Seu José

Djanira. Serradores

Elisa Dias –

As marcas do tempo davam pra ler no seu rosto, na rachadura dos pés, nos calos de sangue das mãos, na coluna envergada de tanto carregar lata de concreto nas costas estavam ali escritas. A  história daquele homem, que como tantos outros migraram de sua terra, com pouca bagagem, muitos filhos e a esperança de dias melhores. Não havia ambição, assim foi daquela gente, retirante, retirada de tudo, até mesmo do direito de degustar um alimento que não passara de uma cuia cheia de farinha e poucos grãos de feijão. Racionado pra cada filho.

Cada criança que veio ao mundo já nasceu de vida apoucada, barriga d’água, verme, fome, sede, marcadas pela herança do preconceito e o suor da pobreza passado de geração em geração. O pé, quando não descalço, era sujo de barro, era calçado por chinelos de tiras trocadas, roupas doadas, e o que mais intrigava é que em meio a tanta miséria estava presente ali a resistência, a despeito da quase impossibilidade de vida, aquelas flores cresciam em meio do esgoto, do asfalto, da lama.

Aquele homem caboclo, não sabia ler e nem mesmo assinar seu nome, era apenas mais um número, pra sociedade eles eram os “Parasitas”, que sobrevivam a doenças, dormiam como ratos, nadavam em enchentes, comiam restos e ainda assim resistiam.

O concreto, o tijolo, a tinta, massa corrida eram intimamente parte do uniforme daquele caboclo, no meio da tarde ficava de cócoras no canto da parede, tirava da mochila que havia ganhado na eleição, de lá tirava uma marmita enrolada num pano de prato encardido e puído, o patrão olhava aquilo com desprezo, repudio, ojeriza, na cabeça um boné com um sigla que ele não sabia o que significava: “CUT”. O que aumentava a náusea do patrão de capacete branco na cabeça, camiseta bem passada e limpa.

No fim do dia chegava em casa e vez ou outra trazia consigo um pedaço de linguiça, aquela era a felicidade sem fim, nos olhos daquelas flores existia esperança e mesmo quando a chuva levava o pouco que tinham a mãe segurava sua imagem quebrada de Nossa Senhora de Aparecia e rezavam juntos a Ave Maria, a fé  daquele povo era a base para que suportassem qualquer calamidade, fosse a fome, o fogo, a chuva, a doença,  era bonito de ver.

Em meio a tudo aquilo existia uma felicidade, um amor difícil de descrever, amor era o que sustentava aquele Barraco de dois cômodos, dizem que os inocentes são mais felizes, talvez se eles soubessem como o mundo os via, já teriam desistido!

Em certo dia na obra com os andaimes montados; o sol estralava, não existia segurança, capacete e nem cordas para os trabalhadores se sustentarem nas alturas, mas esses são os ossos do ofício, o legado  do trabalhador, sem exigir segurança, afinal

Eles não sabiam que tinham o direito de trabalhar em segurança, ou o direito a qualquer outra coisa, no DNA daquela gente havia sido programado pelos séculos de servidão a continuar a servir. E num descuido, aquele pobre caboclo que já não era tão jovem e bom das pernas, pisou em falso por conta do peso da lata de cimento que carregava, era o sexto andar. Como até hoje o homem é coisa e, portanto, substituível, um corpo no chão de um trabalhador era apenas mais um caixão barato para prefeitura. Para o patrão era um analfabeto a menos comendo ovo com farinha no chão e usando um boné da CUT.  Ele nem tinha nome, foi substituído na outra semana pelo Tião.

Mas, pra sua família, na sua rua e no seu bairro ele era o Seu José, homem honesto, pai de oito filhos. Nascido em Sete Lagoas, Minas Gerais, deixou de herança pra sua viúva uma dívida na venda da esquina, um retrato 3×4, oito meninos pequenos. E o legado de que o filho mais velho consiga um trabalho na obra, a filha arrume marido bom, fique em casa, tenham seus oito filhos. Mas perseguem com fé e esperança. Mal sabem seus senhores que aquela gente, aquela nação de serviçais, tem suas costas uma cidade inteira construída à calos,  sangue e suor.

Ouça nossa voz: Seu José.

7 comentários em “Seu José

  1. Ah, Seu José, é meu tio, meu avó, meu primo…é nosso Brasil aqui retratado, com seu sangue e cimento constrói a riqueza que nunca será para ele. Lembrei-me de “Construção” de Chico.Tocante, Elisa.

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  2. Lindo esse Seu José. Parabéns Elisa em retratar com tanta sensibilidade nossos trabalhadores de todos os cantos, migrantes como tantos outros parentes, refugiados nos territórios das grandes cidades que lutam e lutam e lutam. Lindo.

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  3. Nós sabemos, querida Elisa, e não deixaremos que sejam esquecidos nossos Josés, Raimundos, Paulos, Manus e Manoeis, nossas Marias e Ritas, Joanas e Aparecidas, nossas linhagens de bondade, honestidade e amor.

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  4. Seu José. Homem, força, trabalho, mãos calejadas, linhas no corpo que contam histórias universais e deixam sua marca no mundo. Josés que já morreram, Josés que resistem. Todos os dias vemos Josés construindo cidades, educando seus filhos, exercendo seus trabalhos dignos, resistindo no meio de um mundo de vaidades.

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