Fitomulheres

Andréa Tolaini – Mandala. Em: https://blog.modayacamim.com.br/2017/04/26/cores-e-mandalas-da-artista-andrea-tolaini/

Arlete Mendes

Tem gente que acha que falo sozinha por pura esquisitice. Não falo sozinha, não. Andam junto de mim meus ancestrais. Falam comigo o tempo todo. Tem um pé de arruda que me benze, tira os banzos, quebra os quebrantos.  As onze-horas entoam juntas, sempre pontuais, uma cantiga de roda de outrora.

Ah, as roseiras! Vivem de queixume, também pudera, as cortadeiras, por pura pirraça, lhes arrancam as saias quando passam. As lágrimas-de-cristo, pobrezinhas, choram de tanto rir das troças e manhas de um pulgão galhofeiro.  Devo confessar que o jatobá é um enxerido, me faz sempre galanteios quando o encosto ao pé do ouvido.

Agora dei para falar a língua das pedras e dos passarinhos. Pasmem, hoje as pedras estão particularmente impacientes e buliçosas, mas isto é porque caminham sobre elas líquens e musgos falastrões. Pedras estão sempre à espera do verão, quando ficam livres para serem, enfim, o que são. Os passarinhos, uns fuxiqueiros, ficam num leva e trás que não tem fim.  Dia desses arrumei intriga com um sabiá, muito do metido, queria que eu compusesse uma canção em sua homenagem, como se já não houvesse repertório o suficiente na música e na poesia a idolatrá-lo. Gosta mesmo é de ofuscar as demais aves. Exibido!

Confesso que tudo isto começou bem cedo. Era muito menina ainda. Nunca vi estranheza nisto, não, era até comum. Vó beijava seu canteiro e gastava ali as melhores horas do dia. Não há quem chegue em casa de mãe que ela não aponte um broto novo que horas atrás não estava ali… “Vê, que beleza, minha filha, eis o único Deus que nos afaga”…

Apesar desse amor original, mãe não deixava a gente criar planta no quarto, dizia que maltratava as bichinhas, que de noite elas liberavam coisas que não faziam bem a gente. Mas teimei em criar uma jiboia num casco vazio de coca KS, resisti bravamente sem cair na sedutora proposta de trocá-la por rapadura ou pintinho. Seria meu depositário de verde. Trocava a água dia sim dia não, botava umas pedrinhas no fundo, para fazer peso, as raízes tirariam dali algum mineral. Ela não crescia muito, mas por ser valente pegou bem, estava sempre vistosa.  Mãe acabou por deixar, viu que aquele raminho não faria mal. Antes até embelezara meu canto de quarto.

Quantas confissões aquela jiboinha no vidro de coca-cola não ouviu? Uma adolescente migrante, que não sabe se preta, se branca, se índia, se norte, se sul, sofre um tanto, sofre um outro bocado se for cozida em histórias antigas e regada aos romances românticos com os quais passava dias e noites sobre o colo. Acrescente aí uma pitada de amores não correspondidos…sofre um tantinho mais.  Mas a jiboia era um acalanto, feitiço de cura que junto as benzeduras de vó me fechavam o corpo. No dia seguinte eu podia ler e sofrer um pouco mais.

Desde então nunca mais consegui viver longe de uma plantinha. Agora na estrada da velhice vivo no meio de uma mata. Teria caminho outro a seguir?  

Vou contar-lhes outro segredo, na verdade pertencemos a uma esquecida linhagem, somos o que Darwin não conseguiu catalogar, pertencemos à espécie das Phyto Feminae, só podemos ser felizes se estamos em simbiose com a terra. Nossas raízes são tão longínquas, tão profundas que chegam a alcançar os sonhos umas das outras.

Ah, e quando quiserem me visitar, podem vir, peço apenas que olhem no canto direito do portão. Tirem um dedo de prosa com as Marias-sem-vergonha, elas são boas de anedotas, e cumprimentem também o esparrameiro de jiboia pelo chão. Estranhem não, mulher é coisa brumosa, é coisa assim, feita de sonhos, de húmus, de pedregulhos e de voo de passarinhos.

Ouça nossa voz: Fitomulheres.

Publicado por arlete mendes

escrevinhadeira, educadora, mãe de meninos e meninas, amante da música, da literatura, da vida!

17 comentários em “Fitomulheres

  1. Que lindo!!! As plantas nos conectam. Por aqui tenho a onze horas, que me lembram meu avô e a roseira, lembram as avós. Elas vivendo, sinto os meus aqui perto come se m e olhassem e quando abre a onze horas, parece o vô me dizendo bom dia ou fazendo cócegas, que era bem coisa dele rs.
    Seus texto segue numa leveza e num ritmo da semente à flor… segue num ritmo que devia de ser a vida. Lindo como pelas plantas, contou sua história, suas experiências- da i infância a velhice – tal qual oo nascer, crescer das plantas.

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  2. Belíssimo texto! Para quem como eu tem 44 vasos de plantas num apartamento, que vai de jabuticaba a temperos, podem imaginar quão suspeita sou para falar delas, do quanto elas representam para mim.
    Não só falo como as escuto também! Uma terapia sem contar como embelezam esse espaço em meio essa “Selva de pedras”, metrópole poluída, chamada São Paulo!

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      1. Aqui feliz por ser também dessa espécie que Darwin não deu conta. Das inclassificáveis fitomulheres! Texto fluido feito as seivas que correm nos vasos alimentando folhas, fazendo frutificar essa lindeza poética toda!

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  3. Texto me lembra as maos de terra, toda vez que precisei esvai, por tristeza alguma que me habitava, pai omolu me acarinha ao mesmo que responde meu clamor, e o faz em arrepios, Atoto!

    Senti vontade de trocar mudinhas com vc, eis que aqui manjericao virou mata!

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  4. As capacidades curativas das plantas e da literatura se enredam neste texto. As Phyto Feminae nos arrebatam pela sabedoria, simplicidade e amor.
    O que seria de nós se acolhêssemos essa sabedoria ancestral? Intuitivamente mais poéticos. Para dizer o mínimo. Talvez bastasse….
    Identificar nas mulheres de nossa história a força arrebatadora das plantas, da natureza. Cada uma carregando as propriedades curativas e a força de uma planta, erva, tempero.

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