A vida acontece de perto

Simon Glucklich (1863 1943) – The Homework.

Ana Karina Manson –

Se eu te perguntasse qual é a sua melhor lembrança da escola, o que me diria?

Suponho que alguns recordariam aquele amigo engraçado que sempre fazia toda a turma rir; outros lembrariam do coração batendo forte ao reconhecer o primeiro amor; há quem também se lembrasse daquela amiga que te ajudou nas lições e outras que te ajudaram a fugir das lições.

Claro que não podemos ignorar que o aparecimento cruel de algumas lembranças, que teimam em permanecer, quando seus donos preferiam deixá-las no baú do esquecimento como a fala da professora tão elegante que chamava as meninas de “bonequinhas de piche.” Devo dizer que ouvi na minha infância uma professora chamar assim às minhas amigas e, na minha ingenuidade infantil, sabia que era um xingamento, mas só mais tarde fui conhecer o tamanho da crueldade e racismo que estava nestas palavras. Hoje não dimensionar o quanto isso marcou duramente minhas amigas, porém sei que em mim aquela professora, cuja elegância me encantava, passou a me provocar aversão.

Certamente que não só pela dureza das palavras, do olhar ou mesmo da palmatória os professores seriam lembrados, mas também pela doçura que alguns exerceram com extremo zelo e cuidado.

Outros recordariam as lutas políticas, as bandeiras levantadas coletivamente e, ainda que nosso voto ou debates no pátio da escola nem sequer fossem ouvidos pelos executores da política em nosso país, nós ouvíamos uns aos outros e aprendíamos a fazer política; aprendíamos a ser cidadãos e a importância disso.

Também os aniversários dos colegas com banho de ovos na saída ou bolo feito na casa de alguma amiga seriam lembrados e, quiçá, até o aniversário de algum professor que pego de surpresa encheu os olhos e o coração ao receber tal carinho em seu trabalho – privilégio de poucos.

Outras festas viriam à recordação de alguns – os bailes em que se dançava colado, sentindo o colo do amor adolescente; os festivais em que surgiam verdadeiras bandas de rock ou que faziam um pátio cheio dançar em sintonia um samba-rock indescritível; os saraus literários, cujos poemas ficaram na memória e no coração de muitos, descobrindo até as cores das borboletas “brancas, azuis, amarelas e pretas”.

E os passeios?! Quem dormia antes de um passeio, fosse a um museu monótono para a euforia adolescente ou ao máximo do desejo dos anos 80 – o indescritível Playcenter! (para os mais jovens, Hopi-hari povoa esta lembrança). O passeio era dividido em antes, durante e depois. Porque preparar-se já era parte da diversão: combinar com os amigos, quem sentaria com quem no ônibus, os lanches que levariam, as roupas que usariam, etc; durante o passeio algo mágico acontecia, outro mundo, em que o grande desejo era que o tempo parasse. Não parava, mas ainda tinha o depois, o dia seguinte em que se comentava incessantemente sobre os acontecimentos vividos como se falando deles a sensação fosse esticada – e era! Ah, e os segredos do que acontecera no passeio eram contados em tom baixo até que a escola inteira ficava sabendo dos ciúmes, dos amores, dos encontros e desencontros.

E não me refiro somente a lembranças de dias especiais, mas certamente o leitor agora deve se lembrar dos colegas que faziam contigo o caminho da escola diariamente, quem passava na casa de quem ou simplesmente esperava o colega na esquina ou no portão da escola. E quando chegavam atrasados! Estava aí posto um grande desafio adolescente!

Por tudo isso e mais um tanto de memórias que nos visitaram agora, que me assusto ao ouvir pessoas defendendo e aplaudindo uma pseudo educação à distância! A vida acontece no olhar, no cheiro, no toque, no rir e no chorar, no colo e no abraço… A vida acontece de perto.

E ‘vocês’ querem que minha filha só se lembre de uma tela?

Ouça nossa voz: A vida acontece de perto.

17 comentários em “A vida acontece de perto

    1. Exercício excelente de memória… Viajei reconstruindo cenas que vivi na infância nos tempos do grupo escolar. Mágico. Li primeiro, depois conferi a voz.

