Para meus ancestrais

Retrato de Mulher – Benedito José Tobias.

Elisa Dias

Eu tinha sonhos que para uma menina de pés descalços não era permitido sonhar.

E nunca entendia porque minha mãe sempre entrava acuada nos lugares, abaixava a cabeça e dizia “sim senhor”, ou porque aquela família branca a apadrinhou,  arrancada de sua casa das matronas de Minas Gerais, ou porque virou para aqueles italianos fugidos da Segunda Guerra, mais uma de suas serviçais. Te demos um teto , escola e comida , mas se a casa não estiver  bem limpa vai comer lavagem com os porcos e dormir no relento tomando chuva e tomando vento. E olha que aquela menina só veio pra Cidade com o sonho de estudar e ter uma oportunidade.

Eu nunca soube que meus pais eram pretos.

Ou que nós éramos pobres ou  que morávamos na favela. Aquele era meu mundo e eu não conhecia nada além daqueles  becos e vielas, aquelas pessoas eram apenas meus pais, meus irmãos, meus vizinhos e amigos.

Até que um dia entendi, mesmo sem querer, a sociedade me fez chorar me colocando no meu lugar, me rasgando o peito, me fazendo sentir remorso por não poder  fazer nada já que o mundo estava com a visão completamente vendada. Foi o dia que meu pai levou um soco na cara, por parecer um marginal,  alegou o homem branco – “achei que aquele preto ia me assaltar, nunca vi ninguém como ele nesse lugar”.

Naquele dia o peso do mundo caiu sobre mim. Éramos livres, mas não tínhamos direito de ir em lugar algum, nosso espaço era delimitado, pela nossa classe social e nossa cor , fomos acorrentados e eternamente escravizados. Por muito tempo aguentamos tudo calados, o mundo nos forçou a acreditar que era esse nosso lugar. Aceita que a mulata nunca vai casar, só serve pra fornicar, a única empresa que o neguinho da favela vai entrar é a do tráfico, começa avião e, se tiver sorte, um dia vira gerente de boca ou membro de alguma facção. Aceitar que os únicos lugares que vamos trabalhar são os subempregos, o subsalário e a subvida. Para ator branco do filme o papel principal e o preto só se  for filme pornô ou marginal.

Eu aprendi a lutar quando fiquei  cansada de engolir que  o mundo não era lugar pra mim ou pra minha gente, eu teria que aceitar a condição que nasci pra ter dias de preto, pra ser criado mudo, pra fazer magia negra, pro meu cabelo ser palha de aço, pra ser comparada com macaco, pra alguém me consolar e falar você não é preta não, é parda.

Eu sou herdeira de Dandara, tenho correndo, fervendo, borbulhando nas veias o sangue de Zumbi dos Palmares. Eu sinto as dores das minhas antepassadas que tiveram seus filhos arrancados, seus corpos estuprados, hipersensualizados e mutilados pelo chicote da ignorância humana: o racismo. Eu ouço na minha cabeça o choro da minha mãe criança sendo espancada, e sinto o gosto do sangue da boca do pai, o corte feito naquela noite onde era completamente errado por apenas existir, ainda mais ter seu corpo preto presente ali. Eu sinto meu corpo sendo perfurado por 80 tiros, eu choro o choro da mãe da Ágata, e aprendi com Marielle e tantos heróis como nós , que nunca, jamais ninguém vai calar a sua, a minha, a nossa voz !

8 comentários em “Para meus ancestrais

  1. Seu texto fala de segregação e consciência. A cada relato em primeira pessoa, um contato imagético-afetivo que, quem sabe, toque cada leitor/a e permita in-corpo-rar essa mesma indignação e sensibilidade como um contra-veneno à naturalização dos lugares postos aí pela sociedade, que somos, nesta geração, nós.

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  2. Escrevi uma memória essa semana, e ler a sua, Elisa, me explica ainda mais minha grande afeição por você, por sua arte! Quantas injustiças, quanto cerceamento ainda sofreremos? Não sei dizer, mas me fortalece saber que a dor virou luta, creio que seja o mais nobre caminho a seguir. Sigamos Marieles, Dandaras, Marias Bonita, Donas Sinhás…porque a batalha ainda é grande!

    Gratidão!

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  3. Que texto, que grito!!!! Minha angústia é ver que tantas coisas descritas foram consideradas normais nesta sociedade preconceituosa e é preciso lutar para desconstruir isso. Essa voz tem que ecoar agora mais do que nunca!!!!

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  4. Esta bela prosa poética não nos permite esquecer o quanto a dor e o sofrimento são insignificantes aos olhos dos dominadores; o quanto precisamos apertar nossas mãos para continuarmos e ao lado de quem realmente devemos nos posicionar.

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  5. Elisa seu texto me fez reviver varias angústias da infância que também não conseguia entender, só vivia. Hoje, sei e consigo nomear cada uma delas. A “normalização” por parte de quem sempre viveu sendo explorado é algo que inquieta até hoje. Quem sabe um dia consiga me sentir “capaz” de escrever minhas memórias. São muitos anos de”isso não é pra você” pra se livrar e ter coragem. Obrigada por acender uma faísca!

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  6. O seu grito é o nosso grito. Que potência de voz! Que liberdade cantada e ouvida nos quatro ventos. É luta diária, é resistência, é existência! É legitimidade e ancestralidade. Que as correntes sejam quebradas por mulheres pretas e fortes por seus textos e escritos que sangram, como o seu.

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