Enquanto ainda

Celane Tomaz –

À todas as mães, mulheres de força descomunal.

É madrugada nos dias iguais. Seu filho acorda repentinamente e esbarra no medo que invade seus pensamentos sobre o dia que ainda não amanheceu.

Em passos leves e rápidos, sem sinais de avisar, ele vem em minha direção. Desorientado, inseguro, atordoado – assim como o presente e a espera, enquanto o futuro não vem.

Pego-o no colo, encosto sua ainda pequena cabeça em meus ombros – ainda. Cerco-me em seus braços que me abraçam. Inocência acalanto no meio do barulho do caos. Coloco-me em colo seguro e o protejo – ainda. Da solidão da cama quente, do escuro de seu desconhecido mundo, da noite que tanto teme ainda. A garoa lá fora umedece as ruas e os telhados que cobrem a fome, embala as incertezas dos insones e silencia os gritos dos homens que sangram. A chuva é fina, mas muito arrasta. Aperto o menino com a força intrínseca e involuntária, que se faz necessária para os dias. Enquanto ainda posso.

Ele sim segura e acaricia meus seios nus, que ainda o alimentam e afagam. O tempo passa, apesar de tudo, apesar do nada e do absurdo que regem os dias. E com ele, lá fora, vidas passam diante do riso, do escárnio e da indiferença vil e insana. Outros filhos padecem no colo da mãe gentil, deitados sobre o manto verde e azul, chorado e manchado de sangue.

O menino apoia a cabeça em meu peito. Está nu e fundo respira, assim como eu. Naquele instante, infinito e fugaz, desaparece o medo – nossos medos. As bocas de todos os lados, dos noticiários e da vida que grita, emudecem. Em paz temporária, permanecemos. E nos deitamos sobre a humanidade que existe dentro da nossa casa, na solidariedade dos sorrisos comuns e únicos, que jamais serão só números, CPFs, CNPJs.

Estamos protegidos, habitados dentro dos nossos (a)braços, longe da frieza desumana das mãos que nos apontam o punhal da História, da tortura.

Nas ruas, cães latem ao longe raivosos e inquietos. Espumam o ódio a quem passa…e passa, e passa…

Coloco o menino em superfície macia. Ainda é estável, segura e cabem nós dois. E eu muito penso: “Dorme, menino, dorme! Dorme enquanto ainda nas noites tudo adormece e se espera, enquanto ainda a noite é serena. Dorme, menino! Enquanto em seu sono cabem sonhos. Enquanto não do(minam) os pesadelos. Enquanto seu choro vem e vai em breve suspiro e alento. Sem precisar estar atento, sem precisar secar as lágrimas ao contemplar as injustiças do nosso tempo. Dorme, menino, dorme! Enquanto ainda pode me chamar pelo nome. Enquanto o corpo inerte descansa e alcança a ausência de realidade em sua inocente existência. Enquanto os olhos se fecham e não vêem o que pode vir – talvez amanhã haja nascer de sol para o consolo na monotonia desses infindáveis dias pálidos, inválidos, claros, frios e sombrios. Dorme, menino! Enquanto não sabe a dor de  enterrar os nossos mortos. Enquanto não conhece a devastação da despedida. Dorme, menino, dorme!

Enquanto as madrugadas ainda são longas e vazias. Enquanto depois da chuva, as rosas ainda nascem no asfalto. Enquanto ainda há o cuidado, enquanto a canção de ninar ainda não é sussurrada, enquanto é amado, enquanto seu leite ainda não foi derramado.

Enquanto ainda.”

Ouça nossa voz: Enquanto ainda.

11 comentários em “Enquanto ainda

  1. Eu que já estou em prantos por conta de tudo que vivemos e das distâncias entre nossas mães, não pude deixar de rolar mais algumas lágrimas e refletir o quanto nós mães precisamos dos filhos e de seus braços e abraços, enquanto a ciência insiste em apregoar o contrário!

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    1. Como não chorar,um texto que compartilha com nossa realidade adulta,que eles ainda não percebem,fico a pensar como será o futuro deles?

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      1. É o que permeia os pensamentos constantemente. Nos resta doar amor, cuidado e semear com palavras e viver uma vida mais possível.

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    1. Ah Celane… narrou o colo que nos acolhe neste momento. Já nos tiraram o abraço dos nossos pais, amigos… que bom ainda termos esses bracinhos tão frágeis e tão fortes de nossos pequenos.

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  2. Horas esta queria poder voltar ao colo de minha mae e ser embalada.

    Dorme Thata dorme…
    Mas eis que me torno a mae de outros.
    Acorde Thata Acorde.

    Multiplos acionam teu nome com choro, pra entao poder embalar o sono , e eu dizer:

    Durmam ibejinhos, durmam…

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  3. E quando o menino acordar, já não mais tão menino, abrir a porta e o mundo for encarar, que nesse dia os cães já estejam aquietados, que os risos sejam sinceros e contagiantes, que o sol já nos proporcione dias mais válidos e multicores e que a paz, enfim, seja duradoura.

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  4. Como olhar o filho sem olhar o mundo para o qual o preparamos. Como aconchegá-lo sem querer para sempre estar ali, sempre que ele voltar seja lá de que parte do mundo, seja lá com que idade estiver. A maternidade, muitas vezes, se configura em se segurar nas incertezas, no que vai rapidamente passar, mas vão ficar pra sempre, dentro.

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  5. Seu texto me remeteu a esse poema de Drummond:

    “Na noite lenta e morna, morta noite sem ruído, um menino chora.
    O choro atrás da parede, a luz atrás da vidraça
    perdem-se na sombra dos passos abafados, das vozes extenuadas.
    E no entanto se ouve até o rumor da gota de remédio caindo na colher.

    Um menino chora na noite, atrás da parede, atrás da rua,
    longe um menino chora, em outra cidade talvez,
    talvez em outro mundo.

    E vejo a mão que levanta a colher, enquanto a outra sustenta a cabeça
    e vejo o fio oleoso que escorre pelo queixo do menino,
    escorre pela rua, escorre pela cidade (um fio apenas).
    E não há ninguém mais no mundo a não ser esse menino chorando.”

    Sinto a mesma emoção de quando li esse poema pela primeira vez, obrigada por ser tu, Celane, essa mão que acolhe e escreve os sentimentos do mundo

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