Trombas d’águas

Foto em Escapadas On Line – Waldyr Neto.

Ana Karina Manson

Há alguns anos visitei Paraty e, não sendo a primeira vez, já conhecia a beleza da cidade, o clima agradável, a parceria entre história e cultura que nos invade pelos poros sem que percebamos.

Todavia, nessa visita em questão o que me invadiu foi algo que tenho dificuldade em explicar.

Pois bem…

Já estava viajando há alguns dias e um tanto desconectada dos meios de comunicação (falo de um tempo em que celular era usado como telefone simplesmente).

Quando entrei na cidade e comecei a andar por suas ruas que outrora me trouxeram tanta diversão, alegria e amor, agora me faziam sentir uma angústia, que não era minha, mas estava no ar. E recebia essa dose de dor pelo que respirava, pelo que me tocava.

Meus olhos completavam tal sentimento, pois viam ruas com algumas marcas de lama já secas pelo sol.

Lembrei-me então de algum comentário sobre uma tromba d’água, que invadira a cidade, causando destruição.

Se agora me recordo, isso foi lá pelos primeiros dias de dois mil e nove.

No entanto, o que me intrigava é que eu não via nada destruído; eu sentia.

Era como se algum grito de repente se calara, mas deixara suas partículas no ar. Anseio que a física possa explicar minha hipótese. Ou não.

Sei que dia desses voltei a sentir algo semelhante quando, numa ação comum à minha rotina, fui comprar frutas perto de casa.

Foi triste e tenso sentir novamente essa dor alheia, essa angústia que é do outro e que também é minha, ao entrar no estabelecimento e notar as pessoas mais caladas do que sempre. E nem é que conversavam antes, mas agora calavam esse grito de dor e medo.

É um outro silêncio.

Trata-se do silêncio do estranhamento, do receio de que alguém escolhendo laranjas inocentemente seja seu grande inimigo e possa lhe trazer um vírus mortal, parecido com aqueles que já vimos em ficção científica, porém agora ele não chega pelo correio ou pelo apertar de um botão em algum lugar super secreto.

Chega, no entanto, com o seu igual que tão somente escolhe frutas.

Talvez seja justamente essa a lição que os sobreviventes levarão em seus dias: fazer escolhas melhores; escolher ser melhor.

Certamente aqueles que agora escolhem frutas, fechando seu canal ao outro como se estivesse numa guerra, sequer pensa nas batalhas cotidianas daqueles que não podem escolher o que comer, vestir, dormir, viver.

Ainda não sei quantas trombas d’água invadirão nossos poros até que possamos olhar e sentir o outro como um igual.

10 comentários em “Trombas d’águas

  1. Belo texto. Parabéns! Para não se surpreender com outra tromba d’água, talvez a segurança seja a terceira margem do rio. Mesmo assim estaríamos rodeados desse estranho silêncio.

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  2. Talvez para não se surpreender com outra tromba d’água o bom refúgio seria a terceira margem do rio, mas mesmo assim estaríamos cercados pelo estranho silêncio.

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  3. Gosto muito desse tipo de condução do narrador, uma viagem perspicaz pelo mundo interno e externo…pela vida. Gosto muito desse olhar empático desse narrador. Precisamos mais do nunca de empatia, já que esse sentimento parece ser ignorado por muitos, sobretudo aqueles que estão em situação de poder.
    Gratidão, amada amiga, parabéns por essa lindeza de texto.

    Curtido por 1 pessoa

  4. Ana, eu admiro demais a sua leveza. É leve como pessoa, como mulher que pensa, profissional e escritora. Suas palavras são plumas! Brisa no meio dessa tromba d’água que tomamos nesses tempos incertos.

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  5. Ana, eu admiro demais a sua leveza. É leve como pessoa, como mulher que pensa, profissional e escritora. Suas palavras são plumas e brisa no meio dessa tromba d’água que nos atinge nesses tempos de medo e indiferença diante dos iguais.

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  6. Toda vez que penso , “nas batalhas cotidianas daqueles que não podem escolher o que comer, vestir, dormir, viver”
    habita tromba d’água em mim…

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