Mariana, para uma mulher todo medo é pouco!

Juliana da Paz –

– Quantos receios me trouxeram até aqui?

Pergunta-se Mariana ao observar sua bolsa tão cheia de coisas. Um mundo de medos ali dentro: guarda-chuva, tarot, agenda, remédio, olho de boi, absorvente, hidratante, pente, refrescante bucal, escova de dente, fio dental. Leva roupa de frio, mesmo em dia quente. Super precavida, acumula muita bagagem para expandir a vida que parece pequena, feito ela. Morena, miúdos cachos contornando um rosto quadrado, com furo no queixo! Olhos redondos e negros se assustando com o tempo, com a falta dele, com a rapidez do ônibus, com a filha chamando, com o dinheiro que finda. Fecha a bolsa e segue, mas se assusta:

 – Será que trouxe cachecol!?

Abre a bolsa, repara que está ali. Respira e abre a agenda, foto da filha, parecida com a avó Lúcia, uma citação do Djavan em letras roxas “Desencana, meu amor, tudo seu é muita dor, vive!”. Abaixo uma promessa para Santa Rita “Até o final do ano serei um homem, ou não me chamo Mariana. Mas eu quero ser um desses homens que carregam consigo só uma carteira no bolso. Desses que não se importam em chegar molhados de chuva no trabalho, que não usam um cosmético sequer. Vou ser um homem que usa o dinheiro do cosmético e da maquiagem, e da lingerie rendada e cara, e dos produtos pro cabelo, e da manicure, e da depiladora, e do creme pra estria, e da cirurgia plástica, e do remédio pra emagrecer, e do remédio pra dormir… Eu vou usar todo esse dinheiro para comer fora e comprar livros novos. Vai diminuir meu trabalho e vou ter tempo pra beber. Vou também comprar cerveja! Nossa! Pelo que estou vendo aqui ainda vai sobrar, então vou viajar e sair com as amigas”

Ela se divertiu com aquilo, era bom reler-se. Indo para o trabalho, dentro do ônibus, ficou se perguntando como chegou até ali. Naquele medo todo de não vencer, de não ser aceita, de ser demitida, de banho de chuva, de ser menos bonita, de ser menos magra… Foram as falas da mãe? Lembrou que ouvira durante toda a vida “estude bastante para não depender nunca de homem nenhum!” E foi! Mas junto teve que fazer tanta coisa. Teve que ser tudo o que se exige de uma mulher, esse medo não nasceu com ela, essa vontade de provar ao mundo que é inteligente, bonita, competente, magra, boa mãe – isso lhe assusta mais que tudo, bem vestida, sensual, desejada, simpática, cabelo sempre arrumado… Como todos esses medos chegaram devagar, e se cumularam em sua bolsa? Como se transformaram em sua bagagem diária? Por que é tão difícil cumprir a promessa feita a Santa Rita? E ela ouve a santa lhe responder com a voz da sua mãe, bem lá no fundo do seu juízo: “Mariana, para uma mulher, todo medo é pouco!”

17 comentários em “Mariana, para uma mulher todo medo é pouco!

  1. Sou homem. Sempre fui. Na vdd tenho me tornado mulher aos poucos a maternidade foi me trazendo a ser feminino não estético, mas o ser feminino da mãe terra. Da harmonia, da bruxaria, da união, conciliação.

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    1. E o medo de comentar e todo mundo saber que também sou Mariana? RS. E além das cobranças em ser tudo isso vem a cobrança para não ser… ufa… Queria agora u m a cerveja no bar com minhas Marianas (os) e conversarmos horas sobre esse texto!!!!!

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  2. Seu conto rápido e certeiro, bota luz nos medos que carregamos, nesta bolsa precisamos separar o medo que parte de todo ser humano, por isto deve ser compreendido, do medo construído especialmente para nos oprimir, este deve ser execrado. Sou muito Mariana, e assim como a personagem tenho consciência dos medos que carrego e da minha luta por desconstruí-los, acho que leva uma vida inteira esse processo, porque é contínuo e de eterna revisitação, ressignificando-o o tempo todo. Se na juventude fui a primeira jovem a usar calça mostrando a barriga, causando um bafafá na vila onde eu morava, foi porque meu pai me batia se usasse roupa curta. Já alisei, raspei, deixei loiro, deixei longo o cabelo só pela curtição de que posso brincar com minha imagem, assim como brincava de moldar o barro, minha brincadeira predileta. Acho que Mariana e eu somos feitas dessa mesma argila, e o melhor estamos no controle de que forma queremos nos mostrar para o mundo. Se bela, se feia, se boa, se má… isto será construído em resposta ao mundo que tenta nos intimidar. Hoje me moldo com um carranca bem feia para que os medos me olhem e fujam correndo de mim.

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  3. É curioso como temos medo de tanta coisa e tantos desafios temerosos deixamos pra trás num dar de ombros. Na verdade esse medo é o olhar do outro, porque a dor, ahhh, essa tiramos nas letras.
    Que linda Mariana!

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  4. Juliana, apreciei muito o dinamismo da sua narrativa e a fluidez das percepções, dos olhares que subitamente vão dentro e fora como se não existissem os limites. É a materialização da nossa rotina por meio da exatidão da palavra. Somente nós, Marianas, Marias, Terezas, Cecílias sabemos os pesos que carregamos em nossas bolsas e em nosso transitar por tantos papeis. Os medos nos fortalecem e nos impulsionam, jamais derrubam. Tornam-se até pequenos, como algum batom ou anotação de papel.

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  5. lembre-me desse texto sobre a minha gravidez.
    Quando fui fazer o ultrasom pela primeira vez e soube que eram gemos, imediatamente eu perguntei o sexo.
    Tinha dado tempo da pergunta, antes do desmaio.

    Soube apenas 1 mes depois , eu ja de 4 meses dos multiplos e quando soube serem meninos, alivei.. ( um pouco)

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