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  1. Aaaahhhh!!!! Que delícia! Eu sou dessas que nunca saiu da escola, sai aos 18 como aluna e voltei aos 19 como professora… Sempre defendi a escola, pra mim ainda não dá pra vislumbrar sociedade sem escola. O que vc fez foi mais que descrever, foi nos levar por um túnel cheio de sentidos e sentimentos. Lindo demais!

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    1. Eu também sou dessas que não saí da escola rs.Que bom essa parceria em defesa de algo tão precioso que tantas vezes é atacado e tratado como descartável. Também não consigo admitir uma sociedade sem escola! Gratidão.

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  2. Lindo texto. E a iniciativa de publicar em áudio permite que mais pessoas tenham acesso a reflexão. Parabéns. O texto nos trás lembranças da infância como potência para enfrentar a propagação do ensino mecanizado. Ser himano precisa de encontro, encanto e canto… toque e abraço.

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  3. Muito gratificante relembrar nesta manhã o que outrora vivi e sentir saudades !!
    Tempos bons e inesquecíveis que contriibuiram para meu desenviolvimento e certamente, pela pessoa que me tornei hoje. Realmente, não podemos deixar que privem nossos filhos de tais vivencias. Momentos de trocas, de alegrias, respeito mútuo, aprendizagens constantes e formações de indivíduos, de seres, tão únicos e especiais que são.

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  4. Eu também, Juliana, acho que nunca sai da escola. Gostei tanto que fiquei. Texto da Ana me levou a momentos de tristeza e alegria que somente esse espaço poderia me proporcionar. São vinte anos de magistério. Muitos amores, muitas dores. A escola é algo pulsante, movente, bicho engaiolável. É maravilhosa e cruel ao mesmo tempo, mas que não pode ser negada. Negar a escola e toda experiência concreta que ela proporciona é negar a vida. É negar o encontro entre o indivíduo e ele mesmo e suas próprias possibilidades, é como oferecer apenas um caminho a seguir, ignorando os voos e as prisões que matizam nossa complexa realidade.

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  5. Não tem como não lembrar dessa época tão importante da minha vida! As curiosidades, os medos, as descobertas, os segredinhos, o diário de cadeado, guardado a sete chaves, com promessas que certamente nunca cumprimos!
    Foi uma época mágica, tenho lindas e inesquecíveis lembranças! Embora a tecnologia seja importante nos tempos atuais, não consigo imaginar uma sala de aula virtual como base curricular! Parabéns pelo excelente texto!

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  6. Evocou-se as minhas memórias. E que delicia… Lembrei-me com o corpo inteiro de todas as escolas que passei e dos encontros que vivi. Toquei num povoamento de gente que estava escondida lá infância e na adolescência. Sorri, revivi, senti… Como é necessário e precioso o contato humano, né? Nada substitui a presença. Obrigada por me tocar com esse fino tecido de palavras. Um beijo cheio de saudade

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  7. Já são quase quarenta anos em escolas, sempre querendo mais, uma novidade, uma diferença, uma inovação. Mas no fundo, talvez, um desejo de ser como era antes, de sentir o que se sentiu antes.
    Me lembro que lá pela 4° série, minha mãe ficou muito triste comigo porque disse que se pudesse morava logo na escola.
    Tudo de bom e ruim acontece na escola. Acontecemos na escola. Quem sai da escola não esquece!
    Eu ouvi sem ouvir e ao te ouvir mesmo morri de saudades e senti vc pertinho… Coisas da quarentena ou só amor mesmo?

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  8. Nossa muito nostalgico esse texto Ana!
    eu pude lembrar dos uniformes horriveis , e das camisas mesmas , que viraram tela de recordacao onde no final de todo ano amigos escreviam nelas

    E ter o audio com sua interpretação , acentua cada frase.
    Amei

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  9. Que viagem no tempo fiz agora em tão poucos minutos! Senti até o cheiro e o lampejo das sensações de muitas épocas. Quanta lindeza! Texto belo, leve e carregado do valor que as memórias, mesmo guardadas, têm dentro de nós. A leitura em voz alta foi uma surpresa. Que delícia! Ana, sua leitura está perfeita, senti o deslumbramento de cada momento.

    Amei, voei…

    Cel

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