Desterradas

Nice Firmeza – Sem Nome – MiniMuseu Firmeza

Arlete Mendes –

Desde que me entendo por gente eu escrevo, escrevia até quando nem sabia juntar as letras e decifrar o código. Escrever é ir além do código. Este é apenas o trem que se pega rumo ao destino, sempre inesperado…

Aprendi a escrever com minha mãe, ela escrevia histórias de aventura com seu cavalo Bolero. De como o pai a vestia de calças e de coragem. Minha avó também me ensinou a escrever, a colher bosta de vaca com a mão e ser grata por isto. Minha avó dizia que eu estudasse para ir aonde ela nunca pode chegar. Estudei, aprendi a escrita dos homens, mas ainda não escrevia como elas. Aquele fraseado cantilenado, cheio de volteios, suspiros, choros e risos. Com palavras desterradas.

Dia de faxina, limpando o guarda roupa achamos cartas antigas de minha bisavó, Luiza. Toda em verso, com acrósticos e figuras. Achei uma lindura, não sabia que nós também escrevíamos assim em palavra pregada no papel. Perguntei a mãe, ela disse:

– Mãe Iza é poetiza*. O que tem de brava tem de inteligente. Um cisco de gente, muito invocada. Escolhia quem ia querer bem. Só gostava de mim e do Dedé, dentre os quase trinta netos. Aprendi a gostar ainda mais de fumar com ela. Não sei porquê mas eu queria um bem danado a ela, e ela a mim.

Eu comigo imaginei o porquê, mas não disse para não levar uns cascudos. Fiquei por muito tempo com as cartas guardadas.

Quando eu tomei tenência e já arrastava duas crianças pelo braço, voltei à casa de mãe Iza. Na viagem levei Grande Sertão: veredas. Eu, Rosa nossas veredas, nossos sertões emaranhados. Peguei um ônibus de Fortaleza a Ocara, o motorista fez uma parada. Entrei numa lanchonete e procurava algo para comer, quando uma senhorinha me tocou num grande sorriso:

– Você é parente da Sinhá, não é? Você é a cara dela, éramos muito amigas. Olhando pra você me aperta o peito de tanta saudade dela. Posso te abraçar?

Quem em sã consciência negaria um abraço desses? Cheguei molhando o chão daquela terra.  Choro de Chorozinho. Eu, afluente do perene Choró. Aquela Ocara de tantas histórias que havia lido na boca de minha avó. Ali bem em frente a mim. Tinha fugidias memórias. Do dia em que íamos embora e o primo Del me escondera de minha mãe. O pé de caju rasteiro, único que eu conseguia trepar. Aquele sol que não tinha fim de tão amarelo.

Pedi a prima Val que me contasse de novo a história do Príncipe Tejo. Ela contou resumidamente dizendo que eu era criança boba que não crescia nunca. Passei a tarde na cadeira de balanço da minha bisa, ouvindo as histórias daquele povoado envolto em tristeza, beleza e mistério.

Não encontrei o que eu mais queria, os escritos de Mãe Iza, a poetiza. Havia narrado a vida em prosa e verso. Cantou seu bem e seu malfazejo. Infelizmente os escritos desapareceram. Como a água evapora em tempo de seca no açude. Sem vestígios, nada além dos torrões de lembrança na memória dos viventes. Um desolamento bateu em mim como um croque de Dona Sinhá, daqueles bem dado, lá no meio das ideias, com seu dedo indicador aleijado sempre pronto para cascudar. Como pude ter sido tão desleixada e perdido as cartas!

Antes de partir, chupei umbu do último pé de planta que meu avô havia semeado. Tinha o agridoce da saudade. Não tive coragem de vê-lo em cova.  Fui atrás do cajueiro, não estava mais lá, logo depois que mãe Iza se fora, mandaram derrubar. Voltei ao desterro, na certeza que carregava em mim todos aqueles grãos de gente e mãos ásperas o suficiente para semeá-los, ainda que em terra fria e cinzenta haveria de achar um meio de germinar, carregava um sol na mala e o Choró no olho.

* poetiza com “z” trata-se de uma licença poética. Remete ao nome da poeta.

Publicado por arlete mendes

escrevinhadeira, educadora, mãe de meninos e meninas, amante da música, da literatura, da vida!

19 comentários em “Desterradas

  1. É tão emocionante quando a gente lê a literariedade abraçar memórias… Memórias que podem dialogar entre o verossímil e o fictício. Mas o interessante, é que a gente lê este texto literário e volta tb a nossa intimidade que, por vezes, quer voltar aos nossos sertões. Mas não pra ser nostálgica, mas pra gente nunca esquecer a nossa origem. Muito delicioso ler vc, prima. 🌹😘.

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    1. Ah, sertão…” Mundo é mesmo meio misturado”, já dizia nosso grande Rosa. Nossos histórias de desterro são cruzadas, o desterro é uma constante no mundo. Feliz por ter te tocado,assim nossos mundos se encontram, se tocam e se misturam…saudades!

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  2. Nossa Arlete que frase tocante, “carregava um sol na mala e o Choró no olho.”
    Me lembrou varias vezes de mim , minha historia, a minha apenas no imaginario pois nao conheci minhas avos, nenhuma delas.
    Mas tenho uma historia com um pé de limão sobre meu avo…
    Nos vemos em linhas…

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    1. Sinto muito, querida poeta, é uma tristeza não conhecer a avó. Eu carrego vivências com minhas duas avós, depois o desterro me afastou de uma. Pude ter o privilégio de conviver com minhas duas bisavós, quando muito pequena, tenho algumas lembranças. Elas representam minha vontade de viver e de amar o mundo.
      Curiosa por essa história do limoeiro.
      Mil abraços

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    2. Sou suspeita em meus comentários porque sou sua fã! Admiro sua escrita que sempre me remete a uma viagem no passado saudoso, de volta às minhas raízes tão profundas! Continue nos emocionando! 😢❤😘

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  3. Sabe o que me surpreende mais. E me empolga. Não há como ler as crônicas-contos de Arlete Mendes de forma indiferente. Não há como ler “Desterradas” sem se sentir um pouco lá. Em Ocara, sem imaginar o Choró e se desmanchar junto a leitura.

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  4. Não tem como não tirar os pés do chão em não sair em busca de outros tempos e outros caminhos, lugares nunca antes pisados mas enxergados por teus olhos tão molhados. Até o coco da cabeça ainda dói. Lindo!

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