Manu, Mani e Marizé

Modesto Brocos- Engenho de Mandioca

Arlete Mendes –

Acordava pontualmente às quatro da madrugada, coava o café ouvindo “Brasil Caminhoneiro”. A fumaça embaçava o pensamento, o cheiro lhe dava fome. Fome do que não tinha. Queria comer estrada e chão na boleia de um caminhão. A mulher não gostava nada daquele programa, só gostava do Eli Correia. Ela tinha saudades.

Estavam ali sentados, tomando café preto e ouvindo o programa, para agrado de um e desagrado do outro.

─ Esse ano eu tiro a minha carta!

─ Para dirigir o carrinho de mandioca?

─ Deixe de ser malcriada.  De rir do sonho alheio. Não sabe que sempre foi minha vontade dirigir caminhão?

─ Ô, se sei… não se zangue, não, Manu, quem sabe tu… Ei, me leva no ponto? Ainda tá muito escuro.

─ E algum dia deixei de levar?

Lá foram os dois, caminhando por uns resquícios de baile, de bêbados e de batidas policiais.

─ Quando chegar em casa não esquece de tirar a mistura do freezer!

Subiu no ônibus já lotado. Ele apenas acenou, na hora passou uma scania vermelha, que tirara toda sua atenção.

Marizé seguiu para labuta. Eram três patrões diferentes, três reinos, três leis. Camaleoa que era, sabia se colorir conforme ditavam a pintura. Mulher ágil, esguia e forte, mesmo beirando os sessenta anos.

Fora feita do barro inquebrantável, nem resfriado pegava. Só assim para criar três filhos com diploma e dignidade. Cada um havia seguido seu rumo. Agora era apenas Manu, as manis e Marizé. O rádio no Brasil Caminhoneiro e no Eli Correia. Um café preto coado na hora pelas mãos ásperas de Manu. Ora um afago, ora uma farpa, trocados sem dores.

Sonho… não ousava, era toda ação, a vida lhe fizera assim, de prontidão, sem tempo para lamúrias e banhada de muita coragem. Até porque pobre sem coragem não vingou, virou anjo, não habita entre nós. Sem tempo para devaneios. Seu prazer era chorar das saudades alheias, ao meio dia, salgando um pouco mais a marmita com suas lágrimas.  Horário de almoço findo, enxugava veloz os rastros do choro, como quem quisesse apagar os rastros de um crime, e pegava de novo firme em seu batente.

Desde quando puxava carro de boi em sua terra, Manu desejava um caminhão. Chegando no sul, no extremo sul da zona sul, conseguiu serviço de metalúrgico. Mandou buscar sua companheira. Com o emprego de carteira assinada comprou um terreno, parcelado a juros galopantes. Construiu junto a Marizé aquela casinha interminável. Ali cada tijolo recebera um afago das mãos calejadas dos dois. Assim foi indo, um cômodo por vez. Mas logo veio crise por cima de crise, os meninos demandando estudo, alimento, roupa, sapato, o que sobrou foi o carrinho da construção repleto de mandioca e a vontade danada de nunca se dobrar a desgraça. Teimosia é nossa sina.

As manis eram as mais saborosas, tenras, adocicadas, bem amarelinhas, derretiam feito manteiga na boca. De tão boas nem precisava apregoá-las. Ia longe escolher suas mandiocas, se empenhava muito no serviço. Parava próximo ao ponto da praça, uma vizinha ia avisando a outra, que ali arrodeavam o carrinho para ver quão ágil a casca dura se desfazia em longas tiras marrons. Eram só elogios.

Manu, prestativo, sempre colocava um chorinho na balança e as mandiocas eram de fato as melhores, se orgulhava disto, era o que o motivava a empurrar carrinho de mão, rua a cima, rua a baixo, sob o sol quente, saindo cedo do dia, chegando já noite escura.

Na verdade queria estar dentro daquela scania vermelha que acabara de tomar a avenida com sua colossal carroceria. Às vezes, feito menino, imaginava o carrinho de mão seu portentoso caminhão, aproveitava o embalo da ladeira para dar efeito de velocidade. Corria. Mas logo a brincadeira findava, por medo de perder as manis ao vento.

Chegava antes de sua companheira e tinha de preparar a janta. Aquele dia a venda fora completa. Comeram, em comemoração, um belo bife com arroz, feijão e mandioca frita e ainda brindaram com cerveja gelada. Estavam contentes, riam, se alfinetavam e riam um pouco mais. Manu aproveitou o bom humor dos dois:

─ Mulher, vamos esse ano dar jeito de ir até a Paraíba, tem mais de dez anos que a gente não vê nossos pais. Estão velhos, você sabe…

─ Tem razão, homem, vamos comprar as passagens para não ter desculpa e a gente vai pagando de pouquinho, quando vê já é Dezembro e olha nóis lá, vendo todo mundo…

Aquela noite foram até dormir mais tarde. Tão felizes com o plano de viagem…

Marizé sofria um bocado na mão de uma das patroas, esta não deixava que ela usasse um copo sequer, tinha que levar tudo, comida, água, copo e talher. A madama era aquele tipo de gente que tem nojo de gente, porque se acha mais gente do que a gente tudo. Raça ruim. Raça ruim do Cão.

Não se mostrava abalada pelos maus tratos, porque sabia que esse tipo de gente não tinha lugar no coração do céu. Fazia muito bem seu trabalho e disto a madama nunca haveria de reclamar.

