E daí?

Ana Karina Manson –

Meu avô morreu aos setenta e sete anos em seu trabalho como jardineiro. Não houve tempo para o socorro e, se houvesse, seriam poucos os recursos médicos para sobreviver ao enfarto.

Curioso que sua morte ocorrera neste dia em que cuidava de um jardim e hoje tenho em minha casa a flor Onze Horas para que sua presença me visite ao menos uma vez ao dia. É preciso dizer que tal flor eu conheci por ele, dentre tantas que ele cultivava em casa. E essa o simboliza de alguma forma para mim. Não faço ideia das flores que cuidava no jardim da madame onde morrera.

Tenho também uma medalha de voley que ganhei dele, mas não por que ele tenha sido um atleta vencedor, pois simplesmente trabalhava num clube em que grandes nomes do voley jogavam. Recordo que ganhou até um radinho de pilha de um jogador de prestígio. Desse tempo, lembro também que nossa felicidade se dava quando o vô trazia para casa restos de presunto e queijo do tal clube chique. Nesse dia teríamos um lanche especial…

Assim, foi a vida de meu avô – ou parte que povoa minha lembrança; uma vida de luta e de restos, como a de muitos de nossos antepassados e também de nós.

Quantas vezes a melhor roupa fora a que não servia mais ao dono antigo ou que ele enjoara da cor? Quantos livros lidos com coração pulsando foram aqueles que seriam descartados por seus donos, os quais ficavam bem felizes em doar, assim não doía a consciência em mandá-los ao lixo? Quantos brinquedos recebidos de uma criança rica nos alegraram depois que o pai consertava o cachorrinho que não latia?

Meu avô paterno, do qual essa história caminha, não carregou o peso da escravidão de antepassados, como ocorrera com meu avô materno, que certamente será assunto de um outro texto. Esse, que protagoniza esta memória, era filho de um turco com uma italiana e experimentou outro tipo de escravidão que perdura até os dias atuais. Hoje chamaríamos de subempregos? Terceirizados? Informais? Há tantas modalidades de exploração que me perco nos nomes.

A trajetória de trabalho do vô percorreu a servidão no campo, olarias, tecelão de redes, vendedor de alho, jardineiro, entre tantos que só consultando os mais velhos da família para narrar com precisão.

Sei que não vi meu avô descansar, pois mesmo com uma mísera aposentadoria, a qual contribuiu ao longo de anos para recebê-la, nunca conseguiu deixar de trabalhar, fosse pelos trocados que ajudavam nas compras que fazia com tanta economia, fosse por interiorizar a máxima de que é preciso trabalhar para se manter ativo, de que não podemos parar. Digo isso, porque por vezes filho e nora próximos quiseram impedi-lo de que trabalhasse em tal idade por tão pouco dinheiro, porém sempre se recusou ao não trabalho.

Reconheço que herdei em grande parte essa sensação de que não podemos parar, de que não é digno, inclusive me peguei remoendo culpas diversas vezes por sentar num sofá, como se os momentos de ócio roubassem minha dignidade. Como se não pudesse parar para respirar e sentir o passar do tempo calmamente…

Sei que ele nunca parou de trabalhar e fez o que alguns políticos tanto desejam: que o pobre trabalhe até morrer.

E meu avô morreu trabalhando!

Para muitos é este caso somente motivo de orgulho e admiração. Sinto muito decepcionar a tantos, mas considero, outrossim, caso de injustiça que um homem seja explorado por toda a vida, enriquecendo ainda mais grandes fazendeiros, empresários, banqueiros e tantos outros em nossa sociedade para simplesmente morrer cultivando as flores alheias.

Alguém diria:

— E daí?

E daí se o avô morreu trabalhando? E daí se morrem trabalhadores nos campos envenenados por agrotóxicos? E daí se morrem professores deprimidos por não conseguirem lutar contra o sistema da analfabetização? E daí se morrem meninos e homens, policiais ou não, nas guerras de todo dia nos cantos periféricos das cidades? E daí se morrem pretos trabalhadores confundidos com bandidos em táxis? E daí se morrem médicos, enfermeiros, faxineiros nos hospitais que arriscam agora suas vidas para tratarem doentes?

Onze Horas abriu… É hora de preparar almoço, é hora de cozinhar, é hora de trabalhar…

Ouça nossa voz: E daí.

10 comentários em “E daí?

  1. Esse ” E daì” é tão deflagrante do desprezo secular daqueles que são os donos dos meios de produção e que deram de ombros as malezas construídas por eles mesmos. Para cada e “daí” nos vingamos resistindo com nossa teimosia incansável e nossa incrível capacidade de dizer “sim ” a vida, enquanto eles dizem “não”.
    Obrigada, Ana, por fazer doer e fazer mover!

    Curtir

  2. Nunca um “e daí” foi tão repleto de contextos. E no meio de falas como essa, seguimos trabalhando, lutando e resistindo, fazendo valer cada dia de suor derramado, por nós e pelos nossos.

    Curtir

  3. Triste pensar que tantos perecem sem ter a oportunidade de viver, de ter um lugar ao sol ou simplesmente de ser livre e uns poucos perguntam: e daí?

    Curtir

  4. Pra cada “E daí?” que ouvimos mais um motivo pra ter forças, por seu avô, pelo meu, por nossos avós que morreram trabalhando. Sinto a cada dia que nossa força vem daí, de nossas entranhas e raízes, familiares e de classes. Para que suas vidas não sejam em vão, que continuemos…

    Curtir

  5. Nunca um “E daí?” doeu tanto quantos nos tempos em que vivemos, como na sua narrativa embebida de verdade, Ana. É como se os verbos “trabalhar” e “viver” sempre se contestassem, jamais se combinassem. Quem nunca se viu “remoendo culpas diversas vezes por sentar num sofá, como se os momentos de ócio roubassem a dignidade”?
    O direito de viver violado a um preço. É preciso dar a tantos os trabalhadores de todos os dias o seu devido valor.

    Curtir

  6. tenho onze horas aqui na minha janela, acho que a minha de tanto trabalhar sentiu preguiça
    e sempre acorda (abre) ao 12:00
    Sua cor me faz dispertar , e por felicidade minha, nao para ir trabalhar, mas sim pra dar a volta do quarto ate a casa , na janela do lado de la, e admira-la ao meio dia

    Curtir

  7. ‘E daí’ deu vazão a esse belo texto eivado de memórias ternas, saudosas e colorido por todas as flores que o avô cultivava. Onze Horas só roubou a cena.
    E a quem disparou essa expressão, como outras de igual sarcasmo e desprezo, talvez o melhor que possamos lhe dizer agora (ou há tempo) é “saia já daí”…

    Curtir

  8. Maravilhosa reflexão sobre como agora ou antes, e certamente, depois do momento atual, sempre se pronunciaram com um “E daí?” para a pobreza, para o trabalhador, para a morte no desprivilégios dessa vida. Texto conciso, bem conectado entre memória e o sistema macro de organização do trabalho. Muito bom!

    Curtir

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: