pára-neo-nóia

Charge por Renato Aroeira.

Carolina Tomoi –

“Eu sinto medo, eu sinto medo…”

Raul Seixas, Para Noia, Nova Aeon, 1975.

situação de guerra. lista de coisas a fazer. documentos no porta luva. evitar contato. sem bolsa. calças e blusa. proteção. sempre bom prender o cabelo. chaves. controle do portão. álcool. dinheiro no bolso. cartões no outro. celular. máscara. vamos lá.

ao sair na rua um frio na barriga. sensação de medo. o medo é invisível. o inimigo também. ele circula nas ideias. nas cabeças. nas mentes. nas entrelinhas da vida. nas propagandas. nas bandeiras do brasil. não podemos sequer admirar nossa politicamente incorreta bandeira.

o inimigo é invisível. coração bate forte. está no ar. olho para o banco ao lado. vazio de gente. que bom não encontrar ninguém. difícil não dar carona. como em alien. meu vizinho pode ser o hospedeiro. ao meu lado a máscara e o álcool.

executo as tarefas racionalizadas várias vezes. caminhe sozinha. não se aproxime de ninguém. não toque nos olhos. não toque na máscara. não toque no . já foi. não dá pra não ajeitar aquele fio do meu cabelo que teima em sempre escorregar na minha fuça. termina de digitar. passa o álcool. mãos. cartão. bolso. será que toquei antes no celular? já foi. álcool no celular.

ganho a rua. ar. mas não pode tirar a máscara. o inimigo é invisível. ele está nas pequenas aglomerações. em torno do cigarro no terminal. ambulantes. em torno do fúnebre carro oficial. na frente do açougue. três pessoas batendo papo na barraca de pastel. em frente a um condomínio de luxo espirrando. cumprimentando. na fila pra entrar no mercado. do lado da banca de cebola. na fila do pão. quero ir pra casa.

sacolas. chaves do carro. maçanetas. celular. cartão. álcool. álcool. álcool. chega. no caminho tiro a máscara. tiro o cinto. consigo respirar. não acabou ainda. o inimigo é invisível. sou hospedeira. infecto-me. infecto-te. infecto-lhe. será defectivo essa desgraça? se não for é feio mesmo.

o inimigo é invisível e o momento mais delicado. álcool e papel toalha. garrafas. potes. sacos. tubos. pacotões. pacotinhos. tudo isso vai mudar nosso jeito de ver o mundo. será que tinha que ter feito assim desde sempre. será que estava tudo errado? o que entrou na minha casa até então. álcool e papel toalha. garrafas. potes. sacos. tubos. pacotões. pacotinhos.

acabou. ainda não. entrada pela lavanderia. tira sapatos. esvazia bolsos. álcool. chaves. cartões. celular. dinheiro. controle. tira calça. tira blusa. aleluia. tira camiseta. meias. chuveiro. sabão. cabelo. pele. narinas. garganta. esfrega bem. esfrega tudo. o inimigo é invisível.

acabou. quase. sonho. ganhei a rua. respiro ar puro. o inimigo não é invisível. bolsonarinhos esféricos esverdeados me perseguem. tentando invadir minhas narinas. garganta. pele. cabelo. acordo. dores no corpo. ahhhrg colchãozinho. até o alien me fez dormir. banheiro e escovar os dentes. garganta. narinas. mãos. antebraço e cotovelos. o inimigo é invisível.

Ouça nossa voz: pára-neo-nóia.

6 comentários em “pára-neo-nóia

  1. Puxa! Sem ar! Acabei de chegar do sacolão e li o texto… me narrou. Para piorar tinha uma TV com pronunciamento do Bolsovirus assassino!!! A gente sai pa Re A comprar frutas e traz junto uma angústia, que o texto bem narrou… falta ar, já faz um tempo que os mais pobres estão sem ar, mas agora tem doído mais.

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  2. Traduzir numa narrativa, que é quase um thriller, nossos medos e angustias é um feito notável. Misto de humor e terror, se Zé do Caixão estivesse vivo daria uma ótima história para ele contar. O que dói mesmo Ana, é saber que sempre será o nós por nós, e o que estamos vivendo é escancaramento dessa necropolitica tão sintetizada no terrível ” E daí?” que ouvimos essa semana. Os inimigos deram as caras, tem nome e endereço, quer vacina melhor que esta? Mas o grupo antivacina cresce! Que fardo!

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    1. Ufa, que sufoco!😨
      E em casa as estatísticas disparam feito sirene de bombeiro…número de leitos, respiradores, óbitos…
      Como diz um amigo ” N. Sra. Do Chuveiro, dai nos resistência “!
      😉

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