

Agora chega e da TV

Deu o horário de levar os meninos na escola

Aproveita leva uma sacola

e passa no mercado

Acabou o leite e o achocolatado.

Ai meu Deus o agasalho não serve mais

O aluguel tá pesado

Mas não dá pra voltar pra casa dos pais

Ela equilibra

tudo isso com duas mãos

com um coração

que ainda pinga sangue

Mas seus filhos a todo instante

é com ela que contam

que sabem que tem refúgio

enquanto fujo dos prazeres

tento fingir que os afazeres

são meus dotes

mas o bote virou já faz tempo

vejo o quanto mãe

é terra firmamento

só hoje entendo

o que enfrentou minha rainha

quando nos preparou gororoba com farinha

Na falta do pão

macarrão

nunca houve filé mignon

Pra cada mãe se deve uma estatueta

Toda mãe na defesa do filho é porreta

enfrenta as treta

e põe sorriso nos lábios

Faz acontecer o milagre multiplicar

é por isso que no coração de mãe sempre há

Mais um espaço

que é maneira de tapar buracos e sentir-se importante

toda mãe é um diamante

Toda mãe vale ouro

em seu mais alto quilate

agora tem pai

que só late, achando enriqueceremos com o dinheiro da pensão

que com seu pouco dinheiro, tudo será provido

Há diferença é que mãe e pedra preciosa

e tem pai

Que só é um caco de vidro.

Ouça nossa voz: Mãe autônoma.

6 comentários em “Mãe Autônoma

  1. Poema protesto que traz personagem de carne e osso, que sofre a ausência de amparo do estado, da família, do homem que aqui está representado em toda sua fraqueza e superficialidade diante da realidade da vida!
    Parabéns às mães reais, sem glamour, que lutam incansavelmente por um mundo mais justo e humano!

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  2. E entender que não é reclamação, é situação que devemos mudar. Não é lamento é protesto. Não é desamor sentir-se exausta, é amor demais que dá essa força. Será que os pais que se vão não amam? Nem por um minuto? Fracotes

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