Para compensar havia um patrão que era bom, permitia que ela levasse o alimento que estivesse próximo ao vencimento, doava roupa, calçado e o que mais estivesse entulhando seu belo apartamento com vista para o Parque Ibirapuera. Um jovem médico, que quase nunca estava em casa.

Pagava certo, não humilhava, vez ou outra elogiava o serviço dela, que era sempre muito bem feito. Mas esse mesmo doutor tinha uma cadelinha, filhinha, dizia ele. Só os gastos mensais com a cachorra davam para sustentar uma família, e agora eram dois. Apareceu por lá o cachorro da namorada, juntos, os dois cães, pagariam seis meses de trabalho de Marizé. Sabia de todos os valores porque ela mesma era quem acertava as contas dos bichos. Se por um lado ficava chateada de saber que valia tão pouco, por outro se sentia até orgulhosa do doutorzinho confiar tanto dinheiro na mão dela.

Chegado Dezembro, Marizé aliviou-se, passaria um mês livre dos desaforos da madama e dos cachorros. Só agora, prestes a velhice, tinha seus direitos reconhecidos. Podia se dar a esse luxo de viajar de férias. Ela e Manu felizes da vida arrumando as malas, quando toca o celular:

─Alô, Marizé, tudo bem? Você ainda está em São Paulo?

Antes tivesse dito que não.

─ Sim, doutor, tudo bem? O que o senhor precisa?

─ Marizé, estou com um problema e espero que você me ajude. Como sabe a mulher me deixou, disse que buscaria o cachorro dela e nunca mais apareceu. Estou embarcando para a Suíça, mas nenhum hotel para cachorro aceita o cão daquela mulher, porque não tenho a carteira de vacinação. Será que você não consegue ficar com esse bendito cão? Eu te pago o que pagaria para o hotel.

Marizé tapou o telefone e contou aos sussurros o que estava acontecendo para Manu, que murmurou de volta:

─ Diga não,não! ─ Acenava com o indicador em riste e muita munganga. ─Não! E a nossa viagem?

─ Tudo bem doutor, eu fico…

─ Marizezinha, já que vai tomar conta do cachorro da desalmada, teria como cuidar da minha filhinha, tenho pena de deixá-la com desconhecidos… te dou graninha extra. Diz que sim, vai?

Marizé revirou os olhos e fez um muxoxo, mas já havia dito que sim para o primeiro cão, está no inferno abraça o Capeta, no caso o Cão…

Manu ficou muito bravo, largou as malas e foi fumar um cigarro no quintal.  O ano inteiro planejando aquela viagem, o ônibus era de leito, luxo só. Os abraços dos pais, as visitas aos parentes, as comidas que só lá sabiam fazer… tudo mandioca abaixo. Sabia que aqueles cães seriam um estorvo, porque eram mais gente do que eles nunca foram, cachorros grã-finos, metidos, cheios de frescuras. Que pesadelo! E se fogem? E se adoecem? E se morrem? Marizé não estaria encrencada?

─ Entra, Manu, vamos conversar!  Deixa de ser bobo, homem, tem ano que vem… com o dinheiro a gente vai poder ir de avião… Pensa, eu lá posso me dar ao luxo de dizer não pra patrão? Ainda mais um patrão tão bom pra mim!

─ Agora não posso. Tô vendo uma scania passando na avenida! Quem sabe não vou de carona até a Paraíba. E deixa de ser boba Marizé, que patrão bom é aquele que ainda não nasceu.

Olhou para o carrinho vazio no canto do quintal, se encheu de tristeza. Dobrou a esquina para ver os parceiros do dominó e contar que depois de amanhã estaria na praça.

Nossa voz: Manu, Mani e Marizé.

Publicado por arlete mendes

escrevinhadeira, educadora, mãe de meninos e meninas, amante da música, da literatura, da vida!

18 comentários em “Manu, Mani e Marizé

  1. Nossa, cada vez mais tua fã! É tão bonito ver como as palavras vão deslanchando na paisagem, no sotaque, no burilamento das escolhas que ao mesmo tempo, sabemos, são tão espontâneos em ti! Me deleito e aprendo cada dia mais contigo, MAGISTRAE

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  2. Narrativa tão envolvente e com personagens tão reais! Me identifiquei com Marizé e torci junto com Manu pra q ela não aceitasse cuidar dos cachorros do patrão. Adorei!

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    1. Ai que aperto! Você consegue nos fazer sofrer, amar, torcer… viver a vida desses dois que é tão dos nossos! Lindo demais e tão triste….

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  3. Uma história simples, bem comum e com uma linguagem mais direta, menos metafórica como é de costume da contista. Não é uma leitura que me atrai tanto, ainda em comparação, a não ser pela força da circunstância social. Manu não se desenhou para mim, mas Marizé tem rosto em minha cabeça, rosto de alguém que baixou a cabeça e se entregou à condição, que sabe pesar a dor entre a saudade dos pais e uma vida sem salário. É duro, talvez por isso tão seco. Não sei, essa escritora é muito intencional, sabe atingir a gente.

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  4. Quantos Manus, quantas Marizés atravessam a cidade e sua existência para servir aos preços dos indiferentes? Seu valor é incontável, mas invisível. Vidas que passam, que se renunciam para manter outras vidas, deixando para outras vidas sua terra, suas famílias, construindo memórias doídas sob a lei da saudade.

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    1. Me sinto dentro da narrativa! Como consegue ser tão real? Não vivi o que li e ouvi, mas sinto na carne, essa dor alheia!

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