Virada de ano em Maceió

Juliana da Paz

Foi uma noite de festa. Toda nossa pequena rua Marcos Aurélio na casa da Vânia, esposado finado Cícero. Lá sempre ocorriam grandes festas com forró e axé das 19hs às 4hs da manhã. Todas as famílias da ruazinha comungavam da falta de solidão. Tinha caldo de mocotó, sarapatel, cerveja refrigerante, muitos perfumes no ar. Findava-se um ano, iniciava-se outro. Já era verão forte e às 5hs todo mundo já acordava com o sol desavisado das 9hs.

Minha mãe se apressava em colocar uns sanduíches e umas laranjas descascadas dentro de nossas mochilas da escola. Também levávamos toalhas e água. Às 6hs da manhã já nos despencávamos para o ponto de ônibus. Nada era mais feliz e libertário que o ano novo começado a se jogar, milhares vezes oceano adentro. Eu, minha mãe, meu pai, meus irmãos e todas as outras famílias da festa.

O mundo era nosso. Era como se fôssemos, dentro de quarenta minutos tomar de assalto, feito anarquistas, toda a praia de Pajuçara para nós, os insubordinados moradores da favelinha da Marco Aurélio. E o fazíamos! Só devolvíamos as águas salgadas à classe média maceioense às 17hs da tarde.

Corpos salgados e queimados, que insistiam em se impor, avisando que ao menos o mar e o sol eram para todos.

17 comentários em “Virada de ano em Maceió

  1. Meu pai era jogador de várzea e organizava junto com os amigos campeonatos e excursões, a vila toda que acompanhava o time, era a torcida organizada. Eram os únicos passeis que fazíamos aqui em SP, na década de 70 até 90, a ideia de coletivo era forte. Ninguém tinha carro, as conduções no Embu sempre muito precárias. A gente andava em bando. Todos cuidavam de todos. Dos bêbados, dos contundidos, das crianças. Eu, muito menina, adorava aquela bagunça e a farofada que fazíamos, no interior ou no litoral, éramos sempre perseguidos por olhares desconfiados, na época não entendia muito bem. Mas teu texto hoje me fez lembrar o porquê. Bora disputar esses espaços, assim como disputamos o espaço da escrita, indo na contra mão da industria editorial e do elitismo que envolve a produção literária!
    Parabéns, Ju !

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  2. Histórias de kombis, Brasílias, farofas e alegrias de praia, mais uma alegria comum escavada aqui. Lembro que os jornais nomearam “arrastões” a coisas muito semelhantes a isso. Hoje, “rolezinhos”. Cidades e praias sitiadas são nossas experiências desde sempre. Não a toa estamos no estado em que estamos…

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      1. O texto me fez viajar para um tempo longe, lá na infância e num outro que era agora mesmo, esses dias… e estar junto era tão natural e bom. Também me fez pensar no egoísmo de alguns que pensam que podem mais e encontra nesse sistema insano o respaldo para poderem! Dói…

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  3. “O mundo era nosso. Era como se fôssemos, dentro de quarenta minutos tomar de assalto, feito anarquistas, toda a praia de Pajuçara para nós…”
    Tomar de assalto todo o mundo.
    Feito anarquistas!
    Bora lá.
    Adorei.

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  4. “Corpos salgados e queimados, que insistiam em se impor, avisando que ao menos o mar e o sol eram para todos.” Lindo!!! Privilégio é poder dividir as experiências, dominar os espaços, ocupar aquilo que devia ser de todos por direito. É lindo o movimento dos corpos que resistem!

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