O pássaro

Foto de Celane Tomaz.

Celane Tomaz

Um pássaro pousou na minha varanda. Rompeu a minha vista das cores do fim da tarde. Seu repentino pouso foi ruptura do instante do meu monótono hábito de observar e endeusar o céu – a sua morada. Corpo miúdo, pisada frágil e olhar atento. Cabia na concha das mãos, mas com tudo que era, procurava.

Olhava o pássaro, pequeno e destemido, de dentro da minha gaiola. Tinha sede. Procurava água, talvez se saciasse com alguma migalha, mesmo estando à sua frente o mundo inteiro.

Prendi minha respiração e meus movimentos para que ele ficasse ali o tempo que quisesse, sem espanto, sem surpresa, sem lamento. Sem que precisasse partir irracionalmente, respondendo apenas – a duras penas – seus extintos de ave.

Naquele momento, renunciei meu peso vivo para que ele, inconscientemente, pudesse ocupar o meu espaço de existência. Recordo de agir de forma semelhante em outras situações e lugares. Prendi meu fôlego para que outros pudessem respirar, sem que fossem partidos por seus medos.

A existência mínima me surpreendia. Qual seria seu próximo passo? Sua próxima escolha? Seu inesperado gesto? E se me percebesse ali tão perto e tão longe? Se me visse olhando-o tão ambiciosa e perdida como ele ali?

Sua penagem era harmônica, amarelo limpo com marrom marcante. E ele não sabia que era assim. Em pensar que ele não pensava. Não era um pequeno refém de fluxos e fluxos de consciências e pensamentos, antes de escolher voar ou pousar. Apenas voava e pousava. Em saber que ele não se percebia. Não reconhecia seu reflexo nas desconhecidas janelas da cidade e não perdia seu tempo de viver em questões sem respostas. Talvez o peso dos nossos corpos e a nossa procura fosse o que teríamos em comum. Talvez a invisibilidade das nossas presenças fosse o que existisse de mais intrigante e completo.

Enquanto tudo me assobiava, um barulho nos assustou. E eu o vi partir, tomando para si, em segundos, aquele céu que eu pensava ser só meu. Seu bater de asa, num caminho sem rota, corrompia o ar. Soprava dele outro vento. 

O pássaro era o retrato vivo da minha natureza. Haviam marcas de coragem no seu tempo de vida indeterminado, a realidade na carne de uma sobrevivência que os seres racionais conhecem como um dia após o outro.

Um pássaro de busca ávida e vida tênue, desperto diante de seus medos, voou. E em nosso súbito encontro, silenciosamente cantou para mim a sua liberdade.

11 comentários em “O pássaro

  1. O sujeito que rompe sua rotina com a vida que chega e o invade. Não somente isto, ele é, de alguma forma, modificado por esse encontro. Ocorre ao final uma transmutação, sujeito e pássaro já são um só. Narrar sob a perspectiva da transmutação é um voo belíssimo, permite que leitor e narrador também sejam o pássaro, o voo, o céu, e experimentem esse sentimento tão fugidio que é a liberdade.. Parabéns Celane! Obrigada pelo pouso e pelo voo.
    P.S. Já que você está lendo Orides, leia o Pouso…tenho grande paixão por esse poema, tanta que até o musiquei!
    mil abraços

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  2. Me toca a frase que diz: “Olhava o pássaro, pequeno e destemido, de dentro da minha gaiola.”
    Pois é assim que somos ne? A liberdade toda estao nesses seres, que parecem nao pesar…
    Sensivel demais, amei

    Curtido por 1 pessoa

  3. Incrível refletir sobre a refletida imagem que nada mais significa que o outro e que nem por um momento aventa a possibilidade de si mesmo? Como viver sem essa consciência? e ainda assim viver. Certamente quando entendermos como é ser natureza possamos apenas viver!
    Sempre lindo e intrigante!

    Curtido por 1 pessoa